As duas últimas mesas do dia 31 de março trouxeram à tona reflexões sobre mídia e fé
Em 31 de março, o SESC Vila Mariana recebeu mais um dia de debates no Seminário Emoção e Imaginação. Durante a tarde da quinta-feira, duas mesas discutiram os temas Transcendências e Pathos/Paixões. A primeira, realizada às 14h30, foi composta por Eva-Marie Engelen, da Universidade Konstanz, e Malena Contrera, professora da Universidade Autônoma de Barcelona e da Universidade Playa Ancha, do Chile. Já a segunda e última do dia contou com a presença de Angelika Neuwirth, do Departamento de Estudos Árabes da Universidade Livre de Berlim, e Marília Pacheco Fiorillo, professora de Filosofia da Escola de Comunicações e Artes da USP. Ambas as discussões encontraram seu cerne na reflexão sobre a cognição humana, o sentimento e, de certa forma, a percepção do mundo.
Empatia e Imaginação
Eva-Marie foi a primeira a discursar sobre as relações entre o sentimento de empatia e a imaginação. Para ela, o poder imaginativo do ser humano depende diretamente da vivência social do indivíduo e de sua capacidade de sentir empatia pelo próximo. No entanto, a filósofa aponta para uma contradição: “Nós não podemos imaginar novas emoções, mas não está determinado como as que conhecemos se manifestam em cada um.”
A alemã conceituou imaginação como força de convencimento ou projeção. “Imaginar algo não se refere somente a uma imagem”, explica a estudiosa. “Podemos imaginar também o resultado de uma meta. Imagine, por exemplo, o jogo de dardos. Você não somente pensa o alvo, mas também a maneira como você o lançaria e a sensação que teria ao acertá-lo”. Segundo Eva-Marie, imaginação e empatia se relacionam quando discutidas as condições para que correlações sociais sejam imaginadas de maneira compreensível.
O sentimento de empatia foi definido pela acadêmica como um fator social. Nas suas palavras, “empatia é como imitar a sensação do outro com as suas próprias, participar do sentimento alheio”. Porém, Eva-Marie entende que a aceitação do sentimento de um terceiro pode levar a uma diversidade de sensações. Como exemplo, a pesquisadora descreveu uma criança com uma grave doença se divertindo em um balanço. A sensação daquele que observa o garoto pode levar à tristeza por conta de sua condição, enquanto outro que não a conhece sentiria alegria e euforia ao observar a cena. “Empatia não é um contágio. Cada um de nós possui a sua própria emoção”, elucida.
Eva-Marie também descreveu o que seria a “semantização das emoções”. “Se agora sinto empatia, minha forma depende de como minhas sensações foram formadas pela linguagem e como imagino minhas emoções”, argumenta. Em outro exemplo, a professora conta que “uma criança aprende o que é medo não só ao conhecer a palavra, mas ao observar e reproduzir a reação temerosa que alguém tem quando frente a um rato”. Essa simulação do sentimento, então, é a empatia: entender de forma emocional o outro e captá-lo. “Podemos ter diferentes nuances de sentimentos, mas estes devem estar relacionados a elementos já conhecidos. Logo, não é imaginável coisa qualquer sem esse preenchimento semântico”, sintetiza a alemã.
Simpatia e Empatia: Mediosfera e Noosfera
Malena Contrera discutiu as relações da empatia e simpatia com noosfera e a mediosfera. A definição de empatia de Contrera se difere daquela exposta por Eva-Marie. Segundo a professora, “empatia é considerar o outro, seus desejo e sua cultura”. Da mesma forma, Malena buscou definir simpatia, sendo esta “algo que vincula as pessoas e as faz conscientes que fazem parte do mundo.”
Tanto empatia quanto simpatia são emoções que, para a brasileira, são “processos que antecedem as próprias sensações e que estão longe do seu controle racional”. Ainda para Malena, simpatia e empatia são “viscerais”. Enquanto a primeira se caracteriza por ser “projetiva e identificativa”, a segunda “prescinde de presença corporal” e possui “força imagética presencial”. Portanto, a empatia se relaciona aos processos simpáticos à mediosfera, campo no qual a mídia busca, no espetáculo, a identificação de seu espectador por meio da projeção. A noosfera, porém, é tudo aquilo interno ao ser humano (suas emoções, significação e rituais simbólicos), logo, relacionados aos processos empáticos.
Malena critica a mediosfera. Para ela, os meios de comunicação “filtram a noosfera, de modo com que a mímese seja substituída pela cópia, em um processo instantâneo de troca do arrebatamento ritualístico pela euforia e espetáculo”. A acadêmica acredita que o resultado disso é a cultura pelo ego. “A consciência global só existirá quando nos livrarmos dos apelos simpáticos da mídia”, argumenta.
