Christoph Wulf retorna ao evento para debater poiesis junto da psicanalista Suely Rolnik
No último dia do Seminário Internacional Emoção e Imaginação, houve apenas duas mesas ao longo do dia, que ocuparam a parte da manhã. A primeira, intitulada Poiesis/Adensamentos, contou com a participação do professor Christoph Wulf, da Universidade Livre de Berlim, e Suely Rolnik, psicanalista professora da PUC-SP.
Como de costume, o primeiro pronunciamento foi feito pelo professor estrangeiro, que tratou do embate entre considerar os sentimentos algo abstrato ou não, pondo-os no plano do imaterial e material. Categórico, Wulf indica que, em seu trabalho, divide as emoções em sete níveis: fluxo, performatividade corporal, práxis cultural, componentes miméticos, educação e formação, modelagem e gênero, psicoterapêutico. Assim, seu objeto de estudo foi o enterro do astro pop Michael Jackson, sendo tratado como um fenômeno de “globalização de emoções”. Nesse caso, o pesquisador vê o ritual como composto por emoções híbridas. “A transmissão ao vivo torna a imagem produzida. O que aconteceu com o Michael é parecido com o caso da morte da princesa Diana”, aponta.
Enquanto o funeral do artista reuniu mais de 30 milhões de espectadores nos Estados Unidos, em Berlim, mais de 10 mil pessoas foram ao auditório da cidade para acompanhar a transmissão. “Michael é um ícone global, que integra o imaginário. Essa platéia é composta por jovens que se identificaram com ele, seja nas músicas ou nas performances”, afirma. Em sua opinião, Wulf tem este evento como o mais impressionante e fascinante já acompanhado. “Os famosos presentes no enterro já reuniriam milhares de pessoas, mas foi Michael quem angariou toda essa gente”, indica.
O professor ainda levanta o fato de que, durante a cerimônia fúnebre, esqueceram-se dos casos de pedofilia e das dificuldades passadas pelo artista. “A filha de 12 anos do Michael declarou, durante o velório, que ele tinha sido o melhor pai do mundo”, comenta Wulf. O pesquisador ressalta a importância de Michael Jackson para o entendimento da sociedade contemporânea, ressaltando a fuga de sua ascendência africana, de sua origem pobre. “Ele buscou fazer uma música sem cor de pele. No fim, toda a comunidade fúnebre que sua figura reuniu mostrou que a relação com MJ ultrapassa o social. É a música como experiência, intensificação da vida individual e coletiva”, diz Wulf.
Nesse contexto, a intensidade emocional se divide entre o momento da morte, a encenação virtual, o processo mimético de intensificação, entendimento, contexto histórico-cultural. “Funerais são um rito de passagem, em que se busca lidar com o caráter passageiro da vida, com a sua finitude”, explica. Wulf ressalta que a morte de jovens ou a morte inesperada têm ainda mais força para mostrar a instabilidade, o fato de que não se pode deter o fim da vida. “Enquanto ícone, MJ permanece. As imagens representam o morto e o presentifica. MJ foi tratado como Cristo”, acrescenta.
Para o professor, o funeral de Michael ainda tem um lado econômico, afinal, as canções serão comercializadas. A falsidade ainda se perpetua conforme o evento reúne cantores afroamericanos e declarações defensoras por parte da família Jackson. Para Wulf, isso não faz sentido, uma vez que estes nunca fizeram apologia pela etnia que ali estavam representando. “Criar emoções e honra acaba se tornando um fator econômico e estético. Isso impressiona e intensifica. A produção mimética das emoções gera luto e solidariedade”, argumenta.
Mas, no mundo imaginário da performance e da imaginação, é difícil não se deixar contagiar. “O indivíduo só pode fugir se racionalmente. Existe um contágio emocional, um fluxo e circulação de sentimentos. Há um pertencimento e coerência social”, explica Wulf. A ressalva é que as emoções entre as pessoas não são iguais, mas parecidas: “Cada um elabora a sua sensação individualmente, de acordo com suas experiências, com a sua cultura e sociedade.” Mesmo entendendo tais eventos como kitsch e econômicos, Wulf assume que a coletividade acontece. “Fazemos referência com a imagem da perda de um ente querido ou com as imagens sacras. A pessoas acreditam, apesar do simulacro.”
Já na vez de Suely Rolnik, a palestrante que havia intitulado sua apresentação como Arquivomania fez a correção do nome para “A voz do vivo na imaginação criadora”. A psicanalista tratou da relação entre o pensamento e a criação, algo presente na essência humana. Para ela, todo pensamento humano é político, seja no âmbito macro ou micro.
A professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo trabalhou com as noções de dominante e subordinado a partir da dinâmica da dialética. Além disso, Suely relacionou a subjetividade do sujeito entre seu desejo e o seu ego, de forma a encontrar um equilíbrio. Já no âmbito político, a psicanalista abordou temas como o capitalismo cognitivo e a história da colonização brasileira. “Apesar do que se pensa, Portugal não mandou degradados para o Brasil, mas degredados, ou seja, pessoas que por motivo político foram exiladas de seu país”, afirmou.
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