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29/03/2011 - 11h39 - Atualizado em 21/05/2012 - 19h57

Sem plumas ou paetês: a vida como ela de fato é

Mayara Moraes, 3º ano de Jornalismo

Formadas pela Cásper, jornalistas publicam o TCC feito em trio a respeito da prostituição na Boca de Lixo

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Reprodução
Capa do livro, pulicado
pela Carrenho Editorial

Um misto de ansiedade, cautela, dedicação, persistência, paciência e coragem – muita coragem. Foi este elemento que compôs o tom do trabalho de três estudantes de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero que, em 2001, se envolveram em um projeto desafiador: escrever um livro-reportagem sobre a prostituição feminina paulistana na região apelidada de Boca de Lixo. Trata-se das localidades da Praça da República, entre a Rua Aurora e as Avenidas São João, Ipiranga e Rio Branco.

Em Contos de Bordel: A Prostituição Feminina na Boca do Lixo de São Paulo é uma obra de Ana Laura Diniz, Michele Izawa e Renata Bortoleto. Trata-se de um trio de mulheres que, divididas entre o jornalismo, a literatura e o teatro, obtiveram sucesso ao tentar entender as histórias de vida e os pensamentos das mulheres que se prostituem.

Esse feito, no entanto, só foi possível a partir da realização de um longo e minucioso trabalho que se estendeu por um ano e três meses. O cronograma, feito ainda no terceiro ano de faculdade, foi rigorosamente cumprido. Após mapear casas, cinemas, hotéis, boates e casas de massagem da Boca do Lixo, seguiu-se um período de inúmeras visitas e entrevistas que resultaram em um amplo e rico material. “Chegávamos em casa e cada uma fazia um relatório, para que pudéssemos cruzar as informações depois”, explica Ana Laura. “Na hora de escrever o livro, a gente tinha tanto material, tanto repertório, que o trabalho ficou muito leve e rico. A gente tem conteúdo hoje para ainda escrever o lado B do livro”, complementa Renata.

Tudo foi feito em grupo: desde as apurações até a produção do texto. “O leitor deveria ter a sensação de que apenas uma pessoa tinha escrito. Não queríamos uma colcha de retalhos”, esclarece Ana. De acordo com Renata, a excelência do trabalho de conclusão de curso que, posteriormente se tornou uma publicação e recebeu o 3° Prêmio Volkswagen (2001) na categoria de melhor livro-reportagem, se deve às peculiaridades de cada uma das autoras. “Na verdade, nós somos muito diferentes e esse foi o grande mérito do trabalho”, conta. “Na hora que tinha que ter muito primor, era a Ana que liderava. Quando devia ser uma coisa prática, era a Michele e, quando as duas brigavam, era eu que entrava”, diz Renata, divertida.

O livro, inicialmente um trabalho de conclusão de curso, surgiu da grande capacidade de observação de Renata Bortoleto e da habilidade das três em detectar a oportunidade de se contar boas histórias a partir de trivialidades. Na época, Renata trabalhava na Revista Imprensa, no centro da cidade, e notou que o movimento das garotas de programa na rua, nos cafés e teatros, era contínuo.

Determinou-se no início do projeto que ele se alicercearia em um exercício que, segundo as autoras, todo jornalista tem de ter: não julgar seu interlocutor. Mas pode ser que um leitor mais atento identifique partes do texto sutilmente tendenciosas, fato reconhecido por Renata, que não acredita em neutralidade e imparcialidade. “O viés aparece naturalmente, porque essa isenção que o jornalismo prega não existe. Ela é tão subjetiva e relativa quanto o ser humano. O livro tem uma tendência, não em defender a prostituição, mas em estar do lado dessas mulheres”, revela.

Mulheres essas que são apresentadas, como bem diz o jornalista Carlos Dias, “cruas, sem floreios nem adjetivos gratuitos”. Embora Renata admita que a obra é permeada por uma inclinação, inerente ao homem, o leitor não vai se deparar com histórias saturadas por impressões e pontos de vista das autoras. Pelo contrário. Umas das maiores preocupações de Renata, Ana e Michele foi a de manter a ética jornalística. “A vontade era de sair ajudando todo mundo. Você se sente impotente um par de vezes, até entender que a vida é um pouco de tudo e é preciso seguir a ordem natural das coisas”, diz Ana. Renata explica que elas conservaram distância e que qualquer tentativa ou gesto de aproximação que fugisse da proposta do trabalho era imediatamente barrado. “Não podíamos misturar as coisas ou todo o nosso trabalho seria em vão”, garante Ana.

O distanciamento é um dos mais responsáveis pela qualidade da obra. As personagens e lugares são reconstruídos com tamanha gama de detalhes que é possível vê-los diante de si. Os desafios e as situações de perigo intrínsecas à apuração e à cobertura de algo como a indústria do sexo, que nos anos 2000 movimentava cerca de meio bilhão de reais no país, despertam ainda mais a curiosidade e o interesse do leitor. Michelle foi inúmeras vezes convidada a fazer strip-teases e Renata, por pouco, não se tornou uma vítima “de mãos mais assanhadas”. Já Ana Laura conseguiu se salvar de dois episódios que poderiam ter provocado a sua morte. “Sabíamos que andávamos no limiar: um passo em falso, um erro qualquer no uso das palavras e poderíamos estar literalmente mortas, em alguns casos”, ela conta.

Muitas lições foram aprendidas a partir da experiência de escrever Contos de Bordel. Renata, Ana Laura e Michelle tiveram que vencer preconceitos para alcançar um grande feito: mostrar as mulheres, as mães, as filhas e as irmãs que estão por trás da forte maquiagem e das justas roupas. Como disse a própria Renata, as três autoras “humanizaram” as personagens sem imprimir, nesse processo, nenhum juízo de valor. “Quando a gente se aproxima de qualquer pessoa, a gente começa esse processo de relativização e vê aspectos belos e podres do ser humano que todos somos”, confessa.

Enfim, Renata conclama estudantes e jornalistas a contarem histórias de vida fortes e bem escritas, algo que, segundo ela, já há muito não se faz. “Eu ainda sou uma sonhadora e me proponho a fazer esse jornalismo e a ter esse olhar, falar do macro partindo do micro. A gente, de certa forma, fez isso: falou da realidade do centro de uma metrópole partindo da vida de Valesca (principal personagem retratada em Contos de Bordel). Essa é a função da comunicação, revelar humanizando!”.



Comentários Comentários Postados
ÉRica[08/12/2011 - 13:31]

O trabalho ficou ótimo,é um verdadeiro exemplo pra quem pretende cursar jornalismo,e seguir essa carreira.

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