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15/02/2011 - 16h49 - Atualizado em 23/05/2012 - 03h47

Barba, cabelo & bigode

Ana Lúcia Silva e Fernanda Patrocínio

As aventuras do casperiano Heródoto Barbeiro. Ele queria ser bombeiro, foi office boy, borracheiro, pintor, professor e entrou no jornalismo quase por acaso

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Divulgação
“História e Jornalismo estão diretamente
ligados às questões sociais”

São 9h40 de uma manhã de verão chuvoso no centro de São Paulo. O homem atrás da escrivaninha já está no meio de seu expediente na rádio CBN.

Acordou de madrugada, leu todos os jornais, deu uma olhada nos principais sites informativos e ficou no ar durante três horas e meia, apresentando e comentando os principais fatos da cidade e do país. A noite havia sido tensa, com uma sucessão de deslizamentos e desabamentos em diversos bairros, consequência dos temporais que assolaram a capital.

Heródoto Barbeiro não para. Reúne a equipe do programa Mundo corporativo, transmitido aos sábados, combina pautas, checa quem serão os convidados, passa os olhos na última edição do jornal francês Le Monde Diplomatique sobre sua mesa e cumprimenta as repórteres da revista Cásper. A TV está sintonizada na CNN. “Aqui é assim, eu leio e me organizo para entrar no ar.”

Heródoto apresenta o Jornal da CBN no horário de maior audiência, das 6h00 às 9h30, e o já citado Mundo corporativo. Também ancora o Jornal da Cultura, na TV Cultura, e contribui para a revista Imprensa. No Blog do Barbeiro – que promete “barba, cabelo e bigode” –, o jornalista escreve sobre política, conjuntura e temas que abordam o universo de seu programa radiofônico. Ou seja, quase tudo. “Tenho blog, site e programa pela internet. O principal é respeitar as regras do jornalismo, na medida em que o meio carrega a notícia, mas não se torna mais importante do que ela”, afirma . Ele sentencia que “para viver de jornalismo é preciso se dedicar a ele de oito a dez horas por dia: lendo, trabalhando, acompanhando e sempre olhando a sociedade.”

Heródoto formou-se em jornalismo na Cásper Líbero, após atuar por quase vinte anos como professor de História. Sua trajetória é formada por uma sucessão de acasos que o levou, quase aos quarenta anos, a fazer sua escolha profissional definitiva.

Polivalente

Vindo de uma família de classe média baixa, Heródoto enumera suas profissões: “Ajudava meu pai em sua oficina mecânica; já fui também auxiliar de borracheiro e de pintura, officeboy e professor por vinte anos”, enumera, observando que, na infância, queria ser bombeiro. Barbeiro bombeiro seria uma marca interessante, mas a escolha ficou para trás. O rapaz acabou entrando para o curso de História na Universidade de São Paulo, com o objetivo de se tornar professor. Nessa época, ele já dava aulas de inglês, além de cursar a disciplina optativa História do Japão. Um dia, o professor e monge Ricardo Mário Gonçalves o convidou para ensinar inglês para uma japonesa que, por sua vez, era professora de ikebana da esposa do cônsul da Inglaterra. Marcaram um encontro no templo da Soto Zen Shu, no bairro da Liberdade. Um problema apareceu. A mulher não falava português e ele não dominava o japonês. Não houve jeito. Heródoto foi saindo pela porta com o professor Gonçalves, quando avistou uma estátua grande e diferente.

– Quem é este cidadão?
– Como assim, Heródoto? Este é o Buda!
– Mas o Buda não é gordo? Esta estátua é de um magro.
– É, você tem muito a aprender sobre budismo... volte aqui no sábado, que tem meditação e podemos conversar.

O então estudante de História passou a freqüentar o templo e a compreender melhor a filosofia oriental. Agnóstico até aquele momento, Heródoto se converteu e mais tarde recebeu da comunidade budista Soto Zen Shu o título de monge leigo. Adotou ali o nome de um de seus patriarcas, Gento Ryotetsu.

