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07/04/2011 - 11h21 - Atualizado em 19/06/2013 - 21h17

TV Cultura: pública ou estatal?

Rafael Faustino, Ricardo Gonçalves (2º ano de Jornalismo) e Victor François (1º ano de Jornalismo)

Recentes decisões, motivadas por uma crise financeira, levantaram questões sobre a autonomia da emissora em relação ao Governo

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Rafael Faustino
Para o jornalista Heródoto Barbeiro, a TV Cultura precisa rediscutir
a sua missão como canal público

Ficou explícita, de um ano para cá, a crise pela qual passa a TV Cultura. Demissões, mudanças na grade de programação, cortes no repasse de verba pública. São sintomas de uma tentativa de se adequar a um modelo econômico mais viável para a emissora, conhecida pela qualidade educacional e informativa de seus programas.

Esta fase difícil, antes comentada apenas nos bastidores, foi admitida publicamente pela direção do canal. Em nota oficial, divulgada em agosto de 2010 em meio a polêmicas e notícias sobre demissões na emissora, a Fundação Padre Anchieta (FPA), que administra a TV Cultura, admitiu que esta “perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente.” Teria ela se tornado um fardo para o Governo do Estado?

Com a experiência de 22 anos de trabalho pela emissora, o jornalista Heródoto Barbeiro, agora fora da Cultura, defende que um debate estrutural se faz necessário atualmente, para discutir qual seria o real propósito de ser do canal. “A questão central é discutir qual é a missão da TV Cultura. Qualquer cidadão que paga imposto tem o direito de fazer essa pergunta e obter uma resposta. Mas ninguém responde.”, afirma, criticando a pouca abertura dos escalões mais altos para responder este tipo de questão. “Se não há missão, não há razão para existir”, completa.

Na visão do ex-apresentador do Roda Viva e do Jornal da Cultura, há uma confusão de ideias no conceito de televisão pública utilizado no canal, gerado por influências políticas. “A TV Cultura pretende ser uma TV pública, mas ela não é.(...) Ela não pode se submeter editorial ou administrativamente ao governo só porque ele põe dinheiro lá. A Cultura chegou à situação calamitosa em que está porque o Governo usou critério político e não critério técnico.”

No entanto, ele aponta que este não seria um problema recente, relacionado às últimas administrações: “O jeito como ela (TV Cultura) está estruturada foi pensado há 40 anos, e não se pode continuar levando como se pensava 40 anos atrás. As gestões são circunstanciais. O problema da TV Cultura é estrutural.”

Fundada em 1969, A TV Cultura é administrada pela Fundação Padre Anchieta junto com as Rádios Cultura AM e FM, além da TV Rá Tim Bum. Até 2010, a FPA geria também as TVs Assembleia e Justiça. Apesar de ser uma instituição de direito privado e possuir um conselho deliberativo, a Fundação costuma ter seu presidente indicado pelo Governo do Estado, em mandatos que duram três anos. O atual presidente foi indicado por José Serra: João Sayad, ex-secretário de cultura do Estado na gestão do político do PSDB.

Rádios e subordinadas

As críticas de Heródoto Barbeiro fazem eco em outros segmentos da rede de canais administrados pela Fundação Padre Anchieta. Tatiana Ferraz, ex-funcionária da Rádio Cultura FM, onde apresentou o programa “Atenção Brasil” e foi coordenadora de jornalismo, comenta que acha o modelo de administração burocrático e engessado. Segundo ela, a cada troca de presidência na Fundação, muda o estilo de administração, o que gera uma instabilidade, prejudicial a qualquer projeto de médio a longo prazo. “É como você viver sabendo que a cada três anos você pode morrer”, compara.

A jornalista, que deixou a rádio no início da administração de João Sayad, contou que, após o economista assumir, a preocupação em reduzir os gastos nas emissoras foi imediata: “Quando Sayad assumiu, houve uma preocupação muito maior, até pelo fato de ele ser um cara que entende de economia, em cortar despesas na TV e na Rádio Cultura a ‘qualquer custo’. E a gente sabe que, quando ocorrem essas medidas extremas de redução de gastos, os critérios são duvidosos e poucas pessoas participam dessas decisões.” Segundo ela, 150 pessoas foram demitidas somente nas rádios AM e FM, número que representa 10% do total de funcionários.

Outra medida recente da FPA para reduzir os custos da TV Cultura foi decidir não renovar, ainda em 2010, o contrato que deixava sob responsabilidade da emissora a administração das TV Assembleia e TV Justiça. Este fato teria gerado mais 285 demissões, segundo a Folha de São Paulo. Uma fonte de uma dessas televisões, que pediu para não ter seu nome divulgado, comentou que as TVs tinham más gestões, com equipamentos velhos e um sistema obsoleto de administração.

Outro lado

Procuradas, a Fundação Padre Anchieta e a TV Cultura não concederam entrevistas sobre nenhum desses assuntos. A assessoria de imprensa da Cultura não confirmou o número de demissões ocorridas desde a troca na presidência, nem dados sobre a audiência recente de seus programas, o que poderia ajudar a explicar as recentes mudanças.