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15/02/2011 - 17h11 - Atualizado em 23/05/2012 - 04h44

Para além do virtual

Luis Mauro de Sá Martino

Para Dominique Wolton, tecnologia não é o mais importante na comunicação

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Divulgação/Roberto Tietzmann
Para Wolton, comunicação é mais do que tecnologia ou
interação virtual; é a relação entre dois seres humanos, o
momento, o encontro

“Não perca seu tempo lendo Wolton”. Essa frase, ouvida de várias pessoas em momentos diferentes, não era propriamente um estímulo para mergulhar em um do livros do pesquisador francês Dominique Wolton.

Para mergulhar em um dos livros do pesquisador francês Dominique Wolton. Não faltavam títulos instigantes: “Elogio do grande público”, “Internet, e depois?”, “É preciso salvar a comunicação”. Nem credenciais: pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique, CNRS, na França, é um dos mais profílicos autores da Comunicação, com mais de uma dezena de livros publicados – no original francês, pelas prestigiadas Flammarion e Champs; no Brasil, Sulina, Paulus e Ática, entre outras.

Por que, então, o conselho vindo de alguns conhecidos, para não ler Wolton?

Talvez por causa de suas posições a respeito de certos temas controversos na área de Comunicação, seu elogio da comunicação de massa e ressalvas à internet.

Na tarde de 26 de outubro foi possível tirar algumas dessas dúvidas pessoalmente. Dominique Wolton esteve na Cásper Líbero fazendo a palestra na abertura do Seminário “Imagem e Informação”, realizado pelo grupo de pesquisa Comunicação e Cultura Visual, do Mestrado da faculdade. Durante mais de duas horas, falou sobre suas propostas para a comunicação, respondeu perguntas e, após a palestra, ainda encontrou tempo para autografar seus livros e dar várias entrevistas.

Uma de suas posições mais controversas, por exemplo, talvez seja em relação à internet. Sua crítica não é destrutiva como a de Andrew Keen em O culto do Amador, mas tem um teor igualmente apimentado. Para ele, internet é uma boa ferramenta, mas não é a terra prometida que se espera e não pode ser considerada, como algumas pessoas fazem, uma espécie de deus do qual todos dependem. Comunicação é mais do que tecnologia ou interação virtual; é a relação entre dois seres humanos, o momento, o encontro.

Outro ponto defendido pelo autor é uma reavaliação da chamada “comunicação de massa”. Sem deixar de lado uma avaliação crítica, Wolton procura relativizar a ideia de que uma mídia poderosa teria efeitos potencialmente negativos em um público indefeso – uma noção que, mesmo tendo sido contestada por várias pesquisas desde a década de 1950, ainda encontra acolhida nas discussões sobre Comunicação.

“Se a comunicação de massa causou danos, se fala pouco, por outro lado, que muitos conformismos foram abalados. Culturalmente, a sociedade hoje é muito mais aberta”, afirma na página 70 de É preciso salvar a comunicação. Mesmo a cultura, acredita, tornou-se mais tolerante por conta das mídias de massa. Isso não precisa necessariamente ser visto como um elogio: Wolton não parece deixar de lado a dimensão empresarial da mídia, mas não vê apenas esse aspecto como um ponto sem saída.

Uma distinção importante em sua obra parece ser entre informação e comunicação. Ele sugere que informação seja a mensagem em si, parte mais próxima da tecnologia, enquanto a comunicação estaria ligada à relação humana, ao encontro com um “outro”. É nesse encontro que pode acontecer, de fato, a comunicação: “O desafio é menos compartilhar o que temos em comum do que aprender a administrar as diferenças que nos separam”, diz em Informar não é comunicar, na página 12.

Wolton parece trazer de volta o ser humano como aspecto central das relações de comunicação. O ato de comunicar, explica, não é simplesmente trocar informações com outra pessoa: mesmo diante das tecnologias mais hiperbólicas, é necessário olhar para a pessoa que está operando a coisa – atrás de cada @alguem no Twitter ou perfil no Facebook há uma possibilidade de relação, de encontro com o diferente. A comunicação seria a possibilidade e a realização desse encontro.

Mas essa separação não é radical: ao contrário, comunicação e informação estão ligadas o tempo todo. As tecnologias da informação aumentaram radicalmente as possibilidades de contato entre as pessoas, e isso coloca, de saída, a questão de entender esses outros indivíduos e culturas. A crítica à internet feita por Wolton não é dirigida à tecnologia, mas à atitude de fazer da tecnologia uma entidade em si, desligada das pessoas.

E, de certa forma, o jeito como Wolton entende a Comunicação também está ligado a uma concepção política. Para existir comunicação entre as pessoas é fundamental reconhecer o outro como sendo alguém digno dessa relação – entender a diferença sem torná-la melhor ou pior do que o semelhante. O processo, deixa claro, não é fácil, mas é o principal desafio para quem lida com a comunicação. Um convite, talvez, à leitura de Wolton.



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