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21/03/2011 - 14h21 - Atualizado em 22/05/2012 - 02h14

“O jornalista vai ter que se adaptar às novas plataformas”

Julia Bezerra, 1º ano de Jornalismo

Rafael Sbarai é editor de Vida em Rede do site da revista VEJA. Com 24 anos, o jornalista e mestre pela Faculdade Cásper Líbero conta sua trajetória na profissão

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Divulgação
Rafael Sbarai deixou de ser
jogador de futebol para estudar
jornalismo. Hoje trabalha para
a revista VEJA e mestre pela
Faculdade Cásper Líbero

Aos 24 anos, formado há apenas dois, Rafael Sbarai já é mestre em jornalismo online pela Faculdade Cásper Líbero e hoje é o responsável pela área de mídia social da revista VEJA, a terceira maior publicação do mundo. Sua dissertação, "Compreensão da Construção do Cidadão-Repórter por Intermédio dos Modelos de Colaboração em Ambientes Jornalísticos Estruturados por Tecnologia Digitais Conectadas”, foi selecionada entre os trabalhos defendidos em 2010 na Faculdade para participar do Prêmio Compós de Teses e Dissertações, promovido pela Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós).

Modesto, bem-humorado e cheio de boa vontade, o colunista do Vida em Rede recebeu a reportagem para uma breve, mas produtiva conversa no prédio da Editora Abril. Do jornalismo esportivo à área tecnológica, sua empolgação com a profissão é notável. Realista e preocupado com o futuro do jornalismo, Sbarai se esforça para se manter antenado às mudanças cada vez mais velozes das plataformas de comunicação, deixando clara a participação do jornalista na construção e modificação da história da sociedade.   

Por que você escolheu o jornalismo como profissão?

Até os 17 anos, joguei futebol. Sempre quis seguir carreira como jogador – era meu sonho de criança, mas, devido aos treinos durante a semana, a cada ano ficava mais difícil acompanhar as aulas no colégio. Então, eu tive que escolher entre uma coisa e outra. Acabei desistindo do futebol e decidi prestar jornalismo. O que me levou mesmo a essa profissão não foi somente o hábito de ler e escrever, mas a possibilidade de me aproximar de uma paixão que tenho desde pequeno, que é o esporte. Por muita sorte, já no primeiro ano consegui um estágio em um grande portal esportivo, o iG. Fiquei lá até os 21 anos e depois fui para VEJA.

Conte mais sobre sua experiência no portal iG e como se deu a mudança para VEJA.

Trabalhei no iG de 2005 a 2008 e desde dezembro de 2008, estou na VEJA. No iG, fiquei dois anos como estagiário e então fui contratado como repórter na área de esportes. Comecei também a tocar projetos mobile, no sentido de levar o jornalismo às plataformas móveis. Desde 2006, tenho um blog em que escrevo sobre o jornalismo e seu futuro, que foi o que me projetou para o mestrado. Em 2009, a VEJA encontrou esse meu perfil e me chamou para participar de um projeto colaborativo. Esse trabalho teria duração de seis a sete meses e depois veríamos se eu continuaria ou não. Durante esse tempo, ganhei estrutura na revista e acabaram me contratando como repórter. Depois de mais quatro meses, virei editor de uma área chamada Vida Digital, que se trata de um eufemismo para o termo tecnologia. Além disso, recentemente me tornei responsável por estratégias da VEJA em outras plataformas, como Twitter, Facebook, Foursquare e outras redes sociais. Também procuro levar coisas novas para o site.

E, nessa mudança, você sentiu diferença jornalística entre o meio digital e o impresso?

Nós vivemos em uma geração que consome cada vez menos papel e minha primeira experiência profissional foi digital. Quando comecei, fui para um portal de internet. Considero a VEJA um grande aprendizado, porque eu ainda não tinha tido a oportunidade de trabalhar em um meio impresso, fazendo checagem de informações, consulta de fontes, busca de informações diferenciadas. Com a velocidade da internet, quase não há esse tipo de coisa. O jornalismo digital é o futuro, não há como negar. O jornalista hoje deve sair da faculdade não sabendo apenas ler, escrever, pautar e entrevistar, mas também sabendo ajudar a desenvolver um infográfico e integrar sua matéria em diferentes tipos de plataformas. Para ilustrar isso, costumo usar a teoria evolutiva de Darwin, de seleção natural do melhor adaptado: ou seja, nós jornalistas temos de nos adaptar às plataformas e ao novo jornalismo. Não devemos esquecer, porém, dos bons e velhos conceitos de apuração e checagem, que são primordiais para o desenvolvimento da profissão.

