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15/02/2011 - 16h13 - Atualizado em 23/05/2012 - 05h08

Palanque on-line

Aline Magalhães

Marketing político na web marca uma nova forma de fazer campanha. Limitação do acesso à internet e falta de interesse político são os maiores entraves para o sucesso das redes

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Divulgação
“Aqui, fala-se em candidato 2.0, mas é preciso saber se
o eleitor é 2.0”, analisa Dantas

Twitter, Facebook, Orkut. Em 2010, as principais redes sociais tornaram-se verdadeiros palanques políticos. Na corrida para chegar à Presidência da República, os candidatos apostaram suas fichas na web para fazer campanha e angariar votos, introduzindo de vez no país o conceito de militância política on-line. A princípio, o terreno soa promissor: de acordo com o levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicado em setembro último, o número de usuários de internet no Brasil saltou de 55,9 milhões em 2008 para 67 milhões em 2009, o que corresponde a um crescimento de 21,5% em um ano. Apenas em agosto, 36 milhões de brasileiros acessaram redes sociais, segundo a consultoria britânica comScore.

Em nenhum outro processo eleitoral o uso das redes foi tão ativo. Equipes de profissionais foram criadas somente para traçar uma estratégia de marketing na esfera digital e gerir o funcionamento das redes sociais. Ainda que de forma tímida, os assuntos discutidos na internet ganharam destaque na imprensa e junto a uma parcela dos eleitores. Os números de intenção de voto divulgados pelas tradicionais pesquisas deixaram de ser o único medidor de sucesso de um candidato. A busca pela notoriedade se dá agora também dentro da web: todos querem “emplacar um trending topic” (assunto mais comentado no Twitter), por exemplo. Dessa forma, cada um a sua maneira, os quatro principais candidatos à Presidência criaram perfis oficiais nas redes para divulgar suas campanhas e formaram em torno de si grandes comunidades de apoiadores, opositores ou simplesmente curiosos. Apesar de perder para o Orkut e Facebook em popularidade e número de usuários, o Twitter tornou-se a principal plataforma de comunicação dos presidenciáveis. Nele, o tucano José Serra lidera o número de seguidores, com 570 mil usuários, seguido pela candidata do PV, Marina Silva, com 357 mil, pela petista Dilma Rousseff, com 347 mil, e por Plínio de Arruda do Psol, com 68 mil.

Efeito de espalhamento

“A rede social é uma boa ferramenta para a campanha principalmente pelo potencial de sair da esfera e ir para o boca a boca”, define Daniela Ramos, professora de Novas Tecnologias da Comunicação no curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Ela destaca que tais plataformas possibilitam que o usuário compartilhe e troque opiniões com uma comunidade específica. “É a característica da web: de um para muitos; de muitos para outros muitos, num verdadeiro efeito multiplicador, de espalhamento.” Essa particularidade ainda é responsável por conseguir dar foco velozmente a um determinado tema – seja ele positivo ou não para o candidato – e ultrapassa a barreira de seguidores do próprio político, já que o assunto é divulgado para toda a comunidade. “As pessoas influenciam umas às outras. Talvez um email do tipo corrente, que passa de um conhecido para outro, surta mais efeito que mil estratégias planejadas”, analisa Soninha Francine, coordenadora da campanha digital de José Serra.

Plínio de Arruda defende ainda que essa característica da internet beneficia os partidos que não dispõem de muito tempo durante o horário eleitoral. “É uma forma de furar o bloqueio da grande mídia e fazer com que minha mensagem chegue cada vez mais às pessoas”, conta o candidato.

Diálogo direto

Petrus Lee
“Houve uma expectativa equi-
vocada daimprensa em relação
às campanhas na internet”,
afirma Caio Túlio


A grande inovação da campanha on-line é que as redes aproximaram políticos e eleitores, rompendo com a maneira tradicional de comunicação que prevê o relacionamento unilateral. “A internet traz a possibilidade da desintermediação no contato do político com os eleitores. É o candidato falando diretamente para a população”, diz Daniela Ramos.

Para ter sucesso na campanha, as equipes de comunicação dos candidatos têm de dar prioridade máxima ao acompanhamento do feedback dos usuários. “Temos a vantagem da resposta imediata, podemos identificar aquilo que funcionou ou não durante a campanha e corrigir rapidamente”, comenta Luciana Araújo, jornalista responsável pela comunicação na campanha de Plínio de Arruda. “A campanha on-line é interativa, de vocação para conversa, de vocação polifônica”, pondera Caio Túlio Costa, coordenador da campanha digital de Marina Silva e professor de Ética Jornalística na Faculdade Cásper Líbero.

Soninha salienta que há uma constante avaliação do retorno dos internautas do ponto de vista quantitativo – como saber quais são os assuntos mais pesquisados – e qualitativo – ouvindo as críticas, sugestões e acompanhando a adesão. No caso da estratégia tucana, segundo ela, o que acontece na internet influencia apenas a campanha digital. “A televisão se baseia em outras mensurações, até porque são públicos diferentes”, afirma. Ainda assim, a versão satirizada de um vídeo de Serra para a TV ganhou destaque na internet. Dentro de um dia, a propaganda original deixou de ser veiculada.

