Em palestra no Seminário Internacional Emoção e Imaginação, as professoras Ingrid Kasten e Jerusa Pires Ferreira discutiram a importância da imaginação e dos sentidos na comunicação
A mesa “Resgates”, do Seminário Internacional Emoção e Imaginação, ocorreu na manhã do dia 31 de março. A palestra contou com a presença da professora alemã Ingrid Kasten, da Universidade Livre de Berlim (Freie Universität Berlin), e Jerusa Pires Ferreira, professora da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP e no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP.
A palestra foi iniciada pela professora Ingrid, que abordou a imaginação através da literatura da Idade Média, mais especificamente pelo poema Tristão e Isolda (chamado apenas Tristão, na versão original em alemão). O poema conta a história de um jovem cavaleiro e a mulher de seu tio. Os dois se apaixonam após tomar uma poção mágica e vivem um romance proibido.
Ingrid explicou que, na Idade Média, o elemento mais valorizado na literatura não era a imaginação ou a originalidade, mas a habilidade na reprodução. “O importante era a reformulação, o exercício de estilo a partir dos modelos já existentes e tradições orais”, explica. Por esse motivo, existem diversas versões do poema Tristão e Isolda, sendo destacada na palestra a versão de Gottfried von Strassburg, um dos principais poetas alemães da Idade Medieval.
Segundo a professora, essa versão é memorável por realizar uma articulação entre o narrador, os personagens e os receptores, motivo que desperta o interesse dos leitores, já que estes procuram experimentar o amor descrito pelo autor através da leitura. “O autor estabelece uma relação entre o desejo dos amantes do poema e os receptores, que também querem viver esse amor. O ler como forma vivificar”, indica Ingrid.
No entanto, a palestrante apontou o fato de que essa experiência adquirida antigamente, através da literatura, está hoje prejudicada devido ao avanço tecnológico no campo criativo. “A imaginação é como uma experiência dos sentidos. É estética, não apenas cognitivas. A leitura imaginativa entrou em crise devido à digitalização”, lamentou.
A professora Jerusa Pires Ferreira também comentou sobre o efeito que a tecnologia causa nos processos comunicativos de natureza oral. “Existem vários tipos de mediações. O corpo é uma mediação, a escrita é outra e, agora, a tecnologia também. Mas a voz permanece. Sem a voz, o medo nos paralisaria”, esclareceu.
De acordo com a acadêmica, a comunicação envolve muito mais do que apenas palavras. “Tudo conta: respiração, timbres, entonação. Tudo isso é texto, tudo cria texto. É assim que se dá a comunicação oral, que é quase perfeita”. A perfeição não é atingida devido ao fato de que os envolvidos em processos de transmissão de conhecimento não possuem a mesma bagagem cultural, nem a mesma memória. “É complexa essa relação de recriação de estruturas narrativas baseadas no imaginário. Como o que se diz e o que se ouve se relacionam”, defendeu.
Contudo, a palestrante explicou que, embora não ocorra de forma perfeita, é necessário que afinidades culturais e intelectuais existam para que haja também um grau de comunicação. “Só é possível comunicar se houver algum grau de memória em comum”, disse Jerusa.
Ao final da mesa, a professora esclareceu também o conceito de fascinação na construção de imagens do discurso oral. “O instante de maior oralidade dentro do processo de transmissão de conhecimento é a fascinação como método de comunicação estética e ritual”, explicou Jerusa, enfatizando a importância dos sentidos na comunicação oral e na fascinação. “A relação multisensorial é a mais potente da fascinação”, concluiu.
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