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14/02/2011 - 17h37 - Atualizado em 20/05/2012 - 16h42

“O jornal nunca foi tão universal"

Aline Magalhães

Estadão alia tradição e modernidade para se dar bem na era da internet.Confira entrevista exclusiva com o editor-chefe, Roberto Gazzi

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Petrus Lee
Para Gazzi, “quem quer leitura rápida vai
para a internet, o jornal tem a característica
de ser mais denso, mais consistente”

Com 31 anos de carreira, Roberto Gazzi é um dos comandantes do quinto maior jornal em circulação no país. Na bagagem, o editor-chefe d’O Estado de S. Paulo carrega o título de vencedor de um Prêmio Esso de Jornalismo e de criador do caderno Metrópole do Estadão. Gazzi decidiu ser jornalista para melhorar o mundo, tarefa que, segundo ele, todos que escolheram a profissão deveriam se impor. Iniciou o ofício como foca de grandes nomes do jornalismo como Cláudio Abramo e Mino Carta no extinto Jornal da República, ao lado de profissionais como Ricardo Kotscho e Paulo Markun. Entrou como repórter no Diário do Grande ABC e logo ocupou o cargo de editor. Foi repórter na Folha de S.Paulo, para a qual cobriu a primeira eleição direta após a queda da ditadura. Em 1990, entrou no Estadão, época em que as máquinas de escrever dominavam a redação. Hoje, entre uma viagem e outra, Gazzi acompanha as notícias do dia em seu moderno iPad.

Em março deste ano, o Estadão passou por uma reformulação gráfica e de conteúdo, com o objetivo de criar uma verdadeira plataforma integrada entre as mídias. Sob o comando de Gazzi, o projeto é uma das grandes apostas da publicação para sobreviver em um mundo que profetiza a morte do papel. O editor é otimista, se diz ainda um homem “do jornalzão”, que gosta de sentir o papel logo pela manhã, saboreando, junto com o café, cada boa reportagem publicada. Aos que insistem em colocar ponto final na história do jornal, Gazzi é taxativo: “Ele nunca foi tão universal.”

Em março deste ano o Estadão e o estadão. com passaram por uma reformulação gráfica e de conteúdo. Como o projeto foi organizado?

Fizemos a última reforma no jornal em 2004. Desse tempo para cá, houve algumas modificações, mas nada muito grande. Notamos a necessidade de mudança no produto porque os leitores desejavam coisas novas. Há dois anos já vínhamos discutindo a mudança com editores, repórteres, coordenadores das sucursais. Trouxemos gente de fora, do Guardian, do Clarín, do El País [jornais publicados respectivamente no Reino Unido, Argentina e Espanha], sentíamos que era hora de fazer um redesenho do jornal e de um encaixe melhor do nosso trabalho de papel com o conteúdo on–line. Fizemos pesquisas e identificamos o que queríamos mudar. É um desafio pensar em uma modificação grande, de médio prazo, tendo de fazer o jornal do dia a dia. E ainda tínhamos duas coberturas muito grandes pela frente, que eram a Copa e as eleições. Por isso, tivemos a ideia de criar um grupo exclusivo para pensar e tocar essa reforma gráfica e de conteúdo. Fiquei como coordenador disso e o Marcelo Beraba, diretor da sucursal do Rio, veio para ocupar meu lugar enquanto eu me dedicava ao planejamento da reforma.

O que vocês almejavam com a reforma?

No plano de conteúdo, queríamos mostrar que o Estadão fazia algo para além da cobertura do poder, já que ele é reconhecido por sua cobertura no âmbito político, econômico, internacional, mas também faz um bom trabalho na área cultural, de cidades, esportes. Passamos a cobrir ainda mais a editoria de meio ambiente e pensamos em um foco um pouco diferente na cobertura de cidades e metrópole. Dessa preocupação, nasceu um caderno de cultura voltado para música aos sábados [C2+Música]. Também queríamos resgatar uma tradição que tivemos por muito tempo, de boa cobertura da área de literatura. Lançamos o caderno Sabático, que é voltado para esse tema. Também nos preocupamos em como oferecer uma leitura aprazível aos nossos leitores. Tínhamos a ideia de fazer um jornal mais agradável de ler e um pouco mais didático. Acho que o jornal sempre tem uma certa arrogância, e eu acho que tem de ter mesmo, é bom que tenha. Mas achamos que esse nível de arrogância estava um pouco acima do que deveria ser o ideal. Então, criamos vários formatos de edição para facilitar a entrada de leitura, para relembrar um acontecimento, tornar a leitura mais palatável e prazerosa para o leitor. Ao mesmo tempo, aumentamos o espaço de opinião, que é uma característica que imaginamos que será dos jornais de papel com a facilidade dos meios de comunicação eletrônicos. Cada vez mais as pessoas têm acesso às notícias de primeiro nível, elas sabem o que está acontecendo. O que falta é o conceito da edição. Nesse mundão de informações, é preciso distinguir quais são relevantes para você no seu cotidiano e o que elas significam. A reforma buscou formar um jornal que funcionasse como um espaço de edição desse mundo de informações, mostrando aquilo que é relevante e consolidando-se como um lugar de análise e opinião.