Depois de se formar, Heródoto seguiu a carreira de professor e iniciou sua segunda faculdade, Direito. “Pensei em ser advogado criminalista, já que a formação em História iria me ajudar.” Mas o roteiro sofreu mudanças pelo caminho. Lecionou História Contemporânea durante 12 anos na Universidade de São Paulo e também no cursinho Objetivo até que, com quase 40 anos, ingressou no Jornalismo. “Nunca havia pensado em abraçar a profissão, que apareceu de maneira circunstancial em minha vida. Comecei fazendo aulas para a TV e não parei mais. Os telecursos foram a ponte entre a educação e o jornalismo”, observa.

Uma nova carreira

Logo estava cursando sua terceira faculdade, a Cásper Líbero na turma formada em 1978, época em que o diploma de jornalista era obrigatório. Tendo iniciado a nova Faculdade, Barbeiro foi contemporâneo de nomes como Maria Adelaide Amaral, Miriam Paglia Costa e jornalistas provenientes do Grupo Abril.

Barbeiro já era conhecido quando retornou à academia. Tinha sido professor de História no cursinho, se candidatara a vereador, era comentarista de um jornal radiofônico de sucesso na rádio Jovem Pan. “Aprendi muito com meus colegas de sala que já tinham experiência na profissão”, ressalta.

Carlos Costa, o atual coordenador do curso de Jornalismo da Faculdade, era um dos membros do Grupo Abril que estudou com Barbeiro. “Ele tem uma invejável capacidade de trabalho, de se aprofundar nos temas. É determinado e tem constância”, elogia Costa. O coordenador compara-o à “imagem de Fitzcarraldo, o personagem do filme de Werner Herzog: “Heródoto é capaz de colocar um navio montanha acima, para vencer a dificuldade apresentada.”

A bagagem profissional e os conhecimentos culturais de Heródoto faziam toda a diferença em seu desempenho como aluno, recorda Carlos Costa. “Numa das aulas de História da Cultura ele apresentou um seminário sobre as civilizações da água (o Egito e o rio Nilo). O professor, um coronel na Polícia Militar, ficou muito irritado: o aluno era muito melhor que ele”, recorda o coordenador. “Os alunos deram a ele a atenção que não dispensavam ao professor. Aliás, um abaixoassinado foi motivo de pedido de demissão do coronel.”

Apesar de ter se formado, Heródoto não defende a obrigatoriedade do diploma de jornalista. Contudo, ele acredita que na escola há técnicas a serem aprendidas pelos principiantes. “Boas escolas continuarão a formar bons jornalistas e apenas elas irão sobreviver”, afirma.

Paixões

Casado há 25 anos com a jornalista e ex-aluna Walkiria dos Santos, Heródoto mora em um apartamento no bairro paulistano Higienópolis. “Jornalista entende a rotina de jornalista”, brinca. Do primeiro casamento, ele tem dois filhos: Mauricio, 29 anos, dono de uma loja de roupas em Santos, e Guilherme, 28, que está tirando brevê de piloto de helicóptero . “Eu também piloto helicópteros e sou sócio do aeroclube. De vez em quando ainda faço isso”, revela.

Além de voar, sua outra paixão são as Kombis. Já teve sete modelos diferentes e ainda conserva uma, para ir ao seu sítio localizado no distrito de Taiaçupeba, município de Mogi das Cruzes, na região do Alto Tietê. “Vou praticamente todo final de semana. Lá crio oito cachorros”, conta. Heródoto comprou a propriedade de 25 alqueires há trinta anos. “Conservo um pedaço do que restou da Mata Atlântica e participo das atividades da comunidade local. Contribuo também para o conteúdo do Jornal de Taiaçupeba”, destaca.

A vice-diretora da Escola Estadual Benedito de Souza Lima, Rosa Maria Dozadoni, diz que o jornalista atua com bastante expressão na comunidade. “Ele está sempre pronto para colaborar. Em uma das seções do jornal ele teve a idéia de criar um espaço para ‘os notáveis’ – os cidadãos do distrito que mais se destacam”, conta. Juntamente com a entidade da comunidade, Sociedade Amigos de Taiaçupeba, e a ONG Gades, organização não governamental que zela pela preservação da Mata Atlântica local, o jornalista milita em pela causa ecológica. “Heródoto é uma espécie de assessor, que dialoga com as empresas da região”, explica. Quando não está em seu sítio, Heródoto costuma também ir à Sala São Paulo e frequentar o Sesc da rua Vila Nova.