Você fundou o blog De Repente. A cada dia cresce mais o número de blogs criados e de seus leitores. Acredita no potencial jornalístico de blogueiros?

Boa pergunta. É um assunto um pouco complicado, pois já houve várias discussões sobre chamar blogueiros de jornalistas ou não. É uma grande bobeira esse questionamento.  A internet foi criada para conectar seres humanos e para permitir que as pessoas produzam conteúdo. O blog é uma das formas de isso acontecer. Sobre o potencial jornalístico dos blogs, acho que temos que tomar um certo cuidado, porque durante os quatro anos universitários há todo um processo de aprendizado pelo qual os blogueiros não passam. Acho que o blog não substitui o jornalismo. E mais: hoje em dia há muitos blogueiros ganhando dinheiro em cima disso. O cara fica sentado na frente de um computador, procurando informações por todos os cantos, copiando-as e colando-as em seu blog. Cada um que coletar esses dados pode repassar para outras pessoas. Então, é como se estivéssemos jogando pedras na água: não sabemos até onde a onda vai chegar e por onde ela vai percorrer. Isso torna o processo muito mais interessante do que parece ser.

O que você tem a dizer sobre o futuro do jornalismo impresso? Até quando haverá espaço para jornais e revistas, tendo em vista a expansão de suas versões online?

É complicado falar sobre o futuro. O jornalismo já está sofrendo um processo de reformulação, no sentido de cobrar pelas versões online de revistas e jornais. Essa questão é extremamente interessante, porque nós fazemos parte de uma geração que já está acostumada a consumir conteúdo sem pagar por ele. Mas acontece que para você ter uma informação diferenciada, bacana, bem feita, com imagens e vídeos, você precisa de uma estrutura e, para pagá-la, você precisa de dinheiro. Ainda assim, esse assunto é um pouco polêmico e acho que o jornalismo vai precisar sofrer várias mudanças. Sobre o meio impresso, o papel ainda deve sobreviver por ter se tornado um meio mais alternativo. Basta pensar em publicações diferenciadas, como a Piauí, que é uma das melhores revistas feitas hoje no país. É cara, extensa e de leitura cansativa, mas, mesmo assim, ela tem muitos leitores, é composta por excelentes jornalistas e se destaca hoje no meio impresso. É muito difícil prever a morte de um setor do jornalismo. Mais uma vez cito o darwinismo: o jornalista vai ter que se adaptar às novas plataformas.

Você trabalha em uma revista de alta repercussão social. Sente alguma responsabilidade na formação crítica da sociedade?

Basta ser jornalista para sentir essa responsabilidade. Além de passar informação adiante, nós acabamos passando opinião e devemos tomar muito cuidado com isso. Obviamente, quando se tem a acessibilidade de um veículo como a VEJA, isso é potencializado. Quando eu fiz a capa da revista sobre o Twitter, no ano passado, a repercussão gerada superou a de qualquer matéria que eu já tinha escrito para o site. Outra coisa impressionante é o potencial de modificação e construção da História que o jornalista tem. A VEJA recentemente derrubou a ex-ministra Erenice Guerra, mudou o Campeonato Brasileiro de 2005 inteiro, protagonizou a queda do Collor. Coisas desse tipo mostram o poder que ela tem sobre a opinião pública. A primeira característica que o jornalista deve ter ao sair da faculdade não é saber ler e escrever bem e sim ser desconfiado. Desconfie de tudo e de todos o tempo todo, porque há sempre um interesse por trás do jornalismo.

Até hoje, qual foi o momento mais inesquecível da sua carreira?

Não sei! É difícil saber, porque eu sou muito novo ainda e tenho muito a viver. Acho que os momentos de cobertura são muito legais. A ESPN patrocina o X-Games, um campeonato de esportes radicais. Na época que eu estava no iG, eles não queriam cobrir esse evento e eu fui lá de gaiato. Só o fato de você estar muito próximo do que está acontecendo já torna o momento muito interessante. Outra situação inesquecível para qualquer jornalista é o furo da notícia, ou seja, quando você é o primeiro a fornecer uma informação. Quando o Palmeiras anunciou a contratação do Muricy Ramalho, fui o primeiro a publicar e aí todo mundo começou a copiar e colar. Deu uma boa repercussão. Na entrevista que fiz com o lateral Roberto Carlos, ele me falou que dois jornalistas o motivaram a sair da seleção: Galvão Bueno e Renato Maurício Prado. Essa frase de uma linha fez uma tremenda repercussão! Essas coisas são legais no sentido de provocar alarde. Não que eu queira isso, mas é interessante que um conteúdo produzido por você provoque questionamento. Mas nada disso é inesquecível (risos).

