Espetáculo "VER( )TER" ganha força na dúvida do espectador
No Centro Cultural São Paulo, o gosto de gincana vem ainda antes do começo do que se convencionou chamar de peça teatral: há uma fileira de seis baldes com água, em frente à entrada da construção de vidro que abriga a Gibiteca Henfil. A soma das letras vermelhas escritas em cada balde forma a seqüência “V”, “E”, “R”, “T”, “E”, “R”. Quinze minutos após o horário previsto para o começo da atração, a organização do local não sabe informar para onde o público deve se dirigir, nem por que há uma tenda preta no canto ao lado da entrada da construção de vidro. Enquanto isso, a peça começa no pátio próximo a um grupo de jogadores de xadrez, a alguns metros de lá. Seria proposital?
Confusões e falhas de comunicação à parte, VER( )TER é a nova apresentação do grupo de teatro Cia. Les Commediens Tropicales, formado há seis anos no curso de Artes Cênicas da Unicamp. Atualmente, é composto por sete atores e artistas convidados.
No total, treze atos são executados para uma plateia flutuante, formada por aqueles que se dispuserem a seguir a ação itinerante, ao redor de todo o Centro Cultural. Os espectadores móveis somam-se aos que coincidem de estar no lugar escolhido pelo grupo como palco.
Em cena, seis atores, um rapaz com um contrabaixo acústico e uma pequena equipe técnica, trabalhando com diferentes elementos performáticos: música, dança, grafite, teatro e projeção de filmes. Os significados de cada cena são muitos, e relacioná-las entre si é um quebra-cabeça.
A ação prende a atenção do público pelo imprevisto. Num certo momento, duas garotas da trupe colocam-se lado a lado atrás de uma parede de vidro. Passam a se cobrir de camadas de roupa: uma se veste como uma sóbria mulher muçulmana; a outra, como uma colorida adolescente. Um pouco depois, o grupo se realoca e uma grande cara feminina cantando Lua de Cristal é projetada na área externa. Então, os atores pulam corda e convidam o público a imitá-los. Simultaneamente, uma mulher corre em volta da ação com uma placa com os dizeres “Amanhã eu vou mudar o mundo”.
Durante a apresentação, a dúvida sobre a existência de alguma crítica ou sentido por trás do que se vê é uma constante. Daniel Gonzalez, iluminador e ator do que se classificou como “intervenção cênica”, discorre sobre o processo de criação de VER( )TER: “a gente estava muito influenciado pelas obras do Banksy e queria fazer alguma coisa com isso”. Banksy é um dos artistas das ruas britânicas mais respeitados atualmente, cuja obra se caracteriza por grafites de grande apuro técnico e de clara influência situacionista. Ainda segundo Gonzalez, a proposta da peça é formular “um outro olhar e um outro ‘ter’ da arte”.
Em cartaz desde o primeiro sábado de abril, o espetáculo segue até 29 de maio na programação do Centro Cultural São Paulo, na rua Vergueiro. É uma intervenção “reticente-porém-eloquente”, que não prescinde de uma única interpretação para inquietar quem assiste.
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