"Encontro de Improvisação" explora habilidades cênicas, performáticas e a criatividade do público
“É a primeira vez que vocês vêm aqui?”. Foi com essa pergunta que Dimas Willis chegou à Rua Vergueiro, no Centro Cultural São Paulo (CCSP) para participar do EI!, o Encontro de Improvisação.
Naquele 23 de março, seu nervosismo era latente, porém, agia como se fosse íntimo de todos. Não demorou a contar que é jornalista e ator, profissão aprendida no Actor’s Studio, em Nova Iorque, por indicação de seu suposto primo, Bruce Willis. Mas, infelizmente, Dimas não estava em plena forma para improvisar naquele dia. Acontece que ele tropeçou em um buraco "enorme" na Av. Paulista e lesionou a panturrilha. Antes mesmo de o encontro começar, partiu. Mal sabe Dimas o que perdeu.
Durante todas as quartas-feiras de março, a Companhia de Dança de Diadema encabeça o evento a convite do CCSP. Ana Botosso - bailarina, coreógrafa e diretora da companhia - explica para os desavisados: “Isto aqui não é um espetáculo. É, sim, um workshop de improvisação em dança”. Assim, o público que ali chegava, de início tímido e retraído, logo foi tirando os sapatos e a vergonha para assumir seus lugares no tablado central e, enfim, improvisar.
O EI! integra o projeto Zona de Ris_o, que acontece desde o carnaval e se estenderá até a Virada Cultural, em abril. A proposta é explorar o que há de lúdico e humorístico nas artes, incluindo literatura, música e teatro. Coube aos dançarinos de Diadema encontrar a intersecção entre dança, humor e uma pitada de atuação para brincar de improvisar.
O filósofo Johan Huizinga escreveu em 1938: “A dança é uma forma especial e especialmente perfeita do próprio jogo”. Ton Carbones, bailarino e produtor da coletivo, reflete: “Levando a dança para a pegada mais lúdica, os resultados físicos são completamente diferentes. Como se o nosso corpo assimilasse melhor cada movimento. Afinal, a gente nunca deixa de ser criança”.
Ton explica que o CCSP chegou até sua companhia por conta de outros trabalhos já realizados, que envolviam dança, humor, teatro e música. “No entanto, o foco sempre foi mais para a dança. Tivemos que sentar, discutir e nos organizar para mudar um pouco essa direção”, conta o produtor. No entanto, para Manuela Fadul, integrante do grupo, “não foi difícil encontrar esse ponto de encontro. O próprio público participante foi nos jogando propostas”.
Ao todo, os dançarinos apresentaram cinco jogos, dos quais as 28 pessoas ali presentes participaram, incluindo os membros da companhia. O encontro rendeu momentos inusitados, como quando a bailarina Thais Lima apertou com as mãos seus seios ao tentar demonstrar, por meio de gestos, aquela que seria a maior mentira sobre ela: “Meus peitos são lindos!”. O movimento inesperado foi fruto de apenas uma das brincadeiras propostas, as quais, além de exercitarem a coesão e percepção do grupo, renderam risos espalhafatosos.
A improvisação contou com a presença de portadores de necessidades especiais. Seu Rubens, por exemplo, se movimenta com duas muletas e precisou de auxílio para se deslocar durante todo o evento. Apoiado sempre em um dos dançarinos, fez questão de participar de todos os jogos, em que pesem suas limitações. O impressionante é que, desde 2007, ele acompanha a o grupo de Diadema. “Isso faz muito bem”, explicou. Da mesma forma, foi possível observar cadeirantes bailando e deslizando no tablado com desenvoltura invejável.
Ao fim daquela noite, os antes tímidos e retraídos tornaram-se livres, leves e soltos. Anderson trabalha com dança há três anos e participou pela primeira vez de um exercício de improvisação. Adorou a experiência. “Quem trabalha com dança tem que pensar amplo. Era isso que eu buscava a aqui e isso que eu encontrei”. As irmãs Juliana e Francila - uma psicóloga e outra fisioterapeuta -, vieram de “mente aberta” para o encontro e se surpreenderam. “É engraçado. Isso aqui melhora até meu trabalho. É muito louco!”, devaneia Francila. “Eu liberei geral!”, exclamou Juliana.
E o Dimas? Antes de sair, ele ainda disse a duas venezuelanas de férias em São Paulo, Daniela e Ida, que era amigo de Hugo Chávez. As duas não deram muita a atenção e logo foram improvisar. Willis saiu a passos largos e rápidos, provando que sua panturrilha estava boa. Porém, era possível vê-lo espiando, pouco antes de partir definitivamente, as brincadeiras, das pequenas arquibancadas que cercam o tablado no piso superior da sala, trajando boné e colete de diretor de Hollywood. É uma pena que Dimas Willis não pôde improvisar.
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