No quesito ‘prazer da leitura’, a sensação é de que nessa reforma a qualidade de impressão melhorou muito. O jornal está muito mais nítido, muito mais definido.

Sim, nós tivemos um trabalho grande. Tínhamos a ideia de que o jornal de mais textos é ótimo, mas é uma publicação muito dura, de leitura pesada. Mudamos sem ferir as bases do Estadão, que são de muita informação, textos com substância e não de leitura rápida. Quem quer leitura rápida vai para a internet, o jornal tem a característica de ser mais denso, mais consistente. Nossa preocupação era a de melhorar o prazer da leitura sem perder essas características. Mudamos, então, a grafia, os tipos. Criamos esses artefatos gráficos para melhorar a leitura, pecinhas para as pessoas terem mais entrada, se sintonizarem melhor sobre o tema e até ter um pouco mais de didatismo. Nos preocupamos em aumentar a área branca do jornal, para deixá-lo mais bonito. Acho que essa é uma fórmula mágica. Quanto mais nos esforçarmos na apuração de uma notícia, de fazer um infográfico, editar bem uma foto, fazer um bom título, fazer um bom desenho de página, quanto melhor fizermos esse trabalho, mais satisfeito o leitor ficará no dia seguinte. E aparentemente estamos sendo bem-sucedidos. As pesquisas que fizemos mostram que os leitores e o mercado publicitário gostaram bastante.

Qual foi a prioridade na reformulação na internet?

Fizemos uma reforma grande no portal pensando que os leitores querem as informações com mais rapidez, de forma mais abrangente. Questionamos o que o leitor em contato com nossa notícia e nossa marca deseja saber de relevante durante as 24 horas do dia. Antes trabalhávamos apenas com o leitor do papel, mas agora as pessoas têm acesso ao nosso conteúdo pelo portal, pelo celular, pelo visor do elevador. Nosso conceito é que devemos dar a melhor informação, com a maior credibilidade possível, quando o leitor quiser, onde ele quiser, na forma que ele quiser. Acreditamos na convergência das mídias. O importante é saber usar essa usina de informação que nós temos e que os jornais souberam criar para aproveitar esse novo mundo das novas mídias.

O senhor falou em convergência das mídias. Muitos jornais americanos tiveram suas versões impressas extintas e agora estão apenas na web. O Estadão não está preocupado com a crise dos jornais?

O Brasil tem uma situação um pouco diferente de outros mercados como o americano e o europeu, que são considerados “maduros” em relação à imprensa. Nosso país tem um nível de penetração de leitura dos jornais muito baixo, o que nos sugere que ainda há espaço para crescer no papel. Aliás, a circulação do Estadão vem crescendo desde o começo do ano. O mercado tem crescido. Temos um momento econômico bom e uma classe C emergente. Mas, independentemente disso, estamos nos preparando para a migração [do impresso para o digital]. O grande desafio é pensar em um modelo econômico tão viável no meio digital como é o modelo do papel. A receita dos grandes jornais vem dos assinantes, da publicidade e da venda em banca. Ainda não conseguimos transpor esse modelo para o digital. Uma alternativa seria cobrar pelo conteúdo. Há quem defenda que isso não será possível, já que é difícil convencer alguém a pagar por aquilo que está na internet – e ela é gratuita. Por outro lado, os tablets e iPhone têm um modelo diferente, que são os aplicativos. Neles já existe a cobrança, pode ser que ocorra uma migração para esse modelo. Estamos tentando encontrar formas de subsidiar um conteúdo que é caro de ser produzido. Hoje quem subsidia essa informação “gratuita” é a operação papel. Esse é um modelo inviável em médio prazo. Mas nós somos otimistas. Em um primeiro momento, as empresas viram a internet como uma concorrente. Agora, cada vez mais, nós a enxergamos como aliada. Os jornais nunca foram tão lidos como estão sendo hoje, porque nossa base de consumo aumentou. Nós estamos no papel, no digital, no iPhone, nos celulares, no Twitter, no Facebook. O jornal nunca foi tão universal.

