Drama urbano de Toni Venturi tem São Paulo como pano de fundo
Desalento. Em meio ao caos, não é surpresa recorrer às amarras invisíveis do inconsciente para ter forças perante desafios cotidianos. É esse o ponto de partida para o novo longa do diretor Toni Venturi, Estamos Juntos.
Algo que pode ser constatado logo nos minutos iniciais - São Paulo vista de cima, em uma filmagem turva, que desloca os prédios e provoca certa vertigem. Dessa forma, o espectador já se sente angustiado e em busca de algo em que possa se segurar. Sensação rapidamente rebatida pelo primeiro contato com a protagonista.
De passo firme, Carmem (Leandra Leal) tem a possibilidade de um futuro brilhante em mãos. Acaba de sair do interior do Rio de Janeiro para a metrópole paulista. Médica residente, tem a sua vida dividida entre o hospital e os estudos. Apenas quando sobra tempo, acompanha o amigo Murilo (Cauã Reymond) às baladas. O ator abandona aqui o constante papel de galã e mostra uma interpretação um pouco mais sólida no papel de um homossexual que também veio do interior do Rio de Janeiro e trabalha como DJ.
A trajetória pouco problemática é interrompida por uma grave doença que afeta Carmem. Posta em confronto interno, ela deve adaptar os pormenores cotidianos com a iminência da morte. Para encontrar forças entre a abstração e a realidade, inicia um relacionamento com o argentino Juan (Nazareno Casero) e passa a ser assistente em uma comunidade carente localizada próxima à bela Estação da Luz.
A fotografia de Lula Carvalho conduz uma delicada abordagem poética da capital paulista, a começar pela escolha de locais da cidade pouco exibidos em filmes. Oferece, assim, o cenário ideal para a ambientação do drama urbano.
A direção de Venturi e o roteiro de Hilton Lacerta (Amarelo Manga) evitam um desfecho previsível. Em diversos momentos são colocadas situações nebulosas, uma forma de não entregar a solução de imediato ao espectador. A começar pela presença de um misterioso homem na vida de Carmen, interpretado por Lee Taylor.
O enredo se desenvolve de forma clara e completa, mas sem se prender à obviedade do início ao fim. Há claramente temas recorrentes em todo filme nacional, como a sexualidade e a injustiça com os menos favorecidos. Mas a abordagem não é tão incisiva sobre esses temas - demonstram apenas traços comuns à realidade brasileira.
Elementos agregados de forma consciente e na dose certa, mesclados com bons profissionais envolvidos, tornam Estamos Juntos uma obra que não passará em brancas nuvens diante de público já acostumado às constantes falácias do cinema nacional.
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