Arte do canal

índice geral



Home / Faculdade Cásper Líbero / Revista Cásper

02/05/2011 - 15h38 - Atualizado em 22/05/2012 - 22h24

Mundo do fashion news

Louise Solla

Ganhando cada vez mais destaque no país e quebrando preconceitos, os jornalistas especializados em moda mostram que seu dia a dia vai muito além do luxo e glamour

Compartilhe:


Melissa Szymansk
Em 2010, a produção têxtil brasileira gerou uma
receita de 52 bilhões de dólares

Salto alto, maquiagem e roupas extravagantes. Para muitas pessoas, é dessa maneira que se resume o mundo do jornalismo de moda. No entanto, repórteres, editores e fotógrafos das grandes revistas e sites dedicados ao assunto sabem que o seu trabalho é muito mais complexo do que simplesmente comentar as últimas tendências do verão.

A moda vem ganhando cada vez mais destaque nas últimas décadas. Não é para menos: além de se apresentar como uma vertente cultural e artística contemporânea, a indústria da confecção também se transformou em significativa fonte de lucros. No ano de 2010, segundo dados da Abit (Associação Brasileira de Indústria Têxtil e Confecção), a produção têxtil brasileira gerou 1,7 milhão de empregos e uma receita de 52 bilhões de dólares, produzindo cerca de 5,6 bilhões de peças de vestuário. Apenas em São Paulo, o setor foi responsável por 15,7 bilhões de dólares e mais de 550 mil empregos.

O desenvolvimento comercial da confecção no Brasil teve início na segunda metade do século XX, quando diversas indústrias têxteis estrangeiras desembarcaram no país e passaram a investir na produção nacional. Isso abriu espaço para que a imprensa relacionada com esse segmento também se desenvolvesse, e permitiu que diversas publicações entrassem no mercado, como as revistas Claudia, Manequim, Desfile, Noticiário da Moda e Moda Brasil

O editor de cultura da revista Veja, Mario Mendes, um dos protagonistas desse processo de consolidação do jornalismo de moda no Brasil, explica que, mesmo na década de 70, a moda era pouco discutida, pois era considerado fútil escrever sobre o assunto. "Quando comecei no jornalismo, em 1978, não se falava em cobertura de moda por aqui. Vivíamos em uma ditadura e a tradição de esquerda da imprensa não via esse tipo de coisa com bons olhos. Afinal, ‘pessoas estão sendo torturadas nos porões da ditadura’, diziam." 

Deborah Bresser, editora da seção de moda do portal de notícias IG, também acompanhou esse crescimento. Segundo ela, foi um curso de jornalismo de moda organizado pelo setor têxtil da indústria química francesa Rhodia que a fez descobrir as possibilidades de cobrir esse segmento. "Na década de 80 não se falava de jornalismo de moda. Era uma coisa incipiente e eu peguei o fortalecimento dessa área. Foi esse curso que me possibilitou ver as possibilidades da área", se recorda. Folha de S.Paulo e edita a revista Serafina, suplemento mensal do jornal, confessa que não foi fácil se estabelecer como jornalista de moda. "Comecei fazendo outras coisas, sempre puxando para cultura, uma área que sempre gostei, mostrando a influência da moda. Esse mercado é ainda restrito, é difícil entrar logo de cara", afirma. 

Hoje o cenário é diferente. O jornalismo de moda tornouse uma editoria valorizada e bastante disputada por profissionais. A jornalista Vivian Whiteman, que mantém um blog de moda no site da Folha de S.Paulo e edita a revista Serafina, suplemento mensal do jornal, confessa que não foi fácil se estabelecer como jornalista de moda. "Comecei fazendo outras coisas, sempre puxando para cultura, uma área que sempre gostei, mostrando a influência da moda. Esse mercado é ainda restrito, é difícil entrar logo de cara", afirma. 

A restrição do campo de atuação é um problema enfrentado por diversos profissionais que acabam de sair da faculdade e desejam escrever sobre moda. Glauco Sabino, formado em jornalismo pela Cásper Líbero, roteirista do programa de televisão GNT Fashion e blogueiro do portal IG, concorda: "É muita gente para pouca vaga. Foi difícil entrar nesse meio, começar a me inserir. É um clubinho fechado, mas não é uma coisa impossível".

Acervo pessoal
Para Deborah Bresser, “O jornalista
de moda apura de porta em porta
como em qualquer redação”

Palpiteiros x jornalistas 

Para conseguir tornar-se um jornalista de moda, o importante é ter não apenas um grande conhecimento do assunto, mas também o entendimento e domínio das práticas do jornalismo, algo que nem sempre acontece com os formandos de moda. "Hoje em dia a gente percebe que a formação das faculdades de moda gera muitos palpiteiros sobre o assunto. Dar palpite é fácil. O jornalismo tem determinados princípios que não estão sendo observados por muita gente", reclama Deborah Bresser.