Os aplicativos para celular e tablets são realmente uma tendência na comunicação, mas o público que tem acesso a essas ferramentas ainda é pequeno, não?

Sim, baixíssimo. Mas não temos dúvida de que será um mercado em expansão. Os números de venda de iPads são cada vez maiores. Não sabemos quanto tempo vai demorar para se popularizar, mas se não pensarmos nisso desde agora, seremos derrubados por um concorrente no futuro. Muitas pessoas já entraram nesse meio e nós, do Grupo Estado, achamos que somos os melhores para ocupar esse espaço, pois temos base de informação e expertise de edição. Até o fim do ano lançaremos o terceiro aplicativo do Estadão para o iPad e o quarto aplicativo para iPhone. Nos tablets, já percebemos que temos que fornecer algo mais do que simplesmente uma reprodução do papel. O leitor pode acessar mais fotos, podemos disponibilizar vídeos, gráficos animados, que saem do padrão estático do papel. É quase um outro produto, uma nova versão de jornal que fazermos todo dia. Podemos até mesmo bolar uma versão atualizada do jornal que o leitor leu pela manhã. Esse nicho é uma oportunidade e não queremos perdê-la.

E o senhor em particular já se adaptou ao uso desses aparelhos?

Eu sou do jornalzão ainda (risos). Mas eu já uso o aplicativo do iPhone para ler de manhã. Leio o portal o dia inteiro. Tenho um iPad e é ótimo para usar em avião. Mas eu gosto da sensação de acordar, tomar café lendo o jornal, parando em uma boa reportagem, em uma boa história, vendo uma foto bem aberta. Digo que nossa missão é fazer com que as pessoas saiam do jornal melhor do que entraram. Eu particularmente me sinto melhor saindo do que quando entrei na leitura, porque estou sempre achando alguma coisa interessante, um história bacana, um dado que eu não sabia. É para vida, para nossa vida em sociedade.

Ainda sobre a questão da posição do jornal impresso no mercado atual, nota-se um crescimento na circulação dos populares como o Super Notícia de Minas Gerais e o Meia Hora, no Rio. Esse tipo de publicação é uma tendência?

Os grandes jornais brasileiros ainda são os tradicionais. Entre os cinco maiores jornais do país, os três mais tradicionais são Folha, Globo e Estado. A lista completa com o Super Notícia, que foi um fenômeno em Minas, e o Extra, já com certa tradição no Rio. Tanto esse fenômeno dos populares, como o de jornais gratuitos, reforça que ainda há um espaço para crescimento da imprensa, um espaço para produtos novos. A indústria jornalística não estava atenta a esse fenômeno de crescimento da classe C, que estava querendo ler e por algum motivo não conseguia, seja pelo preço do jornal ou por dificuldade de leitura mesmo. Enquanto produtores de jornal, achamos esse fenômeno muito interessante. Acreditamos que esse é um degrau para o leitor buscar uma leitura mais qualificada, que é o que nós oferecemos. O que acontecia no Brasil é que tinha um mercado que não era explorado e agora está sendo. E isso é ótimo.

Em 2010, tivemos dois grandes acontecimentos, a Copa do Mundo e as eleições. Como o Estadão se preparou para cobrir esses eventos?

Começamos a planejar essas coberturas há mais de um ano. Montamos dois grupos, um para planejar a cobertura da Copa e outro focado na cobertura eleitoral, pensando em como produzir conteúdo para nossos veículos - o Estadão, o Jornal da Tarde, o portal, a Rádio Eldorado e a Agência Estado -, em qual foco daríamos, em quais profissionais seriam os mais adequados. No caso do Mundial, levamos 20 profissionais para a África, alguns com foco nos temas propriamente futebolísticos, da seleção brasileira, outros focados em produzir matérias especiais e ainda um pessoal para cobertura online e para fazer o conteúdo para a agência. A Eldorado, em parceria com a ESPN, fez a maior cobertura em rádio do Mundial. Paralelamente, outros profissionais começavam a pensar nas eleições, como faríamos a cobertura e qual o orçamento disponível para isso. São coberturas caríssimas, que envolvem viagens, acordos, como o que fizemos com o Ibope. Tudo isso significa mexer com muita gente e muito recurso e ter ainda de dar conta de cobrir os outros assuntos que não vão parar de acontecer.

