PUC-SP recebeu o professor doutor da Universidade Livre de Berlim para um evento gratuito, aberto ao público
Nesta segunda-feira, dia 28, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo recebeu para uma palestra aberta ao público o Prof. Dr. Christoph Wulf, da Universidade Livre de Berlim. O evento, organizado pela universidade e pelo Centro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia (CISC), foi aberto por Norval Baitello Jr.
Com mais de cem livros publicados, incluindo 15 de autoria própria e outros títulos que organizou ou participou, Wulf fez uma apresentação de aproximadamente cinqüenta minutos a respeito da criação do homem a partir da imaginação. O tema, que será melhor desenvolvido nos três dias de Seminário Internacional Emoção e Imaginação, no SESC Vila Mariana, foi rapidamente explanado aos mais de cem presentes na ocasião.
Wulf iniciou sua exposição apontando que a partir do momento em que a mídia se inseriu na vida do homem, as imagens ganharam nova significação. Essa expansão da cultura visual, para ele, é importante para se entender a cultura. O professor explica que imagem e linguagem (língua falada e escrita) estão uma ao lado da outra, sendo que cada uma tem uma maneira de informar. “As imagens têm importância filogenética e ontológica para a formação do homem. A força das figuras aproxima os humanos de duas dimensões: ao mundo como ele parece e como é percebido e ao mundo que é formado por imagens mentais”, aponta.
Neste sentido, o mundo externo produz imagens no interior do homem, bem como o imaginário dos homens, que se repercute no exterior. “Sem isso, não haveria cultura, imagem e linguagem”, diz Wulf. O pesquisador relacionou a imaginação com as origens da fantasia, retomando-a desde os primórdios da humanidade, quando o cérebro do homem ampliou e o ser humano se tornou Homo erectus. “Ao ficarem em pé, os homens libertaram as mãos e o cérebro cresceu”, acrescenta. Mais tarde, esse desenvolvimento chegou ao estágio em que a fala apareceu, dando início à expansão da vida, à alimentação, caça e demais atividades. “Os instrumentos passaram a ganhar valor estético e imagens começaram a ser construídas. Com o processo mental, a pedra começou a ser pensada como ferramenta e também como objeto estético.”
Em outro nível, a estética humana se dá conforme a representação a partir de imagens. Na Idade da Pedra, as figuras internas se manifestavam em desenhos, estatuetas de animais e humanos. “Alguns especialistas acreditam que as interpretações dessas figuras não dão conta da mensagem, afinal, são pessoas de outra época falando de algo que era muito diferente”, Wulf faz a ressalva. Nesse caso, não há como saber exatamente o que se pensava sobre esses desenhos, se as figuras de animais eram uma forma de presentear, de intensificar através do mostrar. “O mundo fora da imagem é feito por representação, similaridade e relação causal. Isso tudo é conseqüência da força da imaginação.”
Wulf abordou também a forma como os antepassados representavam a morte. No caso do homem de Neandertal, os túmulos eram equipados com alimentos porque se acreditava na vida após a morte. Na França, foram encontrados indícios de homens, mulheres e crianças que haviam sido enterradas deitadas sobre flores. “Eles cuidavam dos mortos, porque acreditavam no fim da vida terrena, mas com um começo da vida no além”, explica. Pensar num mundo além já comprova a morte como imagem imaginária tais como as imagens sacras, especialmente as que representam deus. No caso das representações da morte, usar o crânio de um homem morto (Totenkopf) monta o imagético fúnebre, como no caso de algumas culturas em que a imagem do morto é trazida de volta à comunidade como a ausência do falecido, mas presença da imagem. “É um corpo simbólico e imortal, re-socializado”, afirma.
Nesse ponto, o professor retoma a idéia de imaginação com a de fantasia, na qual a imagem mostra algo que não é e, daí, cria-se a estética de um elemento icônico. “A fantasia é ver em e enquanto. O mundo como aparência. Sem a imaginação, não teríamos lembranças nem previsões futuras. É ela que reestrutura algo existente e produz algo novo”, diz Wulf.
Tipos de imagem
As imagens são classificadas em três tipos, os quais podem se sobrepor: mágico, mimético e de simulação. No primeiro caso, Christoph Wulf cita obras de arte em que eram pintadas imagens sacras, a presença mágica dos deuses. “A imagem força a similaridade, fazendo com que ela se funda ao conteúdo”, indica.
Citando Platão, o professor diz que pintores e poetas produzem utilitários, formam elementos que não se restringem à representação do mundo como ele aparece aos homens: trata-se de uma representação artística. “Os artistas trabalham com fantasmas, porque trazem para o visível aquilo que não se vê”, explica. Assim, as imagens mimetizam ilusões, sem se interessar com a similaridade, mas com o reflexo. “O artista não quer a verdade. A arte e a estética são mais livres da verdade do que as ciências, por exemplo”, afirma Wulf.
Já no caso da simulação, o pesquisador explica que tudo atualmente se transforma em imagem, justamente por um processo de abstração, de formação de signos. “Temos tantos textos imagéticos que a imaginação é cada vez menos solicitada. Com a ubiqüidade das imagens televisivas, há a miniaturialização do mundo. As imagens são produzidas e tratadas: partes são cortadas e remontadas, atraem umas às outras, arrastam e fascinam o observador. Num mundo de representações e aparências, a imagem se torna promíscua”, discorre Wulf terminando com uma brincadeira com uma das mais famosas citações de Marshall McLuhan: “As imagens são mensagem” (no original, o meio é a mensagem).
Quanto às imagens mentais, Wulf afirma que estas servem para que os humanos se aproximem do mundo e dos seres conforme eles próprios estimulam a produção de uma imagem em nós. “Com a sobreposição de imagens coletivas e pessoais, mais o imaginário coletivo e a história individual, temos uma visão e um modo de encarar o mundo”, explica. Quanto à classificação, o professor afirma que as imagens mentais possuem sete: reguladora de comportamento, orientação, desejo, vontade, memória, mimética e arquetípica. Todas essas características, segundo Wulf, são o que configura o mundo. “O olhar para a imagem pode acontecer de diversas formas: bondosa, maldosa, irritada... Tudo isso depende da história do sujeito, de sua subjetividade e conhecimento, do poder, controle e autocontrole.”
A rápida apresentação de Wulf terá maior aprofundamento no Seminário Internacional Emoção e Imaginação, que será acompanhada pelo Site de Jornalismo. Confira a programação.
Confira a cobertura do evento
Comentários Postados
Envie o seu comentário
Caro leitor, esse espaço foi criado para que você opine e discuta a matéria que acabou de ler
Cada comentário comporta no máximo 600 caracteres.
Os comentários devem se ater ao texto publicado.
Mensagens ofensivas, provocativas ou que contenham palavras de baixo calão serã excluídas.