Joerg Zirfas e Lucrecia D’Aléssio Ferrara finalizam três dias de eventos no SESC Vila Mariana
O fim do Seminário Internacional Emoção e Imaginação, no dia 1º de abril, deu-se com a mesa “Felicidade”, composta por Joerg Zirfas, professor da Friedrich-Alexander-Universität Erlangen-Nürnberg, e Lucrecia D’Aléssio Ferrara, da Pontifícia Universidade Católica São Paulo.
O alemão abordou o tema “imaginação da felicidade”, trazendo à tona as utopias que circundam tal emoção. Para Zirfas, a felicidade seria entendida como a realização dos desejos conscientes e inconscientes, ou seja, através da satisfação de necessidades, do bem-estar episódico. “Antropologicamente, somos seres vivos que presentificam pessoas e o mundo a partir de imagens. A imaginação transporta o que está fora para dentro, criando um mundo interior-exterior que comercializa com estruturas do imaginário.”
A imaginação serve como forma de se pensar a possibilidade do prazer, de projetar a transcendência do desejo, construindo, assim, a utopia da felicidade: a confiança de um desenvolvimento em determinada direção. “A felicidade real possui uma definição diferente da felicidade ideal. Existe o ser feliz e o ter felicidade, emoção que preza pela positividade, integralidade, durabilidade, intenção e fundamentação”, argumenta Zirfas.
A relação entre a sensação de felicidade e a imaginação se dá incansável do ponto de vista da psicanálise. “Há estruturas conscientes e inconscientes nesse parâmetro. O que, por exemplo, move as pessoas a fazerem atividades que não trazem prazer imediato? Freud tenta explicar isso através do poetar, como efeitos da cultura enquanto sublimação”, comenta o professor.
Para o acadêmico, uma pessoa feliz não fantasia, pois não precisa fazer correção do insatisfatório a partir da imaginação. “Nas atividades humanas e culturais, fantasiamos os desvios para chegarmos ao equilíbrio”, afirma Zirfas, que questiona se os humanos querem ser perfeitamente felizes. “Não dá para dizer, mas há uma pulsão pelo prazer puro enquanto representação.”
Zirfas ainda a para os efeitos colaterais de se imaginar a felicidade, porque quando esta não é atingida, reage-se com decepção, melancolia. “O desejo humano se realiza como objeto, mas quando não o é, precisa de um interlocutor real para não se manter como um fantasma da felicidade”, diz. Dessa forma, o prazer pode ficar perdido no passado, enquanto o presente alimenta o passado e o futuro permanece aberto a possibilidades de satisfação. “A memória assegura a felicidade. Desejar não é outra coisa senão delirar, assim como nos sonhos se enxerga os desejos inconscientes, suas representações.”
A representação dos desejos permite a sugestão, fazendo com que a busca pela pretensão de felicidade se torne menos difícil. Porém, Zirfas ainda acredita que não há como atingir a emoção em sua plenitude. “Assim como Freud falava sobre a felicidade sexual, que tem a perda superada quando atinge a satisfação. Há um vazio de consciência após o ato sexual estar consumado”, comenta.
O professor também citou a procura pela felicidade a partir das drogas ou então a loucura que mantém a sensação de euforia permanente. “Se fôssemos optar pelas drogas, viveríamos como em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Mas não é isso que queremos, porque preferimos uma vida normal. Talvez o ser humano, no futuro, deseje algo além da felicidade e infelicidade”, conclui.
Lucrecia, com o tema Felicidade como Dialética da Imagem, discutiu sobre a incapacidade que os humanos adquiriram, a partir do século XX: a de pensar em imagens. Citando Walter Benjamin, especialmente A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica. “O sagrado da imagem foi perdido conforme os espaços se deslocaram do templo para a fábrica. O mito se tornou um espetáculo e a vida um faz de conta da publicidade”, argumentou.
A exposição da professora de pós graduação da Pontifícia Universidade de São Paulo girou em torno da sociedade de consumo, do capitalismo e de suas relações com as imagens. Para ela, é preciso devanear para se entender as imagens. Lucrécia também comentou as pesquisas de Vilém Flusser, tendo em vista as imagens como um produto comunicativo sem língua para a decodificação.
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