Exposição no Instituto Tomie Ohtake comemora os 20 anos de carreira do artista plástico
Engana-se quem pensa que ser segurança de museu figura no rol das ocupações mais entediantes do cosmo. Marcelo Mariano, há dois anos e seis meses na profissão, garante que, a não ser pela frigorífica temperatura do ar condicionado, zelar pelas exposições do Instituto Tomie Ohtake é prazeroso, sim.
Poucos são os que puderam caminhar por uma mostra tendo como guia o próprio expositor. Foi o que aconteceu com Mariano em Relicário, a qual pôde conhecer acompanhado por Vik Muniz. As obras do badalado artista plástico podem ser vistas pelo público desde o dia 2 de março – à exceção de Mariano, que as vê desde a montagem do evento.
A última grande exposição do artista na cidade - em 2009, no Masp -, era basicamente constituída de reproduções de seus gigantes trabalhos que, por terem sido feitos com materiais perecíveis ou intransportáveis, só puderam ser exibidos em fotografias.
Já Relicário se constitui como um verdadeiro altar ao que há de mais interessante na obra de Muniz - até mesmo devido à proposta da instalação, que comemora seus 20 anos de carreira. Trinta trabalhos feitos nas décadas de 1980 e 1990 estão dispostos ao lado de produções recentes, sem que haja necessariamente uma sequência cronológica entre eles.
O tempo, a propósito, parece se configurar como um importante elemento da exposição, ganhando inclusive uma representação física na escultura A Ampulheta, na qual, ao contrário da concepção usual desse tipo de relógio, o tempo está estagnado. Em vez de grãos de terra, tijolos tentam passar do presente ao futuro através do estreito vidro do presente. Uma alegoria da realidade contemporânea, a qual tenta aglutinar a complexidade de seus processos em períodos diminutos.
A obra Espelho Vazando leva a uma reflexão sobre o indivíduo, cujo sentido se esvai pelo ralo da pós-modernidade. Esta última tem como uma de suas características o ecletismo, que pode ser percebido nos diversos materiais utilizados pelo artista. Nas mãos dele, tudo vira arte. Como, por exemplo, no documentário Lixo Extraordinário, em que os dejetos de um aterro sanitário são a matéria-prima de suas criações.
Até mesmo os potes plásticos que armazenam alimentos na geladeira ganharam viés estético em Sarcófago Tupperware. Sobre esse trabalho, Muniz teria revelado a Mariano, em tom de brincadeira, que a múmia dentro do recipiente era de “alguém que tinha falado mal do trabalho dele”.
O segurança também conseguiu uma informação privilegiada sobre Fóssil - a escultura teria sido inspirada no motociclo que pertencera ao artista durante a infância. Mariano prosseguiu a explicação, lembrando um importante esclarecimento de Muniz: “as pessoas podem entender a arte do jeito que elas quiserem”. Isto posto, fica a impressão de que Fóssil é um lembrete da efemeridade da vida - todas as construções humanas se tornarão apenas pistas de nossa existência no futuro. Outra vez, a questão do tempo.
Se arte é signo, por que não o utilizar como matéria-prima? Em Entomologia Gráfica, imagens fixadas com pregos num quadro substituem as borboletas naqueles famosos catálogos de colecionador.
Mariano define Muniz como uma pessoa bem-humorada, característica percebida na exposição. As obras de Relicário são carregadas de ironia, comprovando que o risível e as associações improváveis são formas dignas de se levar à genialidade estética.
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