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30/05/2011 - 17h47 - Atualizado em 22/05/2012 - 19h33

Camille Paglia causa polêmica no último dia do Congresso de Jornalismo Cultural

Tiago Mota

Com fortes opiniões, a escritora faz considerações sobre as suas experiências de vida e a sociedade atual

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Nelson Mello/Revista Cult
Camille defendeu o distanciamento da
política dentro do jornalismo cultural

Cheia de gírias, declarações fortes e gestos performáticos, a norte-americana Camille Paglia se apresentou à platéia de jornalistas e estudantes na última quinta-feira, 19, no 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural. Ela é escritora, ensaísta e pensadora da cultura, principalmente ao que tange cultura popular. PhD. em língua inglesa pela Universidade de Yale e professora na Universidade das Artes da Philadelphia, a escritora ganhou notoriedade com a publicação de sua tese de doutorada Personas Sexuais: Arte e Decadência de Nefertiti a Emily Dickinson. Além de cultuada entre intelectuais, a ensaísta também é polêmica. Na década de 1970, ela se declarou homossexual, a primeira a agir de tal maneira no meio acadêmico.

Nos primeiros momentos do bate papo, Paglia dedicou sua fala sobre a sua homossexualidade e o contexto na qual foi assumida, antes do movimento de liberação gay nos Estados Unidos em 1979. “Eu não tive nenhuma vida amorosa. Simplesmente projetei minha situação gay como decisão política, o que acabou por afastar os homens de mim. Eu rejeitei qualquer contato físico com os professores homens, sequer apertos de mão. Interessante é que acabei descobrindo que existiam lugares quentes para gays em Yale, como banheiros onde homens se encontravam”, detalhou.

Causando polêmica, a autora disse que muitos de seus escritos transmitiram a idéia de uma vida sexualmente ativa, o que teria sido influência intelectual da obra do Marquês de Sade. “Eu sou uma grande estudante do sadomasoquismo como uma idéia. Tenho pouca vontade de experimentação sexual. Quem lê minha obra acha que sou sadomasoquista, ou que sou violenta”, confessa. “Eu fui criada em 1950 quando se via pouca violência e pouco sexo, o que Hitchcock tentou quebrar com o filme Psicose – apesar de não aparecer a faca entrando na carne da moça. Mesmo escrevendo sobre essas coisas horríveis, eu sou mais convencional na intimidade.”

CONTATO COM A RELIGIÃO

Camille Paglia cresceu em uma família ítalo-americana, fato que aponta como causa para o seu temperamento extrovertido, briguento e gestual. Embora não tenha religião, o ambiente familiar fez com que fosse criada conforme a fé católica. “Eu não acredito na existência de Deus, mas eu amo todas as religiões. O verdadeiro pluralismo está no estudo da comparação entre crenças. O catolicismo é muito mais que uma religião, é uma cultura. As primeiras obras de arte que eu vi foram na igreja”, conta.

Além de falar sobre o aspecto cultural da fé, Paglia também comentou sobre a relação íntima com os assuntos religiosos. “Eu amo os santos, mas nunca me dei bem com Jesus. Eu não tenho nada a ver com um menino em um estábulo. Adoro o glamour dos santos, mas nunca me atrai com aquele sujeito se arrastando e sangrando e sim pelos soldados romanos e suas roupas. Aliás, eu queria ser soldado romano no Halloween quando criança”, satiriza.

Sem nunca deixar de causar discussão, Paglia fez duras críticas a corrente filosófica do pós-estruturalismo. “Quando olho para o pós-estruturalismo penso no quão pequeno e triste ele é. Estes caras são loucos! Acreditar que o mundo se traduz única e exclusivamente pela linguagem é loucura! Eles nunca viram a arte”, esbraveja. No tema, a ensaísta não deixou de criticar também a filósofa pós-estruturalista Judith Butler, com a qual frequentou o centro universitário de Yale. “Chegará o tempo em que a obra dela se extinguirá e a minha continuará, porque eu amo arte, literatura e a natureza. Quem estuda Foucault quer ser uma mente, um balão. Michel Foucault é uma fraude”, polemizou.

Sobre jornalismo cultural, Paglia defendeu que a polarização da editoria ao que seria o seu inverso, a política. Segundo ela, “o jornalismo cultural deveria estar mais distante do debate político, que está consumindo o noticiário e obceca as pessoas”. Em outro sentido, o jornalismo cultural é apontado pela escritora como dono de grande responsabilidade.

Imersos em redes sociais, a juventude, conforme defende a ensaísta, está atrofiando sua capacidade de leitura corporal e se tornando mais necessitada por contato. “Existe um grande papel de procurar uma linguagem para falar com as pessoas por inteiro. O jornalista cultural deve ter um background de educação, mas deve também ser um consumidor de mídia. É uma forma de arte e cada jornalista deve se tratar a si mesmo como artista”, opinou.

PAIXÕES E LADY GAGA

Entre as suas paixões, Camille Paglia comentou sobre a paixão platônica que sente pela cantora brasileira Daniela Mercury. “Minha fé na cultura popular foi estraçalhada nos anos 1990, até que conheci samba reggae e axé music e pensei ‘Meu deus! Ainda está rolando!’”. Além de Daniela, Paglia falou de Elizabeth Taylor e Ava Gardner, atrizes pelas quais, conforme contou, acredita ter se tornado lésbica.

Após citar por diversas vezes a cantora Madonna na década de 1980 como o futuro do feminismo, a ensaísta acredita que hoje a artista “se perdeu”. No entanto, Paglia não guardou ressalvas de Lady Gaga, que seria uma representação do pós-modernismo. “Ela utiliza apenas a cabeça e nenhum coração, e não coloca a arte em primeiro lugar. Ela não é sexy!”, declarou.


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