Ciro Marcondes Filho e Gunter Gebauer foram os palestrantes convidados
A mesa Encenações aconteceu no primeiro dia de palestras do Seminário Internacional Emoção e Imaginação, realizado no Sesc Vila Mariana. Com início às 13h30, contou com a presença de Gunter Gebauer, professor da Universidade Livre de Berlim (Freie Universität Berlin), e de Ciro Marcondes Filho, professor da Universidade de São Paulo (USP) como palestrantes.
Gebauer tratou da questão do comportamento e da sensação dos torcedores em jogos de futebol, comparando o estádio a um palco onde o ego se apresenta com muita segurança. Citando o pensador Pierre Bourdieu, explicou: “Quando há o sentimento de pertencimento a um grupo, nós sentimos que estamos onde deveríamos”. Estar em meio a torcedores que partilham da mesma emoção individual leva todos a uma emoção coletiva.
Já a segurança absoluta de que existe um ego não é natural. Segundo Gebauer, “há uma ‘vozinha’ dentro de cada um que desperta dúvidas e indica comportamentos e limites”, porém quando se está em meio a outros torcedores, a ‘vozinha’ se cala e a fé no ego se torna incondicional e partilhada por todos. Isso pode refletir situações de violência, quando se fortifica o valor da equipe em contraposição às outras, ou o abalo do ego, quando o time querido perde uma partida.
Abordando um assunto descontraído, como o futebol, Gebauer, que é natural da Alemanha, tirou risos do público quando respondeu uma pergunta sobre qual seleção é a melhor: a brasileira ou a alemã? Ao responder, o palestrante teve jogo de cintura e afirmou que “as seleções aprenderam coisas importantes uma com a outra. A brasileira ensinou o gingado à alemã e esta ensinou uma defesa disciplinada aos brasileiros”.
Ciro Marcondes Filho não quis se pronunciar sobre qual seleção de futebol acreditava ser a melhor, mas nem por isso os aplausos do público lhe foram menos calorosos. O jornalista discutiu o fato de estarmos vivendo uma crise de percepção, que é decorrente do surgimento dos aparelhos de registro e reprodução, como máquinas fotográficas e filmadoras.
A criação desses produtos, na década de 20, levou à valorização da imagem em detrimento do áudio e da escrita e à “criação de uma sociedade paralela onde as reproduções ocupam grande espaço no cotidiano”, explicou Marcondes Filho. Entre as mudanças causadas, uma das mais curiosas é a relação dos indivíduos com a morte, ao tornar os mortos personagens atuantes. “Eles passam a fazer parte do cotidiano e a morte passa a ser um fenômeno relativo”, expôs.
Há poucos anos, mais uma mudança aconteceu com o surgimento da internet. “A rede exclui a figura do outro, elimina a alteridade, porque o outro é sempre a construção que eu mesmo faço dele”, explicou. Um indivíduo cria o que quer ser na internet, enquanto o outro fantasia, a partir de sua visão de mundo, quem está à frente daquela máquina. Por isso, segundo Marcondes Filho, “a internet é o terreno das encenações” e o homem, acostumando-se a essa lógica, a aplica ao cotidiano, gerando uma superficialidade generalizada das relações.
Unida à “crise de sentir o mundo”, como define Marcondes Filho, a comunicação também sofre suas consequências. O jornalista definiu o que entente por comunicação como “a ação de alterar o outro em sua visão de mundo” e não como as banalidades faladas no cotidiano, que pertencem ao campo da encenação. Por isso, finalizou com uma questão a se refletir: “Até que ponto estamos avaliando a qualidade da nossa comunicação? Como podemos fazer as pessoas pensarem esses problemas?”
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