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31/05/2011 - 15h24 - Atualizado em 23/05/2012 - 12h59

Slavoj Zizek reflete sobre o conceito de “nuvem digital” em mesa do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural

Tiago Mota

Com base na ideologia marxista, o pensador acredita que é importante pensar nas ideologias presentes nos conteúdos divulgados pela mídia

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Divulgação
O escritor eslovendo explicou o conceito de
"nuvem digital" durante a palestra

No último dia de debates da edição deste ano do Congresso Internacional de Jornalismo, o pensador, escritor e professor esloveno, Slavoj Zizek, palestrou para os profissionais e estudantes ali presentes sobre o tema “O perigo das sombrias nuvens digitais”. Zizek é um dos principais teóricos contemporâneos e se tornou referência da esquerda brasileira pelo uso da psicanálise na teoria social marxista.

A argumentação central de seu discurso defende que a ideologia, como pode ser entendida por meio de Marx, se encontra na dupla negação, ou seja, na relação entre sim e não. Iniciando sua palestra, Zizek contou uma série de anedotas, entre elas a da mulher que convida um homem, após um encontro, para tomar café em seu apartamento. O homem diz que não toma café e a mulher responde: “Tudo bem, eu não tinha café para te oferecer”. “O primeiro convite para tomar café era só um pretexto para fazer sexo. Ao negar o que ela diz, a mulher mostra o que realmente queria dizer. A dialética entre o sim e não nos permite entender como a ideologia funciona. Para detectar essas distorções ideológicas é preciso ver o jogo complexo entre o dito e o não dito”, explica o professor.

Para que seu público o compreendesse, Zizek passou a aplicar a mesma lógica em diversos outros assuntos e exemplos. Já que estava no Brasil, o teórico citou o carnaval. “Nesta época do ano todos esquecem as diferenças sociais. O que não é dito é que, se o trabalhador pobre dançar por dias, ele deixa em casa uma família sem comer. Agora, quando o banqueiro dança, ele se deleita de sua riqueza”, comentou.

Ainda para provar sua teoria, Zizek analisou e comparou filmes cotados da última edição do Oscar. “O Discurso do Rei é muito reacionário. O custo da gagueira do monarca é a incapacidade de assumir sua função simbólica, até que se torna estúpido o suficiente para se achar um rei. Parafraseando Jacques Lacan, um idiota não é um estúpido que se acha rei, mas o rei que se acha rei. Já o Cisne Negro é o seu oposto feminino. Uma mulher que se dedica totalmente à sua missão, mas que, na verdade, toma o caminho errado e morre. O que não é dito é que ambos reafirmam a autoridade do homem na sociedade. A mulher não é bem sucedida e cai na privacidade”, desvenda.

Falando para uma plateia de jornalistas, Zizek ainda destacou a importância do jornalismo e sua responsabilidade neste cenário. “Não reportem só os eventos, todo mundo sabe disso. Não procure ideologia no que é dito nitidamente, mas o que está por baixo disso. É uma atividade muito mais inteligente e subversiva”, aconselhou.  

Ao contextualizar sua fala para a realidade do público, o professor apontou para o perigo que há nas entrelinhas do discurso daqueles que julgam ser tolerantes a homossexuais e até negros no Brasil. Segundo ele, “o uso da palavra ‘tolerância’ é pura ideologia. Se quisermos tratar esses indivíduos como iguais, criaremos leis que os protejam. Quando dizemos ser tolerantes, na verdade reconhecemos que aqueles são inferiores a nós.”

O prometido perigo da nuvem digital está justamente no que não é dito. “Nuvem’’, para o professor, “é o espaço enorme e diverso no qual se encontram várias possibilidades e ferramentas de livre debate”. Conforme as teorias de Kant, “privado é quando o uso é particularmente para uma instituição, inclusive o Estado”, já “público é o livre debate filosófico, que inclusive pode ocorrer na rede”.

Para Zizek, deve-se estar atento à maneira como aqueles que estão no poder tem trabalhado para contrair o uso público da razão. “Superficialmente, tudo está ótimo, o problema é que quem controla essas nuvens. A notícia boa é que há um grande espaço público, o coletivo conhecimento, mas este espaço público pode ser privado. Bill Gates ficou rico fazendo isso”, a o professor. De acordo com ele, a sociedade está convencida de que é preciso estar em contato com todos, mas o “espaço público está sendo privatizado”, o que significa para o pensador “um desenvolvimento muito perigoso”.


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