Em “Crônicas – Volume I”, Bob Dylan revela os segredos de uma carreira semeada por sucessos e fracassos

Bob Dylan sempre foi meio reservado. Em contradição com a vida pública, ele dentre muitos outros artistas, sofreu com a super-exposição e parou até mesmo de se apresentar por um bom tempo, logo após um acidente de moto, em 1966. Foi em Crônicas – Volume I, primeiro livro autobiográfico de uma futura trilogia, que o compositor contou mais sobre si mesmo - ou sobre Robert Allen Zimmerman, seu nome de batismo.
Natural de Minnesota, nos Estados Unidos, o músico revela aspectos de sua infância e de sua relação com a música - e, mais tarde, com a poesia -, demonstrando um certo distanciamento de quem fora no passado: Robert. E foi do próprio Robert que Bob teve de fugir para se tornar Dylan. A música, isto é, o rock’n roll, o fez abandonar a imagem de garoto do interior, anônimo e isolado.
Porém, Minnesota ficou pequena para Dylan. Não para seu sucesso, mas para suas ambições. Em 1961, viajou para Nova York e procurou pequenos coffee houses, que à época eram os principais divulgadores de novos talentos. O bairro também era bem específico: Greenwich Village.
Era lá onde tudo acontecia. Os artistas moravam nos arredores e passavam o chapéu para conseguir alguns trocados - com Dylan não foi diferente. No livro, ele narra as dificuldades e os prazeres de viver naquele bairro. Fala também das pessoas que conheceu e do que significou aquele período para sua carreira. Após tocar em alguns estabelecimentos, foi no Café Wha? que ele chamou a atenção dos gurus da indústria musical.
Dylan também retrata esse momento como um intenso período de densas leituras e imersão musical. Ele passava as tardes ouvindo discos na casa de estranhos: gravações raras, que não eram transmitidas por rádios.
Ainda mais raros, conta, eram os discos de Woody Guthrie, sua principal influência e precursor de um novo tipo de música, “que dizia alguma coisa”. Naquele tempo, as canções ainda eram muito restritas à melodia e ao arranjo, e abria-se mão, muitas vezes, de seu conteúdo.
Foi com Guthrie que Dylan definiu seus propósitos e ambições pessoais. Além disso, como já reforçou várias vezes durante sua carreira, era através do folk que ele via o mundo. No entanto, o músico sempre negou rótulos e, principalmente, a intenção de crítica social de suas músicas. Muito pelo contrário: ele não acreditava ser nenhum revolucionário. Está aí o ápice de sua narrativa, na constante negação de ver em si mesmo alguém excepcional. Ele diz que sempre foi rodeado por expectativas de auto-superação, das quais nunca se livrou. E é a partir daí, lá pela metade do livro, que Dylan volta a ser Robert outra vez.
A responsabilidade que criaram em torno de sua imagem pública o incomodava. A curiosidade dos fãs e, em especial, dos jornalistas também eram motivo de espanto e indignação por parte do astro. Em Crônicas, ele afirma não ser nenhum tipo de salvador, mas, sim, apenas mais um dos muitos garotos com talento e inspiração.
A obsessão por sua imagem e pela sua vida pessoal levaram o músico a um longo período de exclusão social. Foi morar com sua esposa e filhos em New Orleans e é sobre lá que grande parte de sua narrativa é descrita. Dylan nos revela suas fraquezas e incertezas nesse período. Sabia que não conseguiria ser mais o Dylan de Blowin’ in the Wind, porém, conta que apenas ele via isso, o que o levou a novas experimentações artísticas. Ou seja, surge um novo Dylan, mais moderno e renovado.
Mais tarde, com a integração do grupo The Band, muitos se opuseram ao novo estilo proposto por Dylan e o acusaram de trair o movimento folk - tão único na década de 1960 e do qual, para muitos, o músico era o mais fiel precursor.
Essa última época é ofuscada por Crônicas, porém é retratada no filme de Scorcese, No Direction Home. O diretor mostra o mito Dylan, que não era reconhecido por todos. Talvez nem mesmo pelo seu próprio público. Como conta o músico, raras foram as vezes em que ele não foi vaiado e criticado, tanto pelos fãs, quanto pela mídia.
Assim como a obra de Scorcese, o livro autobiográfico de Dylan também demonstra sua silenciosa indignação com o mundo e a decepção com uma arte que, muitas vezes, não sensibiliza. Crônicas – Volume I, porém, vai além do filme e revela a reviravolta de um artista inconformado, que mesmo após criticado e recusado, ainda tinha muito para dar. Seja na face de Robert ou na face de Dylan.
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