Formada quando a profissão era quase desconhecida, Meire Fidelis viu a área de Relações Públicas crescer e sua função no Grupo Abril ganhar importância
De fala clara e bem articulada, típica de quem está acostumada a se comunicar com o público, Meire Fidelis é a diretora de Relações Corporativas do Grupo Abril, onde construiu uma carreira de mais de duas décadas.
Com 50 anos completos e um cargo de chefia, não foram poucas as situações em que os funcionários da Abril a ouviram falar sobre inovação. Dessa vez, porém, o assunto da conversa foi outro: contar o passado, relembrar como ela chegou onde está.
Um sorriso acompanhou toda a entrevista. Meire se divertia com o exercício de recordar os tempos de faculdade e seus olhos brilhavam quando comentava sobre os dois filhos e sobre a profissão, que exerce há 26 anos. Graduada em Relações Públicas pelas Faculdades Integradas Alcântara Machado (FIAM), é apaixonada pela carreira. “Não me vejo fazendo qualquer outra coisa na vida”, enfatiza.
Escolha inovadora
Quando Meire decidiu cursar Relações Públicas, em 1980, poucas pessoas sabiam do que se tratava ou qual a função deste profissional. Alguns achavam que o curso era destinado apenas à produção de eventos; outros, ainda menos informados, não sabiam ao menos completar o nome da graduação. “Me perguntavam: ‘o que você faz, relações?’”, relembra. Em sua família a reação também não era muito diferente. Seus pais, favoráveis a carreiras mais tradicionais, sugeriam outros cursos. “Eu ouvia perguntas do tipo: ‘Por que não escolhe Medicina? Por que você não faz Direito?’”, recorda.
Deixando de lado a resistência da família, Meire escolheu o curso com que mais se identificou. Confessa que não fez uma análise aprofundada para saber o que estudaria nas aulas ou com o que poderia trabalhar depois, mas afirma que tinha uma convicção: “Queria viver com gente, não com objetos”. Ela diz que acertou quando optou por Relações Públicas: “A profissão trata, entre outras coisas, do modo de entender as pessoas e de se colocar no lugar do outro, e isso me encanta”, explica.
Do aprendizado da faculdade, a RP – como se apelidam os profissionais da área – se lembra de professores bem preparados, que exploravam o senso crítico dos alunos, e dos programas de estágio de que participava. Ela considerava importante aprender na prática antes de entrar no mercado de trabalho. Em suas palavras, “Tudo o que surgia eu fazia”, mesmo quando os salários eram baixos e as tarefas pouco elaboradas. O esforço deu resultado e, no último semestre do curso, Meire se candidatou a uma vaga na Editora Abril, onde trabalha até hoje.
Saber ouvir o outro
O dia do processo seletivo para a vaga de RP na Editora foi marcante. O exercício proposto era um estudo de caso sobre o qual os candidatos deveriam tomar algumas decisões e depois justificá-las. Meire estava rouca e gripada, por isso evitou falar muito; fez sua colocação quase no final da dinâmica e selecionou o que achava realmente importante para ser dito. Ela acredita que o fato de ter sido concisa, levantando um argumento relevante, ajudou em sua seleção e lhe ensinou algo para a vida toda. “A forma como eu entrei me mostrou a importância de ouvir o outro, imaginar o que é significativo para ele naquela situação e descobrir como se pode colaborar”, conta.
Desde que foi contratada para um cargo júnior na Abril, acompanhou duas evoluções: a da empresa e a dela própria. Afinal de contas, com o passar dos anos, tornou-se diretora de Relações Corporativas, cargo que abrange a produção de todos os materiais institucionais, o cuidado com a imagem da companhia, o relacionamento com a imprensa e o projeto de sustentabilidade do Grupo.
Cada um dos campos implica compromissos diferentes, por isso Meire não tem uma rotina de trabalho rígida. Na Abril os horários não são fixos, o que colabora com a agenda da RP. Entre seus encargos, reuniões dentro do departamento de Relações Corporativas, encontros com outros setores e unidades da empresa, além de almoços com o público externo são as principais tarefas.
Para assumir tanta responsabilidade, Meire precisou ir além da faculdade. Fez um curso de pós-graduação em Marketing na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e depois, um MBA em Finanças, Comunicação e Relações com Investidores na Universidade de São Paulo (USP). Além desses cursos, ela afirma que teve muita determinação: “O que tento aplicar na minha vida é: busque excelência no que faz, assim o reconhecimento virá”.
