Profissionais experientes abrem o jogo e contam as alegrias e percalços do ofício
Para ser um bom jornalista não basta ler muito, gostar de escrever, ser bem informado, falar mais de um idioma e ter uma vasta bagagem cultural.
Claro que tudo isso é essencial, mas é preciso também saber relacionar-se, não sucumbir à “síndrome do vingador” e cultivar interesse permanente por aquilo que de fato é notícia, além das meras aparências. A revista Cásper falou com profissionais do jornalismo sobre as qualidades desejáveis nos novos profissionais e sondou o que há de positivo e negativo no mercado em sua configuração atual. Que não é fácil seguir a carreira, todos já devem ter percebido. É bom saber, no entanto, que há novas oportunidades para quem está disposto a encarar um ambiente de trabalho deveras modificado. Leia a seguir as dicas e avaliações dos veteranos.
Humildade e olho vivo
“A produção de uma reportagem é um processo de sedução”, diz Eduardo Oinegue, diretor do portal iG. “A base do ofício é falar com gente. Por isso, estabelecer relações de confiança com entrevistados e colegas é fundamental.” Além disso, é preciso desde cedo introjetar uma caprichada dose de realismo para não sucumbir ao idealismo ingênuo ou à presunção típica dos donos da verdade. “Não acredite que você é o vingador do mundo sendo jornalista, e não se confunda com o meio de comunicação em que você trabalha. Os veículos têm seus donos, você é somente um empregado”, adverte o exprofessor da Faculdade Cásper Líbero Jayme Brener.
O jornalista é, o tempo inteiro, olho e ouvido. No caminho para o trabalho, no fim de semana, no descanso ou na hora do almoço, tudo tem potencial para virar pauta. “Ser jornalista tem a ver com a capacidade de ler o que não está escrito, ouvir o que não foi dito, o tempo inteiro”, afirma o diretor de jornalismo do SBT, Luiz Gonzaga Mineiro. “É ter capacidade de perceber que ‘isso’ não foi dito ou ‘aquilo’ foi dito para esconder algo”.
Invasão estagiária
Mas não é “só” isso. Todas essas qualidades devem estar aliadas à disposição de encarar o dia a dia em equipes minguadas e abarrotadas de trabalho – resultado de um processo de redução de custos nas redações que se intensificou nos últimos anos. Segundo Mineiro, uma das características do mercado hoje é um “exagero” de estagiários em detrimento dos mais antigos no ofício. Pode parecer uma boa para quem está chegando, mas só até certo ponto. É que para uma redação ter uma boa capacidade de apuração, é importante que haja uma mescla entre profissionais experientes e novos.
“Quando comecei a trabalhar na área, há 15 anos, nós tínhamos sindicatos fortes e muito mais jornalistas dentro da redação do que fora. Hoje, a maioria das pessoas que se forma na profissão jamais trabalha em redação”, diz Pedro Doria, editor-chefe de conteúdos digitais do jornal O Estado de S. Paulo.
A boa notícia é que, ao mesmo tempo em que a grande imprensa encolheu, diversas áreas de comunicação social surgiram e se consolidaram no mercado. “Em jornalismo, há diversas alternativas: veículos menores, veículos de empresas, jornalismo comunitário e freelance. Ainda existe a possibilidade de trabalho em assessorias de imprensa e comunicação corporativa. Além disso, um dos principais empregadores de jornalistas hoje em dia é o setor público”, enumera Ana Estela de Sousa Pinto, editora do Programa de Treinamento da Folha de S.Paulo. Mesmo mantendo um excelente blog sobre jornalismo para focas, Ana Estela esqueceu de mencionar os veículos on-line.
Credibilidade on-line
A internet reconfigurou a comunicação e o jeito de se fazer jornalismo. A nova realidade virou um prato cheio para os jornalistas: blogs, redes sociais e sites, todos são instrumentos para as notícias circularem. Um efeito colateral inevitável: foi-se o tempo em que poucos veículos dominavam sozinhos o espaço de comunicação de massa.
Assim, se todo mundo consegue expor seus textos na internet, o jornalista para se diferenciar e continuar socialmente relevante tem de se agarrar ao Santo Graal da credibilidade mais do que nunca. Em tese, os profissionais que trabalham em grandes portais ou sites de jornais já consagrados saem na frente. “Os profissionais do ramo jornalístico levam vantagem na questão da credibilidade porque estão focados somente na produção de matérias. Eles têm um compromisso com a sociedade, levando em conta os interesses públicos mais arraigados na cultura da nossa profissão”, acredita o ex-editor da revista Veja, Mário Rosa.
Portais como o iG têm uma estratégia clara de investimento em reportagens exclusivas. “Nosso objetivo é ser tido como uma fonte confiável de informação em nossa plataforma”, diz Oinegue, diretor do portal. O processo de produção de conteúdo para internet se diferencia do ciclo de produção em redação “do papel” em dois pontos, principalmente. Na internet não existe o famoso momento de fechamento: assim que a reportagem está pronta, pode ir ao ar (às vezes, até antes de ficar pronta mesmo...). A segunda diferença é a questão da tolerância com erros, consequência da facilidade técnica para correção (nem sempre exercida): se houver algum tipo de erro, basta o próprio jornalista acessar o publicador do site e fazer a correção.
