Em evento em São Bernardo do Campo, Lilia Schwarcz defende a importância da obra de Lima Barreto
Falar de Lima Barreto em uma biblioteca pública soa como um manifesto. Apesar de seu inquestionável valor para a cultura nacional, vida e obra do escritor quase sempre são reduzidas ao pré-modernismo e ao Triste Fim de Policarpo Quaresma. Prova disso é que, em rápida pesquisa no Google, encontra-se apenas uma “biblioteca pública Lima Barreto”, no Rio de Janeiro.
A maioria dos outros 50.499 resultados diz respeito a generalidades sobre o literato ou a seu conto A Biblioteca. “O preconceito em relação à obra de Lima Barreto está expresso num detalhe tão importante como o fato de ele não nomear muitas bibliotecas públicas”, defende Ricardo Queiroz, funcionário da Secretaria de Cultura de São Bernardo do Campo.
Numa tentativa de desconstruir tamanho equívoco, o órgão promoveu, no último sábado (26), uma conversa com a antropóloga Lilia Schwarcz sobre o escritor. O evento aconteceu na Biblioteca Monteiro Lobato e abriu a temporada de 2011 do projeto Mundo Livro, que mensalmente convida intelectuais para dividirem suas experiências de leitura com o público.
A convidada definiu Lima Barreto como “uma espécie de termômetro nervoso da Primeira República”. Lilia é professora da Universidade de São Paulo e uma das maiores referências no estudo desse período histórico - como poucos, ela pode atestar a importância do escritor à compreensão do Brasil daquela época e dos dias atuais. No entanto, Lilia decidiu estudar a obra de Lima Barreto não só devido a seu caráter documental e sociológico, mas porque “ele fez boa literatura”.
O escritor tinha sete anos quando a Lei Áurea foi assinada, em 1888: “Ele é um filho da república e da crença de que, enfim, o Brasil seria diferente e finalmente tinha chegado à civilização”. Porém, “a liberdade seria uma promessa destruída nas mazelas da realidade”, completou.
Lilia falou das teorias cientificistas, que transformavam “a diferença cultural explicada social e historicamente em uma diferença biológica”. Num Brasil que queria ser visto como um país civilizado e branco, tais ideias foram utilizadas a serviço da exclusão e do preconceito racial. A mestiçagem, para alguns cientistas, criava indivíduos degenerados, cujas características físicas explicavam tendências à criminalidade e a doenças mentais.
“Lima foi um grande combatente das teorias raciais”, contou a antropóloga, lembrando que ele próprio sofreu preconceito por ser mestiço. A obra do escritor é militante, “uma literatura sobre negros e para negros. É, sobretudo, a literatura de um negro”.
Seus livros mostram os subúrbios do Rio de Janeiro, uma cidade diferente das representações feitas pela “elite que se reunia nas confeitarias, em clubes literários dos quais ele não participava”. O escritor integrava a ala boêmia dos literatos, que costumava se reunir em bares e era criticada pelo criador e então presidente da Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis. Lima Barreto, a propósito, tentou três vezes entrar na Academia. “Nunca fez parte [da confraria literária] como gostaria de fazer”, disse a antropóloga.
A literatura engajada e militante de Lima Barreto ficou, por muito tempo, desconhecida. Ele escreveu sobre a verdadeira face da exclusão no país – da imprensa aos hospitais psiquiátricos, instituições que conheceu de perto e descreveu, respectivamente, em Recordações do Escrivão Isaías Caminha e em Diário do Hospício. Em suma, escreveu sobre o que viveu. Para Lilia, ele “acreditava que sua emancipação aconteceria não por um ato [da princesa] Isabel, mas pela sua palavra e pela sua literatura”.
“Talvez parte dos motivos para não termos uma biblioteca [em homenagem a] Lima Barreto”, ponderou a convidada, “é porque a crítica execrou sua obra. Ela a considerava uma literatura realista e autobiográfica, uma literatura menor”.
Ao fim do encontro, ficou o sentimento de que resgatar a obra de Lima é, em certa medida, resgatar parte da dívida histórica do país com alguns de seus filhos.
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