Em algumas oportunidades os eleitores puderam enviar suas próprias perguntas e sugestões para os candidatos. Os twittaços de Marina Silva ganharam força na rede. Na ocasião, a ex-ministra do Meio Ambiente esclareceu questões ligadas às suas propostas de governo. Foi durante um desses eventos, realizado em julho deste ano, que Marina alcançou a marca de 100 mil seguidores. Logo depois do resultado das votações no primeiro turno, a tag #ondaverde, que expressava apoio à candidata, circulava com força no serviço de microblog. Plínio de Arruda também fez barulho quando promoveu um twittaço por meio do Twitcam (ferramenta do Twitter que transmite vídeos em tempo real) para comentar o debate Folha/UOL, para o qual não havia sido convidado. Mais de dois mil usuários acompanharam diretamente o candidato do PSOL na empreitada que o colocou, durante a exibição do debate, em primeiro lugar nos trending topics brasileiros e em oitavo nos trending topics mundiais. Na semana do primeiro turno das eleições as twitcams tornaram-se marca registrada do candidato, que continuou a usar a ferramenta para difundir suas ideias na rede. Serra emplacou nos trending topics nacionais com a tag “#pergunteaoserra”. O candidato falou sobre suas propostas e respondeu até a curiosas perguntas como uma que questionava se era verdade que o político participou do desenho animado Os Simpsons.

Mais do mesmo

Thiago Tanji
“Se você não tem atitudeao usar as novas mídias,
você as usará como ummeio tradicional.O diferencial
é ter personalidade”, opina Daniela Ramos

Humberto Dantas, cientista político e coordenador de Educação Política da Oficina Municipal, acredita que o uso das redes sociais não é de grande ajuda na hora de escolher em quem votar. “Elas [redes sociais] são usadas por todos. Essa é a grande equação a resolver. É o mesmo que dizer chega na frente quem tem carro, mas todos têm carro”. Nesse sentido, Daniela Ramos pondera que um dos desafios é utilizar as plataformas digitais de forma inovadora. “Em alguns casos é só emissão de informação. Se você não tem atitude ao usar as novas mídias, você as usará como um meio tradicional. O diferencial é ter personalidade”, define. A professora atenta ainda para a imprescindível articulação entre a figura do candidato no mundo offline e na esfera on-line. “Tem de haver coerência. Se a imagem do político na rede não combinar com a imagem dele offline, não adianta. Não dá para ter uma imagem conservadora e séria na vida real e criar um Twitter engraçadinho, descolado. Também não adianta ter toda a parafernália tecnológica, ter possibilidade de interação, se o candidato não estiver realmente interessado em fazer isso e estar disposto a continuar nas redes. Aliás, se eles não se comunicarem mais no Twitter depois da campanha vai ficar feio. As pessoas vão cobrar isso depois”, opina.

Ilusão Obama

Apesar do amplo uso da internet ter ganhado força nessas eleições, a web não teve o peso esperado e muito menos foi significativo para o resultado das votações.

“Houve uma expectativa equivocada por parte da imprensa brasileira em relação às campanhas na internet, em parte pelo próprio desconhecimento da internet. Falou-se em semelhança com o fenômeno Obama, em termos de arrecadação e uso das redes. Sabemos que o acesso à rede no Brasil é muito restrito”, afirma Caio Túlio Costa. “Devemos pontuar que o fenômeno Obama partiu essencialmente do desejo de mudança. No Brasil não existe isso, as pessoas não querem mudar, estão satisfeitas, basta ver as taxas de reeleição”, ressalta Humberto Dantas. “Os Estados Unidos têm muita força na internet e tradição em doações. Aqui, fala-se em um candidato 2.0, mas é preciso saber se o eleitor é 2.0.”

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada pelo IBGE em 2008, 65% dos brasileiros não têm acesso à internet. São cerca de 104 milhões de pessoas vivendo na exclusão digital. Se considerarmos o número de pessoas que possuem perfis nas redes sociais, a peneira será ainda maior. O relatório da comScore divulgado em outubro deste ano aponta que o número de usuários do Twitter no país é de 8,6 milhões. A liderança fica com o Orkut, com 29 milhões de usuários, seguido pelo Facebook, com 9 milhões. “Existe uma articulação entre pessoas que têm maior poder de comunicação, mas a massa do eleitorado não faz parte desse processo nas redes”, analisa o cientista político e professor na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, José Paulo Martins Jr.

Nesse cenário, o tradicional horário de propaganda eleitoral exibido na televisão se firma como um dos mais expressivos e importantes meios para angariar votos. De acordo com uma pesquisa feita este ano pelo Datafolha, 65% dos eleitores preferem obter informações sobre seus candidatos por meio da TV. “As intenções de voto mudam quando começa o horário eleitoral, é quando atinge a massa”, comenta José Paulo. A internet, ainda segundo o estudo, aparece com 7% da preferência do eleitor, atrás dos jornais, com 12%, e equiparando-se ao rádio. Conversas com amigos e familiares aparecem em último, com 6%.

“O principal nessa história toda é que falta discussão política no Brasil. A tecnologia sem educação e informação não resulta em muita coisa”, diz José Paulo Martins Jr.

“Estamos começando a testar o que funciona e o que não. No Brasil, a internet não definirá eleição, mas acredito que daqui a uns 20 anos a internet terá um peso bem maior”, define Ramos.




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