Assessoria de Imprensa
Diferentemente de outros países, em que o trabalho de assessoria de imprensa é feito somente por um profissional de relações públicas, no Brasil a atividade também pode ser exercida por um jornalista. Em uma sociedade democrática com uma economia em expansão, os trabalhos de planejamento de comunicação são cada vez mais relevantes.
As assessorias de imprensa têm se autodenominado assessorias de comunicação porque a grande parte das informações produzidas não são voltadas para a imprensa, mas para diversos públicos. O trabalho consiste em recolher as informações dadas pelos clientes e apurar os fatos para transformálos em um texto jornalístico. A partir do momento em que há algo de noticioso, o assessor cria pautas, textos, sugestões e notas de acordo com o públicoalvo. O próximo passo é entrar em contato com os veículos que poderiam se interessar em dar a notícia.
“Se você abrir um jornal, de 70% a 80% do conteúdo foi produzido, sugerido e trabalhado em conjunto com as assessorias de imprensa. Porque o mundo é complexo, tem informação saindo de todos os lugares”, relata Roberta Machado, diretora da assessoria In Press. O jornalista é o grande organizador dessas informações. Ele precisa separar e priorizar o que mais interessa ao seu público.
Comunicação corporativa
As oportunidades não param por aí, outro forte mercado é o de comunicação corporativa. A essência do trabalho é parecida com a do assessor, porém o profissional faz a comunicação de somente uma empresa. “Temos uma função de mão dupla: conscientizar a empresa e prepará- la para se relacionar com os jornalistas. Ao mesmo tem- “Ser jornalista tem a ver com a capacidade de ler o que não está escrito”, diz Luiz Mineiro po, temos um relacionamento com os jornalistas para que eles entendam os posicionamentos da empresa, objetivos e mensagens que ela pretende transmitir”, diz Milton Abrúcio Junior, gerente de comunicação corporativa da Telefônica, que já trabalhou na Folha de S.Paulo.
Há nessa área um verdadeiro cavalo-de-pau de postura do jornalista. Ele deixa de ser o questionador e passa a ser fonte de informação. Tem a seu favor o conhecimento dos recursos jornalísticos. Por sua posição, espera-se dele que entenda melhor tanto os anseios dos empresários quanto as necessidades dos repórteres.
Os dilemas da faculdades de jornalismo
Nem mesmo os mais experientes jornalistas têm uma opinião unânime sobre a existência das faculdades de jornalismo. “Não digo de forma alguma que o curso de jornalismo seja inútil, porque não é. Claro que ensina coisas, mas não é fundamental para você ser um bom jornalista”, opina Doria, do Estadão.
Mineiro, do SBT, conta que a convivência acadêmica na faculdade foi determinante para sua formação: “Falar que a faculdade não é necessária é um erro crasso. É mediocrizar o jornalismo.” No entanto, Doria e Mineiro concordam que, independentemente de cursar jornalismo, o profissional deve ter formação superior.
Dentro do debate sobre formação educacional, outra questão sempre em pauta é a da necessidade do diploma em jornalismo para exercício da profissão. Neste quesito, as opiniões também são divergentes, mas a realidade fala por si só: “Continuamos contratando quem sai da faculdade de jornalismo”, garante a assessora Roberta Machado. “A Folha de S.Paulo contrata gente sem diploma de jornalista desde os anos 1980. Nem por isso a redação está infestada de médicos, engenheiros e historiadores”, conta Eduardo Oinegue.
Comentários Postados
Eu como uma simples leitora e por querer e não entender nada de Jornalismo até o momento.Devo dizer que as palavras dos jornalistas acima sejam de fato verdadeiras.claro que um curso que ajuda e primorar a fala e a escrita sem discução ajuda muito um auxiliar de Jornalismo que acabou de ler uma materia sobre o Jornalismo.. Como acabei de fazer e essa materia me deu mais cede de jornalismo. Vou encarar essa prova como ultima coisa que faço nessa vida ...
Essa matéria fez com que eu me apaixonasse mais ainda pelo curso!! Embora estar cursando Fisioterapia pretendo, com certeza, mudar para jornalismo. Agradeço a quem realizou essa matéria.
Ainda tenho cerca de 1 ano e meio para definir o que cursarei na faculdade, Estou em duvida entre relações públicas e jornalismo. A matéria é ótima e tirou grande parte das minhas duvidas.
Estou em meu ano decisivo para escolha de um curso. E com essa matéria pude sanar grande parte das minhas dúvidas. Pretendo sim cursar Jornalismo ! É, sem dúvidas, um curso brilhante !
Gostaria muito de poder contactar o Milton Abrúcio Junior, meu colega de Ginásio. Poderiam me enviar o email dele. Desde já, obrigado.
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