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16/02/2011 - 17h13 - Atualizado em 24/05/2013 - 04h12

Bons tempos para Samuel Beckett

Welington Andrade

Coleção Prosa do Mundo, da Cosac Naify, lança Dias felizes, texto teatral do autor irlandês agraciado com o Nobel de literatura em 1969

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Dias Felizes, de Samuel Beckett, lançado pela
Cosac Naify

Não só os profissionais de teatro, professores e estudiosos como também os leitores mais exigentes conhecem a dificuldade crônica para se encontrarem boas edições de textos dramatúrgicos no mercado editorial brasileiro, sobretudo aqueles acompanhados de vigorosas reflexões teóricas e alentado material de apoio.

Esse seria um motivo mais do que suficiente para saudar o lançamento de Dias felizes, uma das obras-primas da dramaturgia de Samuel Beckett (1906-1989), que o professor e ensaísta Fabio de Souza Andrade acaba de traduzir para a coleção Prosa do Mundo, da editora Cosac Naif.

Muito bem amparada na intimidade com a obra de Beckett que os anos de estudo sobre o escritor e dramaturgo irlandês conferiram ao tradutor (hoje, certamente, uma das maiores autoridades brasileiras na literatura beckettiana), a presente edição de Dias felizes conduz o leitor por uma tradução em português realizada em plena consonância com as especificidades do texto original, constituindo ainda, por conta de um prefácio e de um apêndice caudalosos, um guia adequado para quem quiser se familiarizar com uma das prosas mais perturbadoras do século XX.

A obra de Beckett é marcada pelo intenso anseio de silêncio e aniquilação. Para ele o mundo carece de sentido e toda expressão e fútil, não cabendo ao escritor, ironicamente, outro papel que não seja o de expressar essas ideias. Dividindo-se entre escrever em inglês e em francês – como garantia de que sua obra permanecesse em luta constante com o próprio espírito da língua –, o autor esvaziou o mundo da narrativa tradicional de seus elementos básicos, optando por criar histórias despojadas de enredo e brilho.

Os principais temas dessas narrativas são os problemas da existência e da identidade do eu, o hábito e a rotina tomados como elementos corrosivos da era moderna, a natureza absolutamente ilusória dos contatos sociais e a trágica dificuldade do homem de tomar consciência de si mesmo frente ao impiedoso processo de consumação do tempo.

No decênio que vai de 1951 a 1961, ele escreveu a trilogia narrativa que lhe outorgou a reputação de uma das maiores forças e influências literárias de seu tempo – Molloy (1951), Malone morre (1951) e O inominável (1953) – e o trio de peças que o consagrou como um dos grandes renovadores da dramaturgia do século XX: Esperando Godot (1952), Fim de partida (1957) e Dias felizes (1961).

Logo após o choque violento que as duplas de outsiders Estragon e Vladimir (Esperando Godot) e Hamm e Clov (Fim de partida) causaram ao portentoso edifício das formas assumidas pelo teatro ocidental desde suas origens gregas, Beckett iria detonar também os poucos escombros que haviam sobrado, concebendo Dias felizes, a história de uma vaidosa mulher de meia-idade – Winnie –, enterrada sob um sol a pino em uma colina seca (no primeiro ato, até a cintura; no segundo ato, até o pescoço), e de seu inerte marido, Willie.

Nos dois atos da peça, Winnie nada mais faz do que se apegar a ritos cotidianos, para, entre falas entrecortadas e vacilantes – nas quais se sobressai o bordão “Ah, aqueles dias felizes” (que Beckett tomou de um poema de Verlaine e de uma canção popular americana) – fazer passar o tempo, distraindo-se, assim, de sua tragicômica situação.

Em um prefácio de profunda penetração – A felicidade desidratada –, Fábio de Souza Andrade (professor de Teoria Literária na Universidade de São Paulo) examina os principais pontos da poética beckettiana, fazendo uso de uma investigação teórica rigorosa sem ser hermética; espessa, mas de boa compreensão. Essa apresentação de Dias felizes torna-se obrigatória para os estudos beckettianos em língua portuguesa e essencial para aqueles que pretendem se debruçar sobre a obra do autor.