Os problemas com que se deparam os editores de jornalismo cultural e as mudanças ocasionadas pelo cenário politico e pelas novas tecnologias são comuns a países da América Latina
“A responsabilidade do editor: como o editor promove seus produtos” deu início, às 14h, aos debates do período da tarde do primeiro dia do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural realizado pela revista Cult em parceria com o Sesc – que abrigou o evento na unidade Vila Mariana. Contou com a participação de Julián Gorodischer, editor da revista Ñ, suplemento do jornal argentino Clarín; de Sylvia Colombo, ex-editora do caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo e recém-indicada correspondente do periódico em Buenos Aires, na Argentina; e de Ivan Giannini, superintendente de comunicação social do Departamento Regional do Sesc SP, como mediador.
Gorodischer, ao longo de sua fala, tratou dos problemas recorrentes ao jornalismo cultural, não só na Argentina, mas comuns em outros países latino-americanos, inclusive o Brasil. O jornalista deu destaque para a questão da influência negativa da indústria cultural sobre a agenda, decidindo o que deve ou não ser tema de matérias. Isso porque ela define o que é o conteúdo cultural e dá as diretrizes que levam todos os veículos a abordar os mesmos assuntos. “O desafio atual de um periódico é gerar conteúdos próprios, ou seja, não pode se pautar pelo que não há dúvida de que deve ser publicado. Mas pelo que exige subjetividade e reflexão para entender que é algo novo a se informar”, explicou Gorodischer.
O argentino ressaltou que além dos novos conteúdos, é necessário espaço para o resgate de formas que atualmente são raras nos jornais, como o ensaio, o conto e o debate. E também para dar lugar a tipos híbridos de jornalismo cultural, por meio de crônicas derivadas de ficção, por exemplo. “Atualmente, há pouca diversidade de autores literários inseridos nas redações. Deveria haver mais, assim como a relação entre editores e escritores deveria ser negociada a fim de diversificar as vozes que se expressam nos periódicos”, comentou.
Essas mudanças de forma e conteúdo nas redações são um modo de revalorizar o caráter literário do texto e aumentar os níveis de aprofundamento das argumentações. Segundo Gorodischer, a atual abordagem narrativa dos fatos não consegue criar uma atmosfera de emoção e gera textos muito frios e sem aproximação com o leitor. Ainda sobre a importância da reflexão crítica, o editor discorreu sobre dois pontos diferentes: a necessidade de um olhar nacional sobre o que acontece fora do país, para evitar que os conteúdos sejam apenas reprodução de meios de comunicação estrangeiros; e de uma análise de qualidade sobre a mídia na indústria cultural – como a TV, a internet e o cinema hollywoodiano. “O estudo dos conteúdos considerados específicos daquele meio pode levar a uma análise crítica que reconheça a função dessas mídias e aponte seus pontos criticáveis”, explicou.
Sylvia Colombo iniciou sua fala ressaltando as semelhanças já ditas pelo argentino,a respeito dos problemas enfrentados pelo jornalismo cultural no Brasil e Argentina, e fez uma retrospectiva da historia do veículo para qual trabalha, o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo. Na época de sua criação em 1958, o suplemento tinha como objetivo atingir o público feminino, com notícias leves sobre variedades. Porém, com a agitação politica nas décadas de 1960 e 1970, passaram a contar com intelectuais da cidade como colaboradores, “Eles traziam críticas literária e teatral e, por isso, elitizaram o caderno”, comentou a jornalista.
O auge da Ilustrada foi nos anos 1980, quando o caderno sofreu mudanças na linha editorial – também reflexos do contexto político nacional ainda mais questionador. “Havia jovens jornalistas na redação que vinham das universidades e dos movimentos estudantis, engajados com a abertura democrática e dispostos a falar de novidades”, ressaltou. Já na década de 1990, houve alterações no perfil dos profissionais e dos leitores, devido à demanda por um jornalismo de serviços. “O ambiente de mudança política havia acabado, então houve uma substituição do leitor engajado pelo leitor consumidor.
Essa tendência de voltar os conteúdos aos serviços aprisiona o jornalismo à indústria cultural, mas, segundo Sylvia, traz a vantagem de tornar os jornalistas um pouco mais profissionais do que era antes. “Nos anos 1980, quem escrevia tinha a liberdade de ficar famoso por seu estilo de escrita. Mas os textos eram tão rebuscados que, muitas vezes, eram ilegíveis. Atualmente os jornalistas respondem ao estilo do jornal e os textos ficam mais claros”, explicou Silvia.
O que também é característica dos dias atuais, segundo a editora, é a influência da internet no jornalismo cultural. “Ela muda a forma de produção de conteúdo de cultura, muito mais do que de outras áreas. O leitor não mais precisa de um caderno para lhe dizer o que é a nova tendência da arte. Se ele acompanhar sites e blogs, tem acesso às informações na mesma velocidade que as redações”, ressaltou. Mesmo tomando espaço que antes pertencia aos periódicos, para Silvia, a internet não é uma vilã. “Ela confunde um pouco nosso papel, mas oferece oportunidades novas, como o acesso a lançamentos internacionais que demorariam muito tempo para terem suas versões brasileiras.”
O ponto mais importante para a profissão, segundo Silvia, é que “o jornalismo cultual é antes de tudo jornalismo“. Mesmo que não existam tantas questões polêmicas, como na década de 1980, há temas que merecem investigação, como as aplicações da Lei Rouanet. “O jornalista não pode deixar nunca de buscar o furo e de permanecer no debate cultural do país“, comentou.
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