Deposição de Hosni Mubarak custou 300 vidas e 18 dias de protesto no Cairo
Durante 30 anos, o Egito foi obrigado a viver sob um regime ditatorial liderado por Hosni Mubarak. No entanto, bastaram 18 dias para que o povo egípcio reconquistasse sua liberdade. Desde o início das manifestações, no dia 25 de janeiro, milhares de manifestantes foram à praça Tahrir, na capital Cairo, para exigir melhores condições sociais, econômicas e políticas para o país árabe. As reclamações incluíam, em primeiro lugar, a imediata renúncia de Mubarak.
Nos primeiros dias de protesto, o ditador não cedeu, chegando ao ponto de anunciar que ficaria no cargo até setembro deste ano – mês em que aconteceriam as eleições. Porém, os manifestantes não se satisfizeram, alegando que o governante pretendia empossar seu filho, Gamal Mubarak, em mais uma votação fraudada e prosseguir com a ditadura. Pressionado pelo povo egípcio e por grande parte da comunidade internacional, Hosni Mubarak foi obrigado a renunciar na última sexta-feira, 11 de fevereiro. Seu posto foi assumido pelo Conselho Militar Supremo do Egito, que promete realizar uma transição democrática em, no máximo, seis meses.
Segundo Ivoneti Ramadan, professora de Língua Portuguesa da Faculdade Cásper Líbero, que estava no Cairo quando as manifestações começaram, a esmagadora maioria da população parecia apoiar a queda do ditador. “O que se via ali não era a rebelião de um povo árabe, nem a rebeldia de um povo islâmico, mas um movimento sincronizado da sociedade civil”, conta.
Maria da Conceição Campos, professora de Língua Portuguesa da Faculdade, também estava no Egito quando a revolta estourou. Ela confirma a má qualidade de vida da população egípcia, porque, conversando com os cidadãos locais, Maria concluiu que “todos foram unânimes em afirmar que a situação estava insustentável”. Segundo eles, a miséria e a falta de recursos, eram visíveis pelas ruas do Cairo.
A “revolução egípcia”, organizada majoritariamente através das redes sociais, como Facebook e Twitter, não foi um fato isolado no mundo árabe. O movimento foi inspirado no levante que havia ocorrido semanas antes na Tunísia, onde o governante Zine El Abidine Ben Ali foi deposto depois de 23 anos no poder. No Cairo, os manifestantes caminhavam pacificamente, recorda Ivonete, afirmando que “eram jovens, em sua maioria protegidos e contidos por um cordão de isolamento composto por policiais, que estavam em prontidão por todo o Cairo”.
Sem aspirações violentas, o povo tinha um objetivo que seria alcançado até as últimas conseqüências. “No primeiro dia de protesto, deu para perceber que seria algo muito sério e que eles iriam até o fim em busca de suas aspirações, diga-se de passagem, muito justas”, comenta a professora Maria da Conceição.
Mesmo a manifestação sendo considerada pacífica, a ONU aponta o total de 300 mortes e milhares de feridos durante os 18 dias de protesto. A professora Ivonete diz não ter visto nenhuma cena de violência, a não ser o sofrimento cotidiano do povo egípcio. “É muito fácil sensibilizar-se com as condições precárias em que vivem. Mais de um terço da população sobrevive com pouco mais de 40 dólares por mês. Um médico, um profissional liberal ganha em torno de mil dólares”, exemplifica.
Em memória aos acontecimentos, foi criado o site Egypt remembers, em que são elencados os nomes e fotos das pessoas mortas durante o conflito.
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