Jornalista e professor, autor de vários livros, o convidado da aula magna do dia 16 de março denuncia o monopólio conservador sobre os meios de comunicação e analisa o impacto da internet sobre o jornalismo no Brasil e no mundo
Bernardo Kucinski é jornalista e cientista político brasileiro, autor de diversos livros sobre comunicação. Trabalhou como assessor da Presidência da República durante o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Graduou-se em Física na Universidade de São Paulo (USP) e mais tarde, após sua militância na resistência ao regime militar, obteve o doutorado em Ciências da Comunicação pela USP. Lecionou no curso de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA), onde se tornou professor titular.
Sua tese de doutorado discorre sobre a atuação da imprensa alternativa durante os anos de resistência à ditadura – trabalho publicado no livro Jornalistas e Revolucionários, até hoje a principal obra de referência sobre o assunto. Ele desenvolveu essa pesquisa a partir de sua própria experiência como integrante de destaque nas equipes que publicaram os jornais alternativos Amanhã, Opinião, Bondinho, Movimento e Em Tempo. Trabalhou também nas revistas Veja e Exame, da Editora Abril, no Serviço Brasileiro da BBC em Londres e TV/BBC. Foi correspondente em Londres da Gazeta Mercantil e correspondente no Brasil do The Guardian, de Londres. Seu livro Jornalismo Econômico ganhou o Prêmio Jabuti de 1997 e, em versão mais recente, é adotado em cursos de jornalismo no país inteiro como a principal obra de referência nesse campo.
Bernardo Kucinski é o convidado para a Aula Magna do dia 16 de março na Cásper Líbero, com o tema “A velha e a nova mídia: encontros e desencontros”. A palestra, que ocorrerá no Auditório do 3º andar às 8h e às 19h, trará assuntos centrais discutidos nos livros de Kucinski, especialmente em dois dos mais recentes em sua extensa obra: Jornalismo na Era virtual: ensaios sobre o colapso da razão ética e Diálogos da Perplexidade – Reflexões críticas sobre a mídia (esse último em parceria com Venício A. de Lima).
A aula magna sobre “a velha e a nova mídia” abordará as mudanças na mídia em contextos históricos diferentes. Na visão que Kucinski desenvolve em seus livros, a mídia brasileira contemporânea se encontra, na sua quase totalidade, sob o controle de grupos empresariais de tendência política conservadora. Os meios de comunicação funcionam com base em estruturas internas fortemente hierárquicas, em que o jornalista não detém o controle de sua criação, submetido à ideologia predominante da empresa na qual trabalha.
Nas suas obras mais recentes, Kucinski explora os dilemas dos atuais meios de comunicação perante os avanços tecnológicos da contemporaneidade. Tal discussão engloba não só a informação que é transmitida pela televisão (a maior fonte de notícias da sociedade brasileira), mas também o conteúdo dos jornais impressos, revistas e rádio. O destino do jornalismo frente ao avanço das mídias eletrônicas se mostra incerto, ao menos em um primeiro momento. Afinal, como afirma Kucinski, os jornalistas clássicos ainda são necessários. Por outro lado, não sabemos responder veementemente se a informação na internet é um novo formato alternativo à decadência dos meios tradicionais ou é uma ferramenta desprovida de profundidade.
Outra ramificação deste tema é a liberdade de imprensa, que muitas vezes é confundida com liberdade de expressão. Na visão de Kucinski, muitos grupos jornalísticos defendem a ideologia da empresa privada mascarada como liberdade de expressão. Assim, a verdadeira liberdade do indivíduo fica ofuscada pelos interesses dominantes do oligopólio midiático. A internet – acredita o professor – inova nessa pauta como um lugar mais democrático, mais acessível e mais livre: o jornalista tem o seu espaço e, acima de tudo, o domínio dele, como acontece com os blogs; já o leitor tem uma voz e ela é ouvida.
Kucinski se mostra convencido de que os veículos comunicadores tradicionais saem perdendo essa disputa, na medida em que ocorre uma migração de publicidade para a internet. Os anunciantes preferem divulgar seus produtos onde eles serão mais acessados com maior interatividade. O lado negativo dessa história para os navegadores da internet é a perda de controle da imagem. O próprio autor aponta o paradoxo: ao mesmo tempo em que o escritor tem o domínio da sua criação, ele perde o domínio da própria imagem. O jornalismo na era digital é uma temática nova e que está embutida na discussão sobre a velha e a nova mídia.
Uma exposição mais aprofundada dessas idéias pode ser lida em A síndrome da antena parabólica: ética no jornalismo brasileiro, livro em que Kucinski expõe, logo na abertura, como define a mídia brasileira: oligárquica, concentrada nas mãos de poucas famílias; hegemônica, delimitadora de seu poderio; tocada pelo favoritismo de certos membros, o que produz uma cultura jornalística autoritária e acrítica; e controladora, ao administrar o conteúdo do trabalho do jornalista.
Kucinski também é colaborador do site de esquerda www.cartamaior.com.br e da Revista do Brasil e, recentemente, tem se dedicado à literatura ficcional.