"Conheço muito jornalista bom que não fez graduação específica em comunicação, mas o curso dá os instrumentos para realizar um jornalismo correto", pondera Glauco Sabino, que, além do curso de diploma da Cásper Líbero, tem no currículo cursos de história e produção de moda realizados na Central Saint Martins College of Art & Design de Londres. 

Miti Shitara, professora de História da Moda da Faculdade Santa Marcelina, afirma que estudantes de moda estão cada vez mais interessados em se tornar jornalistas, especialmente após a queda da obrigatoriedade do diploma. "Os estudantes de moda representam uma concorrência para os jornalistas, e estão sendo contratados, já que não se exige mais o diploma". No entanto, ela afirma que os aspirantes a jornalistas de moda devem estudar ambas as áreas. "Ambas as formações são necessárias, jornalismo e moda. Quando alunos meus apresentam interesse no assunto, eu encaminho para cursos de pós-graduação em jornalismo."

Louise Solla
Glauco Sabino: “A cobertura de
moda no exterior é mais
profissional que a brasileira"

Deborah concorda que apenas a formação de moda não é suficiente para a profissão e conta que prioriza candidatos que tenham um curso de jornalismo em sua redação. "Muitas vezes, só a formação de moda não é suficiente para que a pessoa exerça o jornalismo. Prefiro ter um jornalista na redação a um consultor de moda", admite.

Como forma de atender às exigências do mercado, o jornalista e também ex-casperiano Hermano Silva cursou História da Moda na University of the Arts, em Londres, e atualmente estuda fotografia em Berlim. "Acho que o curso de jornalismo é ainda muito genérico, tentando abarcar um universo de informações sem deixar a escolha para o aluno fazer as matérias que lhe interessam. Quando os alunos se formam, vejo que ainda há um déficit enorme em termos de bagagem cultural para a área que pretendem seguir, independentemente de qual seja, esportes, economia ou moda", afirma Hermano.

Devido a essa procura, diversas instituições, como as escolas São Paulo e Panamericana e a EmModa, oferecem cursos voltados para o jornalismo de moda. "Não acho que seja necessário uma graduação em moda. O importante é ir atrás das informações, livros, ser autodidata. Para quem quer, não faltam fontes", afirma Vivian Whiteman, que, além da formação de jornalista pela Cásper Líbero, fez dois anos de curso de moda na FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), mas foi obrigada a interrompê-lo devido ao acúmulo de trabalho na redação.

Trabalho sem champagne

Embora o jornalismo de moda seja visto muitas vezes como glamouroso, cheio de eventos e festas badaladas, o dia a dia na redação é semelhante ao de qualquer outro campo jornalístico. Segundo Deborah, "Não tem champagne todo dia na redação. As pessoas trabalham normalmente, vão apurar, porta a porta, exatamente como em qualquer outro segmento do jornalismo". 

Essa "glamourização" também não existe para Mario Mendes. "Escrever sobre moda é o mesmo que falar sobre qualquer outro tema relacionado com a cultura. Nunca fiz essa separação", conta. Ele ainda ressalta que a mistificação que gira em torno da moda é algo novo e infundado. "Só de uns tempos para cá surgiu essa febre de jornalismo de moda, quase como se estivéssemos falando de algo hermético e importantíssimo, sobre o qual poucos têm entendimento. Jornalismo é jornalismo, cobrindo um crime ou um desfile", esclarece.

No entanto, ainda existe uma grande separação entre o jornalismo de moda e outras manifestações do jornalismo cultural, devido ao preconceito de muitos profissionais contra o assunto. "Senti certo preconceito até mesmo na faculdade, como se o jornalismo de moda fosse um jornalismo menor", lamenta Glauco. "A moda cresceu de tal maneira que se alguém ainda acha que ela é só futilidade, é um desinformado", sustenta Vivian.

De acordo com a jornalista, esse preconceito é parcialmente produto do trabalho realizado por alguns dos próprios profissionais da área da moda, que nem sempre tratam o assunto com a seriedade que ele merece. "Existem jornalistas que realmente analisam um filme, pesquisam sobre o trabalho do diretor, por exemplo, e os que apenas fazem o resumo pedido. A mesma coisa acontece com o jornalismo de moda. Tudo depende de quanto esforço e empenho que você vai colocar na cobertura", argumenta.

Outro preconceito comum é o de que os jornalistas especializados em moda investem grande parte do seu tempo e dinheiro em looks extravagantes. "Me visto com que gosto e com o que cabe no meu orçamento", simplifica Mario. Já Vivian admite que existem jornalistas bastante preocupados com a aparência, mas que isso não é tão importante quanto produzir um bom texto. "Tem quem ache que deve estar sempre vestindo a última tendência. Como tem que escrever sobre moda, precisa mostrar que está por dentro, mas é uma opção. Alguns se vestem desse jeito, seguindo à risca os ditames da moda, mas escrevendo não chegam aos pés disso. No fundo, acho uma besteira", confessa.