Além disso, ela também colocou em termos a importância que se dá às mídias digitais na conjuntura da comunicação. “As redes entre pessoas sempre existiram. Mas, enquanto comunicadores, pensamos na rede tecnológica, sendo que os metafísicos pensam em redes telepáticas. Estamos 100 anos atrasados!”, comentou.
Apesar das duras críticas, Malena esclareceu que não compartilha da opinião de que o espectador da mídia é um mero receptor no processo comunicativo, sem poder de decisão no que recebe e influenciável. “Fazemos parte da mediosfera, mas não participamos muito”, explica a professora. “Porém, é prepotente achar que somos completamente alheios e indiferentes aos processos simpáticos.”
Paixões bíblicas como desafio
Na mesa de debates sobre o tema Paixões, a alemã Angelika Neuwirth expôs sobre a história bíblica de Abraão quanto à intenção de sacrifício de seu filho Isaac. A professora analisou a narrativa e sua interpretação nas religiões judaica, cristã e mulçumana. Com foco na narrativa contada no Alcorão, livro sagrado do islã, Angelika baseou seu discurso na pergunta: “Existem relações entre o Islã e a tradição judaico-cristã?”
Para definir a paixão, a acadêmica destacou sua concepção cristã. Anggelika explica que “a paixão cristã coloca o sentimento não apenas como começo, mas o fim de um paradigma de sofrimento.” A partir desta idéia, a alemã acredita que “a leitura cristã da bíblia fez com que o sacrifício se tornasse central. Deste modo, a paixão se personaliza no sacrifício de Cristo.” Sendo assim, para os cristãos, a leitura do sacrifício de Abraão simboliza o que seria o sacrifício de Cristo. “O pai, Deus, se põe acima do amor pelos seus filhos e sacrifica sua própria prole por paixão”, explica Angelika.
No entanto, a paixão e o sacrifício de Abraão não podem ser entendidos da mesma maneira. O islã entende a parábola não em sua obediência plena a Deus, como na interpretação judaica, ou no sofrimento em oferecer seu filho à morte, como no cristianismo. Para os mulçumanos, como apontou Angelika, a importância está no fato de Abraão ter se desvinculado de uma sociedade de clãs para servir ao seu Deus. “O primeiro grande mérito de Abraão no Alcorão foi abrir mão de sua família e sua pátria de origem”, explicou. “Esta nova relação entre genealogia e sacrifício colabora para a idéia e legitimação social através do pai. Ao mesmo tempo, isso permite delimitar e fortalecer a relação paternalista dos mulçumanos.”
Comparando o cristianismo com o islã, Angelika entende que “o sacrifício de Cristo cria uma tradição mártir, o que gerou, por exemplo, os diversos santos da religião.”. “Isto o islã repudia. Para os islâmicos, a paciência e a obediência levam à salvação. Esta porta não deixa que a emoção entre na religião”, argumenta. Por esses motivos que a acadêmica alemã explica o temperamento frio e paciente dos mulçumanos. Para o islã, “Abraão não é pai, mas modelo”.
Religião e terror
Fechando o dia de debates, Marilia Pacheco Fiorillo expôs sua tese de que o medo é a paixão fundamental das religiões. Sem ele, não haveria espaço nas crenças para imaginação. Isto porque, conforme a professora, “imaginação e emoção são antitéticas”. Para explicar a antítese entre emoção e imaginação, a brasileira argumenta que “a emoção é inabalável e não permite réplica, enquanto imaginação, como autônoma e cintilante, é sinônimo de heresia.”
Além da característica autoritária das religiões, Marília argumenta que “a verdadeira vocação da religião não é acenar com uma promessa de felicidade, mas, sim, com o terror, a disciplina e, sobretudo, o medo.” Logo, a relação das instituições religiosas com seus fiéis é afirmar o “estado de criatura” destes. A professora aponta como principal característica das religiões a “heteronomia”. Nas palavras dela, “as religiões, para existirem, contam com a reposição contínua da condição de dependência. A oração e a súplica são ritos contratuais.”
Marília ainda caracteriza o campo religioso como o “palácio dos truísmos”. Isto porque, segundo ela, “não se pode discordar do inefável”. Ela acrescenta e afirma que “para que o medo tenha eficácia, as instituições religiosas criam os dogmas, que são mistérios sem admissão de intervenção ou intérprete.”.
Para sustentar seus argumentos, a acadêmica citou trechos de escritos de Irineu de Lyon e Tertuliano – o primeiro foi bispo católico e o segundo padre ortodoxo, contemporâneos do séc. II d.C. De Irineu, o fundador da chamada teologia de refutação, Marília parafraseou: “Basta-nos o medo de Deus em nossos corações”. De Tertuliano: “Creio porque é absurdo” e ”Pensar é poluir a alma”.
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