Palestrantes refletem sobre o papel da ferramenta audiovisual como formadora de opiniões
O papel da televisão no âmbito cultural foi objeto de debate no segundo dia do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural. A professora e escritora Márcia Tiburi e os diretores de televisão Valter Sales e Zico Góes, da SESCTV e MTV respectivamente, apresentaram suas opiniões sobre o conteúdo veiculado pelas emissoras.
Zico Góes, que também foi diretor da programação do canal GNT, acredita que o papel da televisão na sociedade vai além de oferecer um produto para telespectadores e anunciantes. Conforme disse Góes, “a TV tem muito mais a ver com relacionamento entre pessoas do que com produtos ou com consumo passivo de conteúdo”. Isto porque, para o diretor, existe uma cultura de televisão na qual o público cria laços de intimidade com sua programação e conteúdo. “Não é simplesmente um entretenimento audiovisual ou até mesmo o fomento por cultura, mas, principalmente, a intimidade com a qual o espectador se refere à televisão”, constatou Góes.
Na SESCTV, a experiência de Valter Sales com a ferramenta audiovisual não entra em categorias comerciais, mas sim no foco cultural e nos eventos do próprio SESC. No entanto, Sales não defende a diferenciação entre televisão comercial e educativa, pois, para ele, “essa divisão que dificulta pensar uma televisão de qualidade. É possível conciliar educação e propagação de cultura em uma emissora comercialmente competitiva”. O diretor também aponta para uma “vilanização” da televisão. “Desde a tradição da Escola de Frankfurt, a TV virou condenada de todos os males e nos esquecemos que é possível melhorá-la”, apontou.
Márcia Tiburi é doutora em filosofia e autora de vários livros, dentre eles Olho de vidro: A Televisão e o Estado de Exceção da Imagem. Além do campo acadêmico, Tiburi participou no ano passado do elenco de Saia Justa, programa feminino de debates da GNT. Apesar de parecer tão próxima à televisão, a filósofa afirma que o último programa que assistiu foi a novela Roque Santeiro, de 1985.
Para ela, “a televisão exerce sobre nós uma espécie de ditadura. O problema não é só o conteúdo.” É com este raciocínio que a acadêmica define o estado de exceção de imagem a que se refere em seu livro. “A televisão é mais do que ela mesma, se transformou no televisivo. É a regra social de que faz você estar incluído à TV e seus assuntos mesmo excluído dela”, contou. “O problema do conteúdo entra quando a maioria que faz TV assume que as pessoas do outro lado são imbecis”.
“A CASA DOS AUTISTAS”
O programa Comédia MTV, na MTV, do dia 22 de março exibiu uma paródia do antigo reality show do SBT, Casa dos Artistas, com o nome de “Casa dos Autistas”. Como o nome sugere, a esquete do programa explora a condição dos portadores desta deficiência. A resposta do público não foi positiva, gerando polêmica em torno da emissora. No dia 27 de abril, a MTV chegou a apresentar um pedido de desculpas formal ao deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS).
O assunto “Casa dos Autistas” chegou até mesmo ao debate no Congresso. Zico Góes admitiu a falha e contou ter recebido uma “enxurrada de protestos” e adiantou que novas campanhas de conscientização dos autismos seriam veiculadas pela MTV como forma de recompensar o erro. Aliás, Góes usou o caso para provar que o relacionamento do telespectador com a emissora é próximo.
O diretor de programação da emissora também ressaltou o que pensa ser o papel da emissora com seu público. “A MTV não pensa em educar, mas em entreter. No entanto, poucas televisões não fogem à responsabilidade de provocar o público, e isso nós fazemos bastante”, argumentou. Góes lembrou, por exemplo, da exibição do programa de namoro Fica Comigo, de 2002, com casais homossexuais. De maneira mais profunda que em “Casa dos Autistas”, a emissora recebeu diversas críticas, insultos e perdeu patrocinadores, como também recebeu elogios pela iniciativa. “Não era para gerar polêmica, mas protesto”, afirmou Zico Góes.
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