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16/02/2011 - 17h22 - Atualizado em 23/05/2012 - 03h50

Coisas velhas e novas

Carlos Costa


Operação Massacre, de Rodolfo Walsh, e Esqueleto na
Lagoa Verde
, de Antonio Callado

A coleção Jornalismo Literário, da Companhia das Letras, faz lembrar a frase bíblica: “Todo escriba versado no reino dos céus é semelhante ao pai de família que tira de seu depósito coisas novas e velhas” (Mt. 13, 52). Dois lançamentos recentes desse baú de tesouros merecem a leitura pelos jovens jornalistas. Um é o livro reportagem Esqueleto na Lagoa Verde – ensaio sobre a vida e o sumiço do Coronel Fawcett, publicado em 1953 pelo repórter do Correio da Manhã, Antonio Callado. O outro é Operação Massacre, lançado na Argentina em 1957 pelo ex-revisor e escritor de romances policiais Rodolfo Walsh – e que se tornou um clássico no país vizinho.

Relançado agora, 57 anos após a publicação, o livro de Callado é uma aula de jornalismo. O coronel Percy Harrison Fawcett foi um dos últimos representantes da linhagem de exploradores ingleses que desbravaram o interior da África e Ásia, descobrindo cachoeiras, templos perdidos em meio a ruínas, mapeando regiões até então desconhecidas. Fawcett estivera diversas vezes na Amazônia e, como mostra Callado, queria ligar seu nome a uma descoberta fantástica: nada menos que a mítica Eldorado. Na expedição que realizou em 1925, acompanhado do filho James e do amigo deste, Raleigh Rimmel, todos desapareceram. Provavelmente assassinados pelos índios que se recusaram a seguir o ritmo imposto pelo autoritário inglês. Foram muitas as buscas pelo coronel. A priRelançado agora, 57 anos após a publicação, o livro de Callado é uma aula de jornalismo. O coronel Percy Harrison Fawcett foi um dos últimos representantes da linhagem de exploradores ingleses que desbravaram o interior da África e Ásia, descobrindo cachoeiras, templos perdidos em meio a ruínas, mapeando regiões até então desconhecidas. Fawcett estivera diversas vezes na Amazônia e, como mostra Callado, queria ligar seu nome a uma descoberta fantástica: nada menos que a mítica Eldorado. Na expedição que realizou em 1925, acompanhado do filho James e do amigo deste, Raleigh Rimmel, todos desapareceram. Provavelmente assassinados pelos índios que se recusaram a seguir o ritmo imposto pelo autoritário inglês. Foram muitas as buscas pelo coronel. A primeira, organizada em 1928 por George M. Dyott, resultou num livro, fonte das muitas pesquisas realizadas por Callado. Mas o assunto voltou à tona quando o sertanista Orlando Villas Bôas ouviu dos índios calapalos relatos confirmando o assassinato e dando pistas da localização das ossadas. Farejando uma grande reportagem para seus Diários Associados, Assis Chateaubriand organizou nova expedição que acompanharia o filho caçula de Fawcett, Brian, vindo da Inglaterra para acompanhar o desenrolar da história. Chatô destacou uma equipe da revista O Cruzeiro para a cobertura e, numa de suas boutades, convidou Callado, que trabalhava no Correio da Manhã. A empreitada deu em nada: a análise dos ossos apontava para um homem bem mais baixo que Fawcett; mesmo assim, Callado publicou um dos melhores livros-reportagens brasileiros, antecipando o que viria a ser celebrado depois como o “jornalismo literário”.

Lançado quatro anos após a obra-prima de Callado, Operação Massacre tem apenas agora tradução para o Brasil. Como analisa Ruy Castro na nota biográfica que encerra a edição, “Quando mergulhou nos fuzilamentos da Operação Massacre em 1956 – que provavelmente viu a princípio apenas como um bom material para uma história – Walsh não sabia que estava dando uma guinada radical em sua vida.” Revisor da Editora Hachette e iniciante na ficção policial (gênero muito cultivado na Argentina de então), Walsh foi fisgado pela curiosidade ao saber da sobrevivência de um dos 12 operários sequestrados e fuzilados em uma execução sumária pelos militares antiperonistas. Começa a puxar o fio dessa história e descobre que não é apenas um operário que se fingiu de morto e sobreviveu, mas dois, depois um terceiro... são sete, todos escondidos da polícia. A partir de suas descobertas, escreveu dezenas de relatos sobre a chacina, publicados em folhetos rapidamente esgotados. Acabou entrando para a militância e a clandestinidade, e finalmente costura essa história misturando a investigação jornalística com o suspense da literatura policial. “Foi preciso que em 1966 Truman Capote anunciasse a invenção do “romance de não ficção”, com A sangue frio, para que os argentinos soubessem que Walsh antecipara Capote em quase dez anos – uma façanha literária nada pequena”, escreve Castro. Outra leitura para quem quer aprender a fazer jornalismo.



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