Com a presença de críticos e do cineasta Hector Babenco mesa tratou temas sérios mas tirou risos da platéia
O debate nomeado “A relação entre cinema e crítica” teve início às 14h30 de sexta-feira, 20/05, último dia do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural promovido pela revista Cult em parceria com o Sesc São Paulo. Contou com a participação do cineasta Hector Babenco, dos críticos de cinema Ricardo Calil e Isabela Boscov e com a mediação do jornalista Alcino Leite Neto.
O mediador deu início à palestra com uma brincadeira que foi o mote da discussão que se seguiu. “Todo mundo tem duas profissões: a sua própria e a de crítico de cinema”, falou Neto tirando risos da platéia. O jornalista explicou a afirmação dizendo que todo mundo pode opinar criticamente sobre cinema, porque mesmo que pouco todo mundo entende, “é a arte mais democrática que existe”.
O cineasta Hector Babenco rebateu a fala de Neto apontando que a maioria dos espectadores e, por consequencia, das pessoas que falam sobre cinema mantêm a discussão no nível superficial do “gostei” ou “não gostei”. “Não é com eles que se quer debater, mas com quem entende o fenômeno de se assistir um filme com todas as sensações que isso gera”, opinou. Isabela Boscov concordou e acrescentou um ponto importante: “É preciso que se saiba que um filme não acontece no vácuo, há um contexto histórico em que está inserido e o público muitas vezes não reconhece isso”.
Para Boscov a crítica tem sucesso quando gera discussões de qualidade. “Não importa se o filme é bom ou ruim, mas quanto se pode refletir a partir dele.” E para que isso tenha início, o crítico deve ter bagagem cultural para discutir os assuntos, e segundo a jornalista isso não se consegue apenas assistindo filmes. Boscov ressaltou que um crítico precisa ter o hábito da leitura, “É muito mais importante que um crítico leia do que veja filmes para a sua formação como pessoa e como profissional. No Brasil, em geral se perdeu o costume de ler e isso é muito negativo”.
Ainda na comparação Brasil e exterior, Babenco apontou para o fato de a crítica ter muito mais relevância nos outros países. “Nos centros mais ricos a crítica é extremamente direcionada e tem o poder de ascender ou destruir um filme porque têm um publico doutrinado”. Já em paises como o Brasil, segundo o cineasta, as pessoas não dão muita importância para a critica, “Eu, por exemplo, não leio as críticas e vivo muito bem sem elas”, provocou.
Calil discordou da visão do cineasta e disse ser importante perceber que o cinema é a união de muitos fatores: público, críticos, cineastas, políticos etc. “É claro que a locomotiva do trabalho é filme, mas não se reduz a isso”, afirmou o crítico que já atuou como diretor no documentário “Uma Noite em 67”, lançado em 2010 pelas produtoras VideoFilmes e Record Entretenimento. De sua experiência na direção de um filme, Calil afirmou que foi importante para seu trabalho como crítico atualmente. “Para não ter problemas éticos, na época do lançamento pedi afastamento da função de critico de filmes brasileiros.” Além disso, o jornalista disse que acredita que seu documentário tenha tido uma recepção generosa por parte da crítica.
A atual situação da crítica é de crise, concordaram os três debatedores. Segundo Calil isso se deve ao anseio por respostas imediatas que a sociedade faz. “O exemplo mais claro disso são as bolinhas e estrelinhas que os jornais dão aos filmes. Que também leva à redução do espaço dos textos.” Além disso, a chegada das novas tecnologias desestabiliza esse cenário já pouco consolidado da crítica no Brasil. “Mas isso não é ruim, na verdade ajuda a questionar o crítico, criando uma via de mão dupla que coloca o público leitor mais próximo dele. É um caminho à redemocratização real do pensamento critico no futuro.” Para Babenco essa crise não é positiva e não se concentra na função do crítico, mas na situação do cinema nacional. “Nós não sabemos fazer esse tipo de cinema que é valorizado atualmente. O que fazemos são melodramas televisivos exigidos pelo mercado.”
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