Em exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, obras do holandês propõem um jogo de ilusões ao público
Eternidade, infinitude, espanto, ilusão, pensamento - entre tais palavras pode-se chegar a uma aproximação daquilo que a obra de Mauritz Cornelis Escher causa a seus espectadores. O mistério visual do artista pode ser apreciado com a devida atenção na exposição O Mundo Mágico de Escher, em cartaz no CCBB até 17 de julho.
Com curadoria de Pieter Tjabbes, a mostra leva o público para dentro da vertigem, na qual o cérebro e os sentidos humanos trabalham em conflito. Pois, ao olhar para qualquer uma das obras, o espectador se confunde e se perde propositalmente entre escadas, espelhos e, claro, labirintos sem fim.
Na exposição, podem ser vistos originais e algumas reproduções das obras do artista, entre as quais estão as famosas Desenhando, Cascata, Belvedére, Auto Retrato em Esfera Espelhada e Relatividade. Além de várias instalações montadas pela curadoria, um filme em 3D e um documentário levam o público a experimentar fisicamente o que poderia ser esse mundo mágico do artista gráfico.
Exímio desenhista, Escher transportava seus traços para o papel por meio da xilogravura, litografia e linóleografia - todas habilmente efetuadas com a excelência que só os grandes possuem.
Tais técnicas foram consagradas muitos anos antes, quando as imagens por elas retratadas remetiam a temas religiosos (principalmente a xilogravura, datada de antes da Idade Média). Nas mãos do holandês elas tomaram um rumo completamente diverso: os temas abordados se aprofundam na metafísica do espaço, convergindo arquitetura, paisagens e natureza em imagens que causam estranhamento.
Nas décadas em que o modernismo se consolidava com o abstrato e o concretismo, a arte de Escher seguia na contramão: ela é figurativa e traz fundamentos da perspectiva clássica. Olhares atentos percebem que grande parte das obras tratam de um mesmo lugar visto por vários ângulos, ou então que no meio da aparente normalidade aparece algo estranho.
A xilogravura Natureza Morta e a Rua, por exemplo, prende a atenção de quem observa o centro dela, mas, ao desviar o olhar para os cantos, tem-se o choque visual. Nela, o real é a ilusão.
O holandês estudou Arquitetura e trazia consigo questões sobre a utilização dos espaços e a interação do homem com o ambiente. Sua intenção era quebrar com o cotidiano, criando uma realidade multifacetada e, por que não, cheia de humor.
Percorrer o espaço além dos limites do possível, subir escadas que descem, fazer a água cair na contramão, criar o infinito com a repetição constante do negativo das formas...
Labirintos à parte, qualquer semelhança com Franz Kafka ou Jorge Luiz Borges não é mera coincidência. Os três eram contemporâneos e seus temas em muito se aproximam. Ir além daquilo que consideramos realidade ou sugerir que o ser humano consegue apreender o mínimo do que está ao seu redor está no cerne das inquietudes propostas pelos artistas.
Escher falava da sua obra como um jogo, cuja principal peça seria o próprio cérebro. Afinal, só ele seria capaz de resolver seus enigmas. “Deve-se aplicar a função de contrastes, deve-se causar um choque”, dizia o artista. Da ordem ao caos ou do caos à ordem, Escher deixou um legado único para as artes gráficas. Ele conseguiu deixar os pensamentos do público como se fizesse parte de sua obra. Ou seja, de ponta cabeça.
O Mundo Mágico de Escher
Centro Cultural Banco do Brasil - Rua Álvares Penteado, nº 112 – Centro
Terça a domingo, das 9h às 20h
Grátis
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