Paulo Werneck e Robinson Borges afirmam fugir à subordinação da agenda e produzir conteúdos de forma inovadora é o principal desafio do jornalismo cultural
Com início às 15h30, na terça-feira dia 17 de maio, a mesa “Os riscos e as ameaças para o exercício do jornalismo cultural” deu continuidade aos debates do 3º Congresso Iternacional de Jornalismo Cultural promovido pela revista Cult. Os palestrantes convidados foram Paulo Werneck, editor do suplemento semanal Ilustríssima da Folha de S.Paulo, e Robinson Borges, editor do caderno de cultura do jornal Valor Econômico. A mediação foi feita pelo escritor Rodolfo Carlos Martino.
O debate teve início com a fala de Werneck sobre o desafio do jornalismo em ir contra o clichê, não apenas com relação aos temas, mas às afirmações feitas sobre eles. “Há assuntos dos quais não se pode fugir, mas é necessário dar um enfoque inesperado nas matérias e, com isso, colocar em xeque as abordagens sem originalidade que se vê hoje”, defendeu Werneck.
Robinson Borges partilha da opinião de Werneck e afirma que os cadernos de cultura atualmente são homogeneizados. “Só se faz cobertura do que é lançado, o jornalismo cultural está se aproximando do hardnews e perdendo o poder de análise e reflexão”, comentou. Além disso, algumas vezes se tornam reféns das assessorias, reproduzindo exatamente o conteúdo sugerido por elas.
Na rede
A relação do jornalismo cultural com a internet foi outra questão levantada pelos debatedores. Borges relembrou o Congresso Internacional de Jornalismo Cultural que ocorreu no ano passado, quando participou como mediador e percebeu a preocupação do público com o assunto. Para a edição de 2011, ele trouxe uma questão ainda sem resposta: como fazer jornalismo com internet? Um bom começo, segundo Borges, é entender que o fato de a rede possibilitar o maior acúmulo de informação que já se teve não é, necessariamente, positivo. “Vivemos a era da ‘infobesidade’, ou seja, das informação em excesso sem profundidade e que muitas vezes estão erradas”. E o papel do jornalista nesse contexto é alimentar a internet com qualidade e filtrar o conteúdo para o leitor. “Com a internet, o mundo é detalhado e a cultura é mais difundida, mas não há organização, o que dificulta pensar criticamente.”
Os profissionais precisam se adequar à nova velocidade da informação, ponderando a instantaneidade com a qualidade e a relevância dos conteúdos. “Deve-se aprender a trabalhar em diferentes plataformas, sempre valorizando o campo argumentativo. É essa qualidade de informação que diferencia o jornalismo dos outros conteúdos que estão na internet”, ressaltou Borges. Um dos grandes diferenciais do jornalista com relação aos outros produtores de conteúdo na rede são as grandes reportagens e apurações. “A opinião cultural não é jornalismo, por isso as redes sociais, que têm grande relevância hoje, podem servir de apoio para a profissão e repercutir o que ele faz, mas nunca substituir seu trabalho”, comentou Werneck.
Nos impressos
Segundo Borges, o jornalismo cultural é um fenômeno cultural ao mesmo tempo em que retrata os outros fenômenos. Por isso, tem suas especificidades e deve se preocupar com o que a sociedade vive. É o caso do trabalho de Borges como editor do caderno de cultura de um jornal especializado em economia. “O leitor do Valor Econômico busca informações sobre um assunto específico, por isso o caderno trata cultura de um modo diferente dos outros suplementos do mercado. Sempre que possível, faz referência a economia, trazendo uma cobertura transversal.”
Paulo Werneck concorda com Borges ao comparar seu trabalho na Ilustríssima com a especificidade dos conteúdos do suplemento de cultura do Valor Econômico. O caderno de Werneck é semanal e tem o nome parecido com o suplemento diário da Folha de S.Paulo, a Ilustrada. “Essa proximidade é intencional. A Ilustríssima é a reflexão e o acomodamento dos temas tratados na Ilustrada durante a semana”. Por esse motivo, o foco da redação é a edição: textos exaustivamente editados e pensados pela equipe responsável. Para que isso seja possível, explicou Werneck, não há colunistas, o que cria um corpo de profissionais unidos para pensar o mundo contemporâneo e não dando muito espaço a opiniões isoladas.
Outra característica particular da Ilustríssima é o tamanho dos textos, “São longos e contrastam com o que foi decidido na mudança editorial de 2010 da Folha de S.Paulo, que opta por deixar os textos do jornal mais curtos. Os textos longos incorrem em risco de o leitor não terminar de ler, a edição colabora com isso, ao trabalhar em inícios atraentes”. O objetivo do suplemento é dar espaço a novas discussões culturais, como aconteceu no caso do Prêmio Jabuti, com a matéria “O dia do juízo”.
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