É cada vez mais raro que as empresas disponibilizem recursos para produção de conteúdo, há uma tendência, até mesmo, em diminuir as redações. Você acha que isso afeta a qualidade do jornalismo?

A diminuição de custos é um processo que as redações viveram nos últimos anos. O jornalismo não deixa de ser uma indústria e vem perdendo sua principal fonte de receita, que é a publicidade. Isso não foi tão dramático no Brasil quanto nos mercados europeus e americanos, mas também fomos atingidos. Com o advento da internet, a redação do Estadão é basicamente do mesmo tamanho que era há cinco anos, por conta da necessidade de dar conta do jornalismo on-line. Se por um lado o jornal perdeu alguns profissionais, o on-line agregou pessoas. É uma nova maneira de trabalhar, à qual temos que nos adaptar.

Como deve ser a formação do jornalista no mundo atual?

Os fundamentos básicos da formação jornalística não mudaram. E não vão mudar mesmo com a necessidade de o jornalista ser cada vez mais multimídia. Por outro lado, é claro que o profissional deve aprender a pensar não só no texto, mas em como ele coloca a informação em outras mídias. E ele precisa de capacitação para isso. Ele deve saber operar uma máquina fotográfica ou fazer uma foto no celular, por exemplo. Mas a principal característica de um bom jornalista é ter, em primeiro lugar, vontade de mudar o mundo. Acreditamos que vamos disponibilizar informação para melhorar a vida da sociedade. Ele também deve ter boa cultura geral, saber trabalhar com a língua. Antigamente, o bom jornalista era basicamente aquele que escrevia bem, editava bem. Hoje muitos postos exigem outras qualificações, como um bom infografista, por exemplo. São novas especializações e as redações estão cada vez mais abertas a receber diversos tipos de profissionais.

As faculdades de jornalismo estão dando conta de formar esse tipo de profissional?

Não. Essa é uma discussão antiga, tanto que há 30 anos criamos um curso próprio de jornalismo [Curso de Focas do Estadão], porque sentíamos a necessidade de melhorar a formação dos jovens egressos, para ter o mínimo de experiência na redação. E deu muito certo, é quase uma pósgraduação de jornalismo. Cerca de 40% da redação passou pelo curso, muitos ocupam postoschaves hoje. Outras organizações, como a Abril [Curso Abril de Jornalismo] e a Folha [Treinamento Folha] também sentiram a necessidade de criar cursos próprios, porque sabíamos que as faculdades não conseguiam mostrar o que é um trabalho jornalístico. Por muito tempo houve um distanciamento muito grande da academia e das redações. Essa realidade vem mudando, hoje em dia há um intercâmbio maior entre os cursos de jornalismo e as redações. As universidades têm buscado gente nas redações para lecionar. Isso é fundamental, facilita que o aluno entenda o mundo no qual ele deseja entrar e o que ele precisa para entrar bem. Jornalismo se aprende na prática, no dia a dia da redação.

O Estadão está há mais de 400 dias sob censura. Como vocês se posicionam em relação a essa decisão judicial?

Consideramos um absurdo que tanto tempo depois da derrubada da ditadura militar e de vivermos há um bom tempo em regime democrático, que tenhamos que vivenciar um fato como esse. O direito à informação está para além dos direitos do jornal ou do jornalista: a sociedade tem o direito de ser informada. Ficamos espantados quando soubemos que não poderíamos mais publicar informações sobre o Fernando Sarney [Filho de José Sarney, presidente do Senado], principalmente porque sabíamos que nossas informações eram absolutamente corretas, tanto que nenhuma delas foi desmentida. Ficamos mais chocados ainda com a demora da revogação dessa censura. Em um momento o filho do Sarney quis desistir da ação, mas aí o Estadão não quis, fez questão que a ação continuasse, porque queremos que o mérito seja julgado. Essa é uma questão importante não só para o Grupo Estado, mas para os meios de comunicação em geral, e para a sociedade. O STF [Supremo Tribunal Federal] teve a oportunidade de dar uma resposta e não quis dar naquele momento, apegando-se a uma firula jurídica, de forma que nos sentimos ainda mais fortalecidos para exigir que essa sentença fosse discutida. Por isso não aceitamos que a ação fosse trancada. Nós queremos essa discussão.



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