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22/03/2011 - 13h25 - Atualizado em 22/05/2012 - 20h26

Desnudando Nelson Rodrigues

Carla Leonardi, 3º ano de Jornalismo

Resenha do livro O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro

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Divulgação
Publicada pela Companhia das Letras,
a biografia de Nelson Rodrigues foi escrita
por um colega de redação, o jornalista
Ruy Castro

“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico”. É com essa citação de Nelson Rodrigues que Ruy Castro abre seu livro, uma emocionante biografia de um dos mais importantes dramaturgos do Brasil.

Nascido na capital pernambucana, o quinto de catorze irmãos era filho de Mário Rodrigues, jornalista que teve parte de sua história relatada em O Anjo Pornográfico. A partir de um triste episódio de Roberto, irmão de Nelson, uma série de tragédias passa a acontecer com a família Rodrigues, tornando a vida do biografado mais inacreditável do que suas peças teatrais.

Ruy Castro, que foi contemporâneo de Nelson na redação do Correio da Manhã, teve a oportunidade de entrevistá-lo, leu todos seus livros e teve acesso aos seus artigos escritos desde os 13 anos, assim como cartas particulares, manuscritos e fotos raras. Para ter informações daqueles que conviveram com Nelson, o autor entrevistou 125 pessoas, entre elas a esposa e um dos filhos do dramaturgo.

Rodrigues é retratado em O Anjo Pornográfico como um homem “pão duro”, impontual no trabalho, repleto de doenças durante toda a vida, fumante inveterado e um eterno apaixonado – ainda que suas paixões mudassem de nome com enorme facilidade, mesmo após seu casamento. Depois dos anos de fome pelos quais passou, dos tempos do suéter furado e das temporadas no “Sanatorinho”, onde tratava sua tuberculose, Nelson conheceu a fama, o conforto financeiro e recebeu o definitivo título de “tarado” ao começar a escrever suas peças – principalmente na estréia de Vestido de Noiva, encenado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1963, com a inovadora direção de Zbigniew Marian Ziembinski.

Castro mostra em seu livro um Nelson reacionário e conservador, desmontando a imagem de indecente que lhe foi atribuída devido à interpretação errada de suas produções. Ao expor o íntimo da sociedade, o dramaturgo desmonta as tradições burguesas, tentando gerar uma catarse em seu público. Sobravam cenas de prostituição, aborto e incestos que provocaram as vaias.

Ruy Castro consegue, em 457 páginas, desnudar Nelson Rodrigues assim como o dramaturgo fazia com a sociedade do seu tempo. Para levar um pouco do interior de Nelson aos leitores de seu livro, o autor relata passagens reveladoras de sua vida que demonstram, por exemplo, o amor que ele tinha pelos filhos, por sua primeira esposa legítima, a fidelidade que tinha para com os amigos e a sua luta por justiça. Com uma riqueza de detalhes em relação a nomes e datas, o leitor encontrará em O Anjo Pornográfico a vida daquele que representou um marco do teatro nacional e que conseguiu, com seu jeito único de escrever, tirar muito mais de suas platéias do que simples aplausos.



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