Estreia "Restrepo", documentário indicado ao Oscar que narra o dia-a-dia dos soldados estadunidenses no Afeganistão
Em um documentário sobre a guerra do Afeganistão, é comum esperar análises de questões econômicas, geopolíticas e religiosas. Restrepo, por sua vez, nos mostra muito do que já vimos: o filme atém-se a uma microvisão do que é o conflito naquele país, delineando especificamente o que está ao redor dos soldados que lutam no conflito.
Os diretores Sebastian Junger e Tim Hetherington passaram 15 meses em missão junto ao Segundo Pelotão Norteamericano, instalado na região mais mortal do mundo - o Vale Korangal. Apesar de se assemelhar muito a Guerra ao Terror, ambientado no Iraque, Restrepo transcende as emoções e desperta os sentidos de uma forma muito mais visceral do que o premiado longa de Kathryn Bigelow.
Ao longo do filme, os jovens protagonistas arriscam suas vidas e, assim como o conflito de 10 anos no qual estão inseridos, vivenciam suas missões no campo de batalha como que se estivessem em um redemoinho sem motivo ou fim. O único fator ideológico pelo qual esses soldados lutam é proteger e honrar os Estados Unidos da América. Dessa mesma forma, o documentário é construído a partir de uma sequência de cenas, que parecem contar uma história sem motivações ou final.
Porém, não é com olhos de quem procura uma guerra que se deve assistir a esse longa, mas com os de quem tenta enxergar através dos que estão diretamente envolvidos com o conflito – sem necessariamente tomá-los como vítimas. As escolhas que culminaram na obra final demonstram que Junger e Hetherington tentaram ao máximo buscar a imparcialidade. Isso porque, ao mesmo tempo em que os protagonistas são jovens soldados travando uma guerra sem sentido contra os Talebãs escondidos nas montanhas, eles também são seres que não medem esforços matando até mesmo civis para atingir seus objetivos.
O nome Restrepo é atribuído a duas coisas: tanto ao bunker construído para proteger os combatentes quanto ao soldado Juan Restrepo, o primeiro de alguns dos homens do Pelotão a morrer em campo, inspirando, assim, o nome do abrigo. Inclusive, a sequência da filmagem no Vale Korengal e a guerra contra os Talebãs é constantemente interrompida por depoimentos de soldados que sobreviveram, mas ainda possuem as sensações da guerra tatuadas em seus peitos - em especial, as que dizem respeito à morte dos colegas.
Alguns dos depoentes também mostram preocupações futuras, imaginando que se a última leva de veteranos de guerra são os do Vietnã - e nem esses estão completamente reabilitados, - não se sabe o que será feito do destino desses novos soldados que retornam a seu país de origem.
Um dos pontos mais interessante do filme são as cenas do dia-a-dia desses homens, muitas vezes conciliando o ambiente violento com piadas e conversas descontraídas. Ao preparar a arma para atacar os Talebãs, um dos combatentes conversa com outro no Walk Talk sobre os familiares deixados nos Estados Unidos. Depois de um tiroteio sanguinário, eles começam a cantar e pular a fim de descontrair ouvindo música, algo que não faziam há meses.
Mais do que causar comoção, essas situações demonstram como esses homens acabaram se habituando a viver dentro de uma rotina de guerra. Levando em consideração as condições às quais esses combatentes estão submetidos, o documentário consegue fazer com que, sem juízo de valor, os espectadores mergulhem e sintam intensamente tudo aquilo que esses soldados vivenciaram e o que muitos outros ainda experienciam todos os dias.
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