Os projetos para o futuro
Conciliar a rotina corrida de quem ocupa um alto cargo com uma boa vivência em família é um desafio. Na opinião de Meire, para uma mulher é ainda mais difícil. “Mesmo sabendo que ter sempre um bom desempenho como esposa, como mãe e como profissional é humanamente impossível, nós nos culpamos.”
No tempo livre, a RP procura estar junto da família, o marido e o casal de filhos. O importante para ela é assumir totalmente o papel que cada momento pede. “Quando meu filho está doente, eu cuido até ele melhorar e depois vou para o trabalho. Do mesmo jeito, quando estou na empresa, penso: meu papel agora é profissional.”
A palavra mais importante para Meire é equilíbrio, “Nem muito a vida pessoal, nem muito a profissional”. Quando começou a trabalhar, não era casada e não tinha filhos. Hoje, com muitos papéis a administrar, se doutrina: “Olho para o espelho e faço a seguinte pergunta: ‘preciso? quero? Sim, então vou aprender a lidar com essas funções diferentes que terei ao longo da vida’”. Nos momentos difíceis ela se mantém firme: “Se for preciso, volto lá para frente do espelho e falo para mim mesma: ‘lembra quando você disse que precisava e que queria? então, fique bem e faça as coisas ficarem em equilíbrio’”.
E os próximos papéis que pretende assumir? Depois de se aposentar, quer ter mais tempo para ficar com a família e voltar a estudar. “Tenho grande vontade de fazer um curso de filosofia. Minha vida acadêmica sempre foi voltada para a empresa privada, agora quero fazer algo mais abrangente”, planeja. Além disso, guarda um projeto não concluído de quando era jovem, “Eu tenho aquele sonho de aprender a tocar violão, quem nunca começou a estudar violão?”, diz, entre risos.
Mesmo procurando novos caminhos, Meire não pretende abandonar a profissão. Ela faz parte do Conselho Regional dos Profissionais de Relações Públicas São Paulo/Paraná, na função de conselheira suplente. Depois da aposentadoria, pretende participar mais ativamente. “Vejo que os profissionais saem das empresas com muita coisa para ensinar para quem está começando na profissão e eu gostaria de transmitir esse conhecimento.” Mas Meire não quer conviver com jovens apenas para ensinar, quer também aprender. “Eles criticam, fazem perguntas, nos fazem repensar algumas coisas”, acrescentando que “Isso é o processo natural da vida. Se tivéssemos jovens apáticos, não haveria mudanças”. A troca de conhecimento com os mais novos a ajuda no exercício mais importante de sua profissão: tentar ver o mundo com os olhos de outra pessoa.
Se parasse de trabalhar hoje, Meire já se sentiria muito realizada. Chegar à posição que ocupa não passava por sua cabeça há 31 anos, quando entrou na faculdade. Ser apaixonada pelo trabalho e aproveitar as oportunidades que apareceram foram fatores essenciais. Por isso, ela aconselha aos futuros profissionais: “As grandes chances irão passar na vida de todos, é preciso estar atento para capturar a oportunidade”.
Com relação à empregabilidade, comparando à época em que se formou, em 1984, ela aponta que o momento é dos melhores para o profissional formado em Relações Públicas. “A profissão passou por mudanças, hoje é mais estratégica e menos tática, cada ferramenta e cada posicionamento são estudados e avaliados dentro de uma estratégia, antes não havia esse planejamento”, explica. Em sua opinião, a mudança aconteceu porque as empresas e o mercado passaram a dar mais atenção à área. “As pessoas estão percebendo que precisam cada vez mais entender o outro e um RP pode ajudar nisso.”
Comentários Postados
Não existe história de vida mais motivadora do que a de Meire para nós, estudantes de RP!
Olá estava precisando desta opinião de um profissional desta área,porque sempre achei que um dos maiores segredos da vida , é se colocar no lugar do outro, por isso decidi fazer este curso com certeza depois de ler esta reportagem. Obrigada
Já tenho uma graduação tecnológica na área de RH e estava a procura de uma segunda graduação, quando conheci o curso de RP logo percebi que seria uma ótima escolha, lendo essa matéria as coisas começam a ficar mais claras. Obrigado.
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