Você é um jornalista jovem e bem sucedido. Quais são os altos e baixos da profissão e que dicas você pode dar para quem está começando?

O grande baixo da profissão é a vida social. A minha caiu muito ultimamente, principalmente por conta da responsabilidade que assumi. Bem ou mal, seus colegas de trabalho acabam se tornando seu nicho de relações pessoais. Pode ter certeza que grande parte dos jornalistas não terá vida fácil, vai trabalhar mais de oito horas por dia, vai ter que desmarcar planos com os amigos. Vão surgir imprevistos, porque jornalismo não tem hora: acontece a cada segundo e o jornalista vai ter que estar por perto para cobrir os acontecimentos. Por outro lado, o grande ponto alto é você ter a oportunidade de fazer parte da História: poder ajudar a construir e melhorar o mundo, questionar seu governante, provocar mudanças na cabeça das pessoas. Acho que a grande dica para os iniciantes é: acompanhe a evolução da tecnologia, principalmente no que diz respeito à utilização de novas plataformas. Isso sempre foi importante na história da comunicação. Em 1989, na época do Massacre da Paz Celestial, falava-se muito no fax – que ele iria revolucionar, mudar o mundo – porque era a novidade da época. Em 2004, eram os blogs – foi dito que eles haviam movimentado o planeta durante o questionamento da sociedade em relação à posição política do Irã. Agora, desde 2010, são o Twitter e o Facebook os ditos revolucionários, os responsáveis pela queda de governos ditatoriais. Grande balela. Essas são apenas ferramentas. Quem movimenta e revoluciona são as pessoas. Mudam-se as plataformas, mas não muda o conceito de querer renovar, adaptar ou transformar alguma coisa. Se hoje o Twitter está em evidência, daqui cinco anos pode ser outra plataforma e isso se dá pela evolução dos meios de comunicação. Acho que o jornalista que acompanhar isso de perto vai ser muito beneficiado. A grande dica, então, é essa: não pare no tempo. Saber ler, escrever, apurar e entrevistar é só o primeiro passo.

Você já se sente realizado profissionalmente?

Não. Acho que ninguém deve se sentir realizado, porque assim perde sua meta. A minha é aprender mais. Quando você está numa escola de jornalismo ou em uma grande publicação como a VEJA, você aprende cada vez mais. Acho que para o jornalista se sentir realizado, ele deve sempre ter uma meta. Eu gosto muito de tecnologia e esportes, pretendo um dia voltar a trabalhar com isso. Acho extremamente prazeroso cobrir uma Copa do Mundo, uma Olimpíada, fazer uma reportagem que modifique um sistema. Pode soar mal, mas acho que temos que ser ambiciosos, no sentido de nunca estarmos satisfeitos e querermos sempre mais. Ter um certo critério de competitividade é também muito bom, ajuda você a almejar novas coisas, e a não querer parar.

Sua rotina como jornalista permite que você tenha algum hobby? O que gosta de fazer no seu tempo livre?

Hum... hobby? Leio muito, mas isso já se tornou uma coisa obrigatória.

E o futebol?

Ah, o futebol não largo de jeito nenhum, todo final de semana tenho jogo. Também sou viciado em música eletrônica. A redação da VEJA é muito silenciosa, então tive que adotar um mecanismo para que eu tenha barulho e assim produza de forma mais eficiente. Foi assim que adquiri o péssimo hábito de ficar com fone de ouvido o dia inteiro, ouvindo música eletrônica. Outra coisa que me dá muito prazer é viajar. Ultimamente, graças a Deus, tenho conseguido tempo para fazer isso. Acho que todo jornalista deve tentar viajar quando possível, para conhecer novas culturas, novas pessoas, saber lidar com situações diferentes. Ao mesmo tempo em que você descansa, também aprende novas coisas que podem ser trazidas para cá.



Comentários Comentários Postados
Audrey Scheiner[21/03/2011 - 15:57]

Adorei a entrevista, e isso me motivou mais a querer ser jornalista, e cursar na Facasper. Ler experiências de vida de outros jornalistas é muito motivante!

Mariana Dib[16/04/2011 - 21:11]

Nessa fase de escolha é muito bom achar uma entrevista como essa, em que se pode ter uma noção do lado bom e ruim, e a experiência de quem está no ramo. Adorei!

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