O primeiro livro de George Orwell retrata a realidade da miséria em duas grandes cidades europeias

A imagem imediata que se tem quando o assunto são os países europeus remete, para muitos, a uma paisagem interessante e raramente decadente. Difícil, por exemplo, imaginar Paris sem os cenários românticos e os belos monumentos históricos. O que dizer, então, de Londres, com toda sua sofisticação e perante o glamour da Família Real?
Embora não se trate de um cenário atual, o escritor George Orwell, - pseudônimo de Eric Arthur Blair - desconstrói a imagem de perfeição das duas capitais. Ele mostra o lado da pobreza através de relatos do cotidiano e as dificuldades enfrentadas por pessoas com pouco ou nenhum dinheiro. Na Pior em Paris e Londres integra a coleção Jornalismo Literário, da Editora Companhia das Letras. Afora as experiências das pessoas de seu convívio, Orwell viveu todos os escritos.
Em uma narrativa hábil e bem construída, o autor expõe a realidade sem atribuir-lhe caráter ficcional. Certamente, por ser escrito após a experiência por ele vivida, há detalhes que fogem um pouco da situação real. Mas o tom de romance é responsável apenas pelo estímulo - cada etapa desperta a curiosidade para aquela que a sucederá. Mas é importante destacar que não há floreios nas descrições. Apesar do humor sarcástico presente em boa parte das passagens, o escritor relata com crueza todos os agouros de não enxergar uma perspectiva de amparo e ter de lidar diariamente com as incertezas. Ele passa, por exemplo, muitos dias sem se alimentar - ou sobrevivendo apenas com pão seco e chá.
Após a temporada em Paris, onde disputava espaço com percevejos e encarou o temível emprego como plongeur, Orwell partiu para Londres. O plano era iniciar um trabalho arranjado por um amigo. Para o azar do autor, o início não era imediato. Na capital francesa, o trabalho pecaminoso lhe dava poucas horas de sono - o dia era preenchido pelo espaço sujo do restaurante do hotel.
Ao chegar em Londres, sem perspectiva de emprego, foi preciso lidar com um agravante. Há uma lei que proíbe a permanência na rua - não se pode pedir esmola, muito menos se sentar no chão. Fato que o leva a peregrinar ao longo do dia até encontrar um novo albergue. Pois, como se não bastasse lidar com tantos descaminhos, os indivíduos não podem passar pelo mesmo albergue duas vezes.
Felizmente, Orwell conviveu com pessoas de personalidades bastante peculiares. São eles os responsáveis pela tônica do livro - contemplando, sempre, a forma como encontrar forças para a sobrevivência diária.
É curioso notar que, apesar das tentativas de publicação de seus livros falharem na maior parte do tempo, o escritor jamais desistiu. Tanto que hoje é mundialmente conhecido pelas obras A Revolução dos Bichos e 1984. Na Pior em Paris e Londres, em um discurso franco, não quer despertar a sensação de comiseração em ninguém. Alerta apenas às dificuldades mais profundas da miséria, muitas vezes invisíveis aos transeuntes. Para pensar duas vezes antes de se fixar aos estereótipos.
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