Debatedores falaram sobre a relação da sociedade com os doentes mentais
O Ciclo Cinema e Loucura terminou hoje com o filme Um Estranho no Ninho, do diretor Milos Forman. Após a exibição, participaram do debate o aluno do 2º ano de Jornalismo, Felipe Bianchi, e os professores Liráucio Girardi Júnior, Rodrigo Esteves e Adalton Diniz – este último, atual coordenador de Cultura Geral.
Assim como Bicho de Sete Cabeças, longa de abertura do Ciclo, em Um Estranho no Ninho a história também se passa em um sanatório, para onde o protagonista Randle McMurphy (Jack Nicholson) é enviado. Ele se passa por doente mental, buscando uma pena que imaginava ser mais amena do que o presídio.
Bianchi abriu o debate expondo duas possíveis leituras do filme. A mais óbvia, segundo ele, é a critica ao sistema e ao despreparo da sociedade no tratamento de doentes mentais. A segunda interpretação da obra faz referência à importância da chegada de McMurphy ao hospital. “Ele não é apenas um malandro, ele é como um sopro de vida para aquele lugar”, ressaltou.
Na opinião do aluno, a forma punitiva com a qual o personagem é tratado poderia esconder o medo que a sociedade tem do que determina como loucura. Bianchi terminou sua fala questionando: “Dizem que de louco todos temos um pouco. Se ser louco significa tomar as próprias decisões e questionar as normas, deveríamos ser mais como McMurphy”.
O debate prosseguiu com Girardi, que falou sobre o manicômio a partir do conceito de instituição total, criado pelo sociólogo Erving Goffman. Essas instituições isolam o paciente, que é submetido à lógica daquele lugar. O professor caracterizou tal situação como paradoxal. “A intenção deveria ser cuidar para que o indivíduo possa ser incluído, mas esses lugares acabam isolando a pessoa da sociedade”, declarou. No filme, a tentativa de impor a adaptação de McMurphy às regras é tarefa da enfermeira Mildred Ratched (Louise Fletcher), que se preocupa com as atitudes questionadoras de McMurphy, as quais colocam em risco a lógica do hospital psiquiátrico. Girardi também enalteceu a atuação de Jack Nicholson: “Ele não reduziu a personagem a um contexto sociológico e trabalhou seu psicológico, problematizando a noção da ordem e das regras impostas”.
Lembrando o contexto da contracultura em que a obra foi feita, Esteves caracterizou a enfermeira Ratched como uma representação do imperialismo norte-americano, enquanto seus pacientes seriam desajustados. A presença de McMurphy, que trata a todos igualmente e com naturalidade, faz com que os companheiros comecem a questionar as normas do sanatório.
O protagonista sofre um processo de humanização, evidente ao final do longa. Entretanto, ele não consegue transformar o sistema do hospital. “A loucura como estereótipo e as críticas ao procedimento do tratamento psiquiátrico são uma lobotomia simbólica”, afirmou Girardi.
Comentários Postados
Envie o seu comentário
Caro leitor, esse espaço foi criado para que você opine e discuta a matéria que acabou de ler
Cada comentário comporta no máximo 600 caracteres.
Os comentários devem se ater ao texto publicado.
Mensagens ofensivas, provocativas ou que contenham palavras de baixo calão serã excluídas.