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25/03/2011 - 12h26 - Atualizado em 23/05/2012 - 05h20

À margem da própria humanidade

Por Lidyanne Aquino, aluna do 3º ano de Jornalismo

Obra de Lourenço Mutarelli expõe o medo diante de uma sociedade hostil

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Reprodução
Capa da 1ª Edição, de 2009

O Agente, a Voz, a Esposa e o Maestro. Quatro personagens foram suficientes para construir a narrativa da segunda obra de Lourenço Mutarelli, O Natimorto. O autor constrói com destreza uma história fora do convencional em forma e contexto, expondo fragmentos semelhantes às poesias, como se fossem oriundos de um texto teatral.

O contato prematuro com a narrativa do Agente mesclada aos diálogos é suficiente para constatar a genialidade do escritor ao designar os elementos da história. O Agente apropria as imagens com mensagens antifumo em maços de cigarro – ele interpreta as fotografias como cartas de tarô – utilizando por base o conhecimento sobre carteado, obtido com a tia que o criou.

Ele envolve uma jovem cantora com as tentativas de prever o futuro por meio dessas interpretações. A Voz, recém chegada à cidade e carregando a expectativa pelo reconhecimento de seu talento, canta com tamanha beleza e candura a ponto de tornar-se inaudível. O Agente, cansado de lidar com a sensação de invisibilidade perto àqueles de sua convivência, a impotência e a traição da mulher, encontra alento na Voz. Atenta às histórias, ela é, em um primeiro momento, a personificação da pureza e perfeição não mais encontrada por ele na sociedade.

Em um misto de encanto, loucura e fuga a um mundo onde as mazelas são predominantes, a personagem central faz-lhe uma proposta – isolar-se com ele no hotel onde ela se hospeda. E ali viver, sem a necessidade de recorrer ao mundo pecaminoso. Mas o desafio que num primeiro instante a instiga, revela-se agonizante com a convivência diária.

O encantamento instantâneo de meros desconhecidos se quebra – passam então a compartilhar somente o mesmo espaço de conflito. Apesar da particularidade no cantar da moça, ela dá indícios de ser uma pessoa como outra qualquer – não almeja somente o sucesso na carreira, mas encontra-se disposta a viver, independente das desventuras que esta experiência possa proporcionar. O Agente, por outro lado, mostra-se cada vez mais à margem da própria humanidade – indisposto e despreparado para lidar com um mundo que lhe parece mais sufocante do que o pequeno quarto ocupado no hotel.

O trabalho de Mutarelli proporciona uma análise indireta da dificuldade do ser humano – senão para enfrentar, mas aceitar seus maiores medos perante à sociedade. A expressão Tat tvam ai (Tu És Isto), da filosofia hindu, figura no livro e expõe que nossa essência se mostra a todo o momento. As máscaras que buscam escondê-las são, assim, o disfarce perfeito – desviando a atenção dos olhares distraídos.



Comentários Comentários Postados
Alexandre Aragão[25/03/2011 - 20:28]

Talvez tenha faltado falar sobre a peça e o filme...

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