O designer Milton Cipis comenta as exposições que realizou este ano no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo (SP), e reflete sobre o design realizado no país
Dentre as exposições que o Instituto Tomie Ohtake recebeu no intervalo fevereiro-abril, destacam-se Caprichosamente Engarrafada, que expôs a história dos rótulos de cachaças, e Veja Ilustre Passageiro, apresentou cartazes de publicidade veiculados em bondes paulistanos na década de 1920.
Ambas fizeram parte do projeto Anônimos Artistas desenvolvido pelos designers Milton Cipis e Sylvia Monteiro, em parceria com Ricardo Ohtake, curador do Instituto que homenageia sua mãe. Buscando revisitar a origem do design brasileiro, o projeto ainda trará, até o final do ano que vem, outras duas exposições com esse mesmo objetivo.
Formado em Comunicação Visual pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Milton Cipis foi um dos fundadores da Associação dos Designers Gráficos (ADG) - onde atuou em duas diretorias: Comitê de Eventos e Conselho de Ética. Atualmente, é sócio-diretor da Brander Design & Construção de Marca, e também participa da Associação Brasileira de Empresas de Design (ABEDESIGN), atuando em comitês de trabalho. Na entrevista a seguir, Cipis comenta as exposições que desenvolveu e analisar o design realizado atualmente no país.
Como é realizada a seleção dos temas das exposições?
Estávamos procurando materiais inusitados e soubemos que o designer carioca, Gil Laus, possuía uma coleção de rótulos de cachaça que, juntamente com os rótulos provenientes da Fundação Joaquim Nabuco, acabaram compondo a exposição. Com relação aos cartazes de bonde, a Sylvia havia feito um livro sobre a história da indústria gráfica brasileira e possuía fotos de uns cinco cartazes do Ateliê Mirga, criado em 1928 pelo polonês Miragalowski. Ele se tornou, na época, uma verdadeira escola para desenhistas, designers e publicitários. Começamos apaixonados pelos cartazes de bonde e acabamos apaixonados pelos rótulos de cachaça, que trazem uma coisa de brasilidade, de humor, de irreverência. São como fósseis vivos: carregam referências gráficas e visuais dos primórdios dessa indústria no Brasil, que teve uma forte influência da gráfica européia.
A tentativa de buscar as origens do design brasileiro tem o intuito de entender e definir o design realizado no país atualmente?
Eu, o Ricardo (Ohtake) e a Sylvia sempre tivemos muita curiosidade nesse ponto. Há dez anos, quando surgiu a ideia do projeto, um dos objetivos era saber se o design brasileiro tinha ou não uma identidade própria e, assim, tentar defini-la. A exposição não perdeu esse objetivo: o de buscar as origens para tentar entender o que somos. Aloísio Magalhães – um dos pioneiros do design no país – costumava lembrar que, quanto mais forçarmos uma pedra no elástico de um bodoque, maior seria a distância em que ela seria atirada. Fazendo uma analogia, quanto mais estudamos nossa história, mais conseguimos entender o que somos e mais podemos avançar. Eu acredito ter sido esse o mérito da exposição: mostrar para a moçada mais jovem de onde viemos, o que formou nosso jeito de pensar.
Qual a diferença entre o design brasileiro e o realizado no exterior?
É difícil responder a essa pergunta, pois estamos imersos nesse meio e não temos o distanciamento necessário a uma análise. É complicado, também, porque o projeto de design que desenvolvemos responde a briefings – você tem que se comunicar com um público determinado e atingir algumas metas. Quem consegue dizer como é o nosso design é um estrangeiro, por exemplo, que o analisa e define. Quando entro em contato com designers do exterior, eles comentam que o design brasileiro é colorido e tem um certo humor. Outra dificuldade nessa definição parte da variedade de campos do design: há desde artistas gráficos que trabalham na área da cultura - com livros, cartazes e eventos culturais -, até quem cria rótulos de embalagens da indústria alimentícia e móveis.
Como foi a recepção da exposição no Instituto e como o projeto pôde contribuir para a discussão do design nacional?
A linha seguida pela curadoria do Instituto abrange a vida da Tomie Ohtake – desde quando ela começou a pintar, por volta dos anos 1950, até os dias atuais. No entanto, as exposições que realizamos não eram propriamente de arte e, portanto, o foco do Instituto. Houve repercussão e variedade de público. Muita gente foi ao Instituto pela primeira vez por curiosidade, saudosismo ou apenas porque gosta de cachaça. Enfim, não são pessoas que gostam de arte, mas foram atraídas pelos rótulos de pinga e cartazes de bonde, objetos que integram o cotidiano delas e foram deslocados para um outro ambiente de reflexão.