Professor e jornalista

Heródoto afirma que ser professor o ajudou ser jornalista. "Adquiri disciplina e aprendi a entender melhor a sociedade. História e Jornalismo estão diretamente ligados às questões sociais", explica. Pára ele, ambas as profissões exercem o papel de decodificardor entre as informações e o público final (ou aluno). Reconhecido pelos colegas por sua ética e compromisso com o trabalho que faz, o jornalista abandonou a filiação ao PT, depois de 19 anos, após Lula assumir a presidência. "Deixei para evitar conflitos de interesses. Nos países democráticos os jornalistas são filiados a partidos, aqui a visão é diferente", diz. "Só não podemos esconder do público nossas filiações. Eles têm direito de te fiscalizar e de te avaliar criticamente. A sociedade tem que fiscalizar a mídia", completa.

Voltaria a ser professor? “Talvez, quando me aposentar”. Sua vontade é dar aulas na Universidade de Mogi das Cruzes, “mas só se me deixassem dar um curso de Jornalismo inovador”. Atualmente seria difícil conciliar as duas profissões.

Momento marcante

Questionado sobre o momento mais marcante de sua carreira, o jornalista para um momento, pensa e diz ser difícil responder. No entanto, ele destaca a rodada com os candidatos a presidente no Roda Viva, em 1993, em que foi convidado a mediar. “Estavam presentes Fernando Henrique Cardoso, Orestes Quércia, Leonel Brizola e Lula. Foi um momento prazeroso e de grande impacto”, relembra.

Heródoto já ganhou cerca de dez prêmios, entre eles o grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo, em 2001. Seus ídolos no jornalismo são “Mino Carta e Clóvis Rossi pela coragem, Miriam Leitão pela facilidade em transitar entre mídias, Luis Nassif pela independência, Roberto Dias pela ética e Paulo Henrique Amorim pela maneira que entrevista seus convidados”, reconhece.

O jornalista acaba de retornar ao curso de conversação em inglês. “A língua é um instrumento de trabalho”. Heródoto ainda fala francês, espanhol e fez aulas de japonês. Atuou como correspondente internacional pela Jovem Pan e adora viajar.

O workaholic Heródoto já publicou dez livros, entre eles Fora do ar, Meu velho centro – histórias do coração de São Paulo (Boitempo, 2007) e A História do consumo no Brasil (Campus, 2007), além de obras mais técnicas como Manual do Telejornalismo (Elsevier Editora, 2005)) e Falar para liderar (Futura, 2003). Atualmente está realizando um livro sobre perfil de gestão com Pedro Herz, proprietário da Livraria Cultura, e outro sobre comunicação corporativa. “Isto está encaminhado, mas não tenho planos”, diz com um leve sorriso. As agitações desse paulistano o fizeram assim: com projetos traçados a todo o momento, ele aceita e mergulha nos desafios que a vida traz.



Comentários Comentários Postados
Joel Carlos de Almeida Saraiva[24/02/2011 - 23:42]

Dizer o quê de Heródoto Barbeiro? De sua humilde vida, à emérito cidadão do Jornalismo brasileiro. Sempre atuante, com seus "pitos", tanto no rádio, quanto na midia escrita, sempre fantásticos. Comentários derivados de um cérebro, acima da média. Professor e radialista autêntico. Só não concordo com sua famigerada "kombi". Ele possui uma carreta de conhecimentos, pensamentos e idéias. Parabéns, professor Barbeiro.

Cristiane Paião[20/03/2011 - 20:40]

Muito legal a reportagem, parabéns às repórteres! O texto ficou leve, a leitura flui e, principalmente, somos levados com grande prazer a percorrer a vida e a obra deste profissional que, sem dúvida alguma, tem muito a nos "ensinar", seja como professor, seja como jornalista!

Audrey Scheiner[21/03/2011 - 16:15]

Admiro muito o Heródoto. Seu trabalho e história de vida são exemplos de que nós temos sempre que aprender e correr atrás dos nossos interesses.

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