Em mesa do evento promovido pela revista Cult, foram analisadas questões importantes como a queda do diploma para o curso de Jornalismo
No dia 19 de maio, os jornalistas Hector Feliciano, Laura Greenhalgh e o professor Carlos Vogt fizeram parte da mesa no 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural para debater sobre o papel das empresas jornalísticas na formação de seus profissionais. De maneira unânime, os palestrantes acreditam que falta nos grandes jornais, revistas e outras empresas do ramo investimento na formação contínua de seus jornalistas.
Primeiro a falar, o porto-riquenho Hector Feliciano foi bem humorado: “Se for responder maneira breve, diria que as empresas simplesmente não investem. Porém, se eu disser só isso, poderíamos ir embora e visitar o MASP”. Além de jornalista de renome, Feliciano tem doutorado em literatura comparada pela Universidade de Paris e é fundador e professor da Fundación Nuevo Periodismo, uma escola de jornalismo na Colômbia que também atua em diversos países da América Latina. Segundo ele, “A maioria das empresas jornalísticas sequer pensa na formação contínua de seus jornalistas”. Para o também escritor, é preciso entender o jornalista como “técnico objetivo da notícia”.
Feliciano foi correspondente cultural na Europa para os jornais norte-americanos The Washington Post e Los Angeles Times. Seu livro O Museu Desaparecido, que rastreou obras perdidas na Europa entre ascensão e queda do nazismo, foi finalista do Prêmio Pulitzer na categoria não ficção. Desta experiência, o jornalista contou o que podia perceber no que tange o jornalismo cultural. “A maioria dos jornais concebem o jornalismo cultural como irmã de sessões vulgares. Constatei uma ‘peoplenização’ da notícia”, afirmou. “O que toma mais tempo para aprender é se perceber como jornalista, uma profissão essencial para a sociedade. Isto falta ao jornalista cultural”. No entanto, Feliciano elogiou jornais americanos, como o The New York Times, que, segundo ele, não só investem na formação, como também incentivam que seus jornalistas façam grandes reportagens.
Carlos Vogt é lingüista doutor em ciência pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), instituição na qual leciona e coordena o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor). O professor destacou a existência de uma cultura científica, na qual o jornalismo científico e cultural deveriam ser pensados em conjunto. “É preciso tratar a atividade jornalística como uma atividade multidisciplinar, uma área de agregação do conhecimento. Logo, na agenda cultural, é fundamental incluir a agenda científica”, argumentou. Vogt deu ao jornalismo a função de criar o que chamou de “bem-estar cultural”, ou seja, “o conforto crítico da inquietude gerada pela contestação do conhecimento”.
Outro assunto abordado foi a discussão levantada pela jornalista Laura Greenhalg sobre a queda da obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão, decida pelo Supremo Tribunal Federal em 2009. Editora-executiva do jornal O Estado de S. Paulo, Laura começou sua carreira como repórter da área de cultura do Jornal da Tarde nos anos 1970. Para ela, “isto terá um impacto na formação do profissional, pois a formação corre o risco de entrar em estado de limbo”, considerou. “Nem as escolas nem as empresas realizam esta formação de maneira satisfatória.”
Laura Greenhalg também apontou que o excesso de tarefas diárias que o jornalista deve realizar impede que lhe sobre tempo para respirar e investir no próprio conhecimento. Especificamente falando do setor de cultura, a editora afirmou que “o jornalismo cultural vai ter que se preparar para uma batalha ferrenha para poder se recolocar em destaque. Para tal, é necessário a este um período de maturação”.
Comentários Postados
Envie o seu comentário
Caro leitor, esse espaço foi criado para que você opine e discuta a matéria que acabou de ler
Cada comentário comporta no máximo 600 caracteres.
Os comentários devem se ater ao texto publicado.
Mensagens ofensivas, provocativas ou que contenham palavras de baixo calão serã excluídas.