A cobertura do genocídio em Ruanda e o espaço das pessoas com deficiência na mídia foram temas analisados
A última mesa do 9º Fórum de Pesquisa mostrou o que podemos esperar de um campo tão vasto do conhecimento que é a comunicação. O tema Cobertura jornalística na sociedade contemporânea abrigou diferentes abordagens sobre como a informação transmitida pela mídia interage e constrói o que chamados de “realidade”. Mediada pelo Prof. Dr. Luis Mauro Sá Martino, a oitava mesa do Fórum de Pesquisa contou ainda com a presença de alunos da graduação, pós-graduação e mestrado, que lotaram a Sala Aloysio Biondi.
Fernando Augusto Simões Saker deu início à série de apresentações falando de sua tese de mestrado Jornalismo e pessoas com deficiência - Construção de conceitos e superação de estigmas por meio da comunicação, que defendeu no ano passado. Jornalista formado pela ECA-USP, ele buscou trazer em sua dissertação uma análise do tratamento dado às pessoas com deficiência.
Além disso, a pesquisa analisou a influência da imprensa na formação de estigmas sobre essa parcela da sociedade, que representa 14,5% dos brasileiros. Tendo como base as matérias publicadas na Folha de S.Paulo e no Estado de S. Paulo, Saker procurou explicar o conteúdo das reportagens a partir de referenciais teóricos baseados em conceitos teóricos, estudos culturais e latinoamericanos de comunicação.
De acordo com o pesquisador, “a estigmatização não parece ser intencional, mas está enraizada no leitor e no jornalista”. Mesmo assim, Saker acredita que pode haver solução para alguns problemas, como a cobertura superficial, a exclusão do tema nas pautas e a ausência de voz por parte dos deficientes. O jornalista aponta que um meio eficaz é o contato com os movimentos sociais ligados a essa parcela de pessoas e uma maior atenção na formação de novos jornalistas.
TRAGÉDIA EM RUANDA
A mesa seguiu com Márcio Harada, especialista em Comunicação Jornalística, que trouxe um tema pouco abordado na área de pesquisa: a influência e o papel dos principais meios de comunicação de Ruanda durante o genocídio que assolou o país em 1994.
A pesquisa Apocalypse Deux: O papel dos jornais Kanguka, Kangurra e Kinyamateka e das rádios Rwanda, RTLMC e Muhabura no genocídio de Ruanda introduziu a discussão sobre o papel das rádios e jornais do país africano a partir do contexto histórico da colonização do país, marcado pela pobreza e pela segregação racial. Com o início do genocídio do povo hutus contra tutsis, dos 60 veículos de comunicação beneficiados pela Lei de Imprensa que vigorava no país, cerca de 50 foram fechados ou passaram para as mãos dos governos. A partir de então, discursos e uma programação manipulada incentivou a onda de mortes na época.
Harada disse ainda que muitos jornalistas fugiram do país e que a cobertura foi superficial e feita à distância, resumindo o conflito a uma “guerra tribal”. De acordo com o pesquisador, “apesar de ser um genocídio escancarado, foi divulgado tardiamente”. Por isso, ele concluiu a sua apresentação dizendo que cada vez mais o jornalismo “deve se abrir para temas fora do comum”, lembrando que ainda há sequelas do massacre que matou 800 mil pessoas em 100 dias.
MATRIX
O terceiro e último trabalho exposto foi Sociedade em desencanto – Análise pós-moderna do filme Matrix nas revistas de curiosidade científica, pesquisa de iniciação científica de Nathan Elias Fernandes, aluno do quarto ano de jornalismo da Cásper Líbero. A partir da definição do cenário pós-moderno em que vivemos, ele falou sobre a influência desse período nas produções cinematográficas e, consequentemente, na mídia.
Com base na idéia de que a pós-modernidade é um período de crise dos valores perpetuados pela modernidade, o pesquisador partiu de teorias como o niilismo em Nietzsche para relacionar o número de filmes produzidos sobre catástrofes envolvendo o fim do mundo. Segundo ele, essas obras se relacionam com a incerteza que essa crise traz ao ser humano, até mesmo em referências do universo pop como Legião Urbana, Watchmen, entre outros.
Nathan Fernandes também dividiu essas produções catastróficas em três categorias: as que partem de um mal natural (terremotos, alterações na rotação da Terra, etc), de um mal externo (extraterrestres, por exemplo) e de um mal social ou moral, no qual encaixa Matrix (as máquinas criadas pelo próprio homem geram sua destruição). A escolha pelo filme se deu por causa da quantidade de material teórico já produzido sobre ele. Os objetos principais de estudo foram as revistas Galileu e Superinteressante, que relacionaram o filme com questionamentos sobre o que é a realidade e, até mesmo, mostrando cientistas que buscavam provar as teorias levantadas pelo longa-metragem.
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