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21/02/2011 - 17h54 - Atualizado em 23/05/2012 - 00h36

A culpa é do estagiário

Luís Mauro de Sá Martino




A lei uma hora diz que deve, outra hora proíbe, depois regulamenta, mas o fato é que todo mundo é, foi ou será estagiário. Não dá para escapar – só se seu pai for o dono da empresa, quando então você já começa estagiando como diretor geral. Para os outros só há um caminho, enfrentar os processos seletivos, sorrir e acenar, recitar o que se deve falar em entrevistas e conseguir a vaga.

Não é de todo mal: o estágio é uma maneira da pessoa entrar na área, tomar contato com o cotidiano da profissão, complementar o que aprende na faculdade. Às vezes até tem algum salário.

Para alguns é um choque. Afinal, a pessoa entrou na faculdade, está no topo da cadeia alimentar, estuda, se prepara e, finalmente, quando consegue o estágio, descobre que às vezes não era o que estava esperando – anos atrás um anúncio colocado em muitas faculdades pedia “estudantes de comunicação” com “criatividade, empenho, proatividade e desembaraço” para “trabalho de caráter social”. Era o telemarketing de uma ONG.

A vida de estágios e trainees tem certas características que não mudam com o tempo. Entre suas funções, trabalhar duro, esquecer horários, receber um discreto elogio pelas grandes idéias, levar a culpa.

O estagiário é alguém que está sempre esperando. A situação é transitória, o que pode ser bom ou ruim conforme o caso e o estágio. A médio prazo só há três alternativas: (a) ser contratado (b) ser demitido (c) arrumar coisa melhor e se mandar. O que às vezes falta em experiência o estagiário compensa em entusiasmo. Trabalha com todo o empenho e, quando consegue uma chance, mantém a dedicação a qualquer custo.

Uma vez, ainda estudante, recebi um telefonema entusiasmado de um amigo, aluno de publicidade:

– Cara, lembra daquele estágio? Então, rolou! Sou assistente de redação, trabalho com o diretor da agência.

Foi seu último telefonema em cinco meses. Seus contatos se restringiram a emails, geralmente desmarcando pizzas e saídas com a turma. No começo ele ainda justificava: “Infelizmente não vou poder sair com vocês hoje, estou com um trabalho aqui e não posso ir”. Depois ficou mais objetivo: “Não vou poder ir. Desculpem”. No final, seus emails eram twitts: “ñ rola flw”. Perdeu a namorada para um estudante de Física da mesma universidade. Mas logo se vingou: começou a sair com uma colega da agência – afinal, os dois passavam quase o dia todo todo dia no mesmo lugar. Casaram, o primeiro filho ia nascer mas nem o pai nem a mãe puderam ir – tinham um trabalho urgente naquela semana. Hoje ele tem uma pousada em Piracicaba.

Mas nem tudo é assim. Ao contrário. Uma vez, quando ainda era estagiário, o diretor do lugar foi chamado para participar do lançamento de um livro de um cliente.

– Escuta, disse o diretor estendendo-me um papel, isso aqui é um convite para o jantar após o lançamento. Eu não posso ir, você vai no meu lugar.

Abriu a carteira e tirou duas notas de cem reais:

– Isto é para você comprar um vinho de presente para o autor. O resto é para o táxi, não pega bem você aparecer de ônibus. Você tem um terno bom? Respondi “sim” e me arrependi em seguida: eu poderia ter ganho um Armani. Mesmo com um terno mais simples, fui de táxi, levei um vinho importado (A tentação de levar um San Tomé e ficar com o resto do dinheiro foi grande. Maldita ética) e experimentei coisas fantásticas como champanhe da região de Champagne e caviar.

Resta a esperança de saber que até os grandes foram estagiários um dia. Quando era aprendiz de maestro, o compositor Gustav Mahler (1860-1911) tinha como tarefa, entre outras coisas, varrer o chão do teatro e levar os filhos do diretor para passear na cidade. Algo a lembrar quando alguma tarefa parecer particularmente sem sentido.



Comentários Comentários Postados
Rebeca[28/03/2011 - 12:16]

Muito bom, afinal, a culpa é SEMPRE do estágiario(a), haha.

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