Deborah reforça a opinião de Vivian e afirma que, embora existam jornalistas que investem no visual, isso não é sinônimo de bom profissional. "Existem as figuras glamourosas, mas, no dia a dia, tem de trabalhar. Tem os que trabalham e os que passeiam", afirma. Já Erika Palomino, editora do Moda, caderno da Folha de S.Paulo, e autora do site com seu nome no portal IG, admite que existe, sim, um pouco de luxo na profissão, mas que nem por isso o trabalho é fácil. "Existe glamour. Mas não é só isso. A imagem de glamour acaba dominando uma vida de muita ralação."

Glauco também acredita que o glamour faça parte do universo da moda, e que acaba influenciando na maneira com que os jornalistas se vestem. Mas ressalta que, mesmo existindo profissionais que levam isso muito a sério, a extravagância acontece nos grandes eventos e desfiles, não no cotidiano. "Quando vou a um evento onde sei que encontrarei as pessoas da indústria, tenho uma preocupação maior. Não é se exibir, mas é importante passar credibilidade. Mas jornalistas sérios também têm seus bad hair days", brinca. 

Erika concorda: a preocupação com o visual faz parte da vida profissional. E garante que, mesmo trabalhando com moda, não ocupa todo o seu tempo pensando em tendências. "Me preocupo com o que visto somente em ocasiões profissionais. Trabalho com a moda, mas não sou escrava da moda, não penso nela todos os minutos de meu dia, nem sou uma consumista louca. Existem coisas bem mais importantes nesse mundo do que roupas", esclarece.

Um "baby" promissor

Divulgação
São Paulo Fashion Week: a consolidação da cobertura
de moda

Vivian Whiteman lembra também que não existe espaço e estrutura para tanta produção como ocorre no exterior, pois no Brasil não há tanto investimento na cobertura de moda. Assim, a ostentação das grandes revistas e profissionais das editorias de outros países, como Estados Unidos, França ou Itália, não existe por aqui, onde tudo é mais modesto. "No Brasil não existe essa besteira, nem tem espaço para isso", explica.

Segundo Glauco, o próprio jornalismo realizado no Brasil ainda não alcançou a qualidade do existente no exterior. "O jornalismo de moda no exterior é mais profissional do que o brasileiro. Tem mais investimento, mais estrutura", afirma. Ele acredita também que isso está relacionado com o fato de que a própria moda ainda é algo novo por aqui. "O Brasil começou a se profissionalizar com a criação do SPFW (São Paulo Fashion Week), que completa 15 anos agora. Então a moda no Brasil é ainda um baby, está caminhando", esclarece.

Erika também acredita que ainda falta espaço aqui. “Nosso jornalismo de moda poderia se desenvolver mais se tivéssemos mais veículos. Novos nomes e títulos precisam ainda aparecer e se firmar com o respaldo do mercado.” Ela também entende que esses novos jornalistas poderiam ir para as redações dos grandes jornais diários, que ainda investem pouco em cobertura de moda. “Os grandes jornais não tem críticos importantes (de moda), o que é uma pena, pois eles poderiam fazer críticas independentes, protegidos pela natureza da própria mídia impressa diária”, lamenta Érika.

Mesmo assim, o Brasil vem ganhando mais atenção no panorama internacional. Diversas marcas e indústrias abriram filiais no país, o que deve ter reflexos no crescimento da imprensa especializada. “O amadurecimento é do mercado como um todo. Da moda, e também do jornalismo”, comenta Glauco. E assim como ele, Vivian se mostra otimista em relação ao futuro do jornalismo de moda no país. “O Brasil está num bom momento, várias grifes estão se instalando aqui, as criações de nossos estilistas fazem sucesso lá fora, mas ainda é algo recente. Mais a moda se desenvolve, mais a imprensa ganha espaço, e é o que está acontecendo.”

Embora durante muito tempo fosse considerada apenas futilidade e “perfumaria”, a moda e profissões relacionadas com ela ganharam espaço e atenção nas últimas décadas, não apenas pelo poder econômico dessa indústria, responsável por cerca de 10% do PIB (Produto Interno Bruto), mas também pelas possibilidades artísticas e midiáticas que apresenta. Estabelecendo-se cada vez mais como uma vertente cultural e forma de comunicação, o trabalho na área ainda mostra potencial de expansão em nosso país. Afinal, o Brasil está na moda.



Comentários Comentários Postados
Comentários Envie o seu comentário

Caro leitor, esse espaço foi criado para que você opine e discuta a matéria que acabou de ler

Cada comentário comporta no máximo 600 caracteres.

Os comentários devem se ater ao texto publicado.

Mensagens ofensivas, provocativas ou que contenham palavras de baixo calão serã excluídas.

restam caracteres.