Deputada federal discorre sobre como a militância deve insistir na luta pela liberdade da rede
Diante do pessimismo do professor Marcos Dantas, Manuela D’Ávila reagiu assim que lhe foi passada a palavra: “É possível lutar pela rede, politicamente, nas condições dadas pelo nosso país.” A deputada sugeriu que a questão da liberdade, levantada por Amadeu, fosse entendida dentro da conjuntura política atual, levando-se em conta os desafios econômicos e econômicos, sendo que justamente estes, historicamente, passaram pela comunicação. “Se existe um movimento, cabe a nós fazer com que o barco ande para o lado do rio que queremos. Temos que relativizar o momento em que vivemos na história”, disse.
Para Manuela, é possível que a internet faça a revolução, da mesma forma com que ela fez com que o povo da Tunísia e do Egito fosse à rua, porém os protestos não devem se organizar apenas virtualmente. “Quando só acontece na rede, até esclarece ou funciona como o Ficha Limpa, mas é apenas uma lei, não muda o mundo”, argumentou. A deputada indica que o Twitter não foi a principal ferramenta de derrubada dos ditadores, apesar de considerar a rede social como uma forma mais rápida de se comunicar na internet. A abrangência da comunicação, para Manuela, acaba provocando um efeito-colateral desagradável: “À medida que crescer a democratização da informação, também crescerão instrumentos repressores de todos os tipos.”
Assim como a classe C e D brasileira começa a ter mais acesso à internet, figura-se que os usuários pertencentes a essa classificação acabam apensa reproduzindo, em parte, o que a grande mídia já estabelece. Por outro lado, a deputada enxerga outro crescimento, em qualidade, como no caso do Wikileaks. “É internet, é livre e não está no campo da técnica, mas da política, das relações entre nações de um mundo em que as principais tensões se dão entre países”, descreveu. Manuela acredita que a liberdade de informação na rede, com qualidade, faz com que a política seja alterada. “Se crescer a qualidade e número de usuários com o Plano Nacional de Banda Larga, crescerão também os instrumentos de vigilância.”
Para justificar o panóptico, Manuela aponta a segurança como principal argumento dos repressores da internet. “As principais pautas das eleições municipais, estaduais e nacionais é o medo. Nada melhor do que estabelecer a vigilância neste clima”, disse. A deputada contou que, no Congresso, o principal medo é o da pedofilia. “Na rede, um adulto não abusa uma criança, nem nenhuma mulher é violentada virtualmente. Esses são casos domésticos, em ambiente familiar. Raras são as crianças violentadas por desconhecidos. Mesma coisa com as mulheres, que também são agredidas por familiares e pessoas próximas.
Prolongando o discurso de Amadeu, de que na internet todos podem ser identificados, Manuela disse que “não tem como entrar na rede sem deixar pegadas”. Para ela, existem mais argumentos para vigiar o mundo real do que o virtual. “No virtual, somos anônimos, mas não invisíveis. As mesmas instituições que falham em pegar gente que passa foto de pedofilia na internet são as mesmas que não pegam aqueles que espancam as mulheres”, insistiu a deputada. De qualquer forma, Manuela enxerga que a persistência do discurso prol segurança não parte só do imperialismo apontado por Dantas, mas também de “pessoas de boa fé”.
Quanto às decisões políticas, Manuela não vê na eleição de Dilma Rousseff um prolongamento do governo Lula. A deputada acredita ser preciso continuar na luta pela soberania brasileira, seguir uma política que não permita o país de ser rebaixado por atitudes como as norte-americanas. “O papel da internet é tão grande quanto frágil, porque está nas mãos de uma única nação que tem política da paz, mas que acredita que as armas, a intolerância e a guerra mediam conflitos internacionais. É um país que não está submetido a ONU, porque não a respeitou quando invadiu o Iraque, e que não respeita nenhuma convenção internacional. Por que tenho que acreditar num país que invadiu outro, com uma opinião isolada, com bases em armas que não existem? Desculpem, acredito em fatos”, concluiu. Ao fim de seu discurso, a deputada convidou o Brasil a lutar pelo não firmamento da Lei Azeredo, pela militância que não deve servir para “levantar bandeiras e distribuir panfletos, mas agir e ir à luta”.
Comentários Postados
Envie o seu comentário
Caro leitor, esse espaço foi criado para que você opine e discuta a matéria que acabou de ler
Cada comentário comporta no máximo 600 caracteres.
Os comentários devem se ater ao texto publicado.
Mensagens ofensivas, provocativas ou que contenham palavras de baixo calão serã excluídas.