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14/02/2011 - 17h44 - Atualizado em 22/05/2012 - 08h29

A Persistência de Gutenberg

Lidia Zuin

Apesar da euforia com os livros eletrônicos, o papel continua preferido pelos leitores. Do preço à usabilidade, os tablets ainda causam dúvida

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Petrus Lee
O tablet Cool-ER é vendidoa R$ 599. Mais de 100 mil títulos de e-books estão disponíveis para compra

O papel ainda pulsa. Mas, mesmo que não esteja fadado ao extermínio, agora é preciso explorar suas qualidades específicas, tarefa que não se impunha com a mesma urgência em um passado recente.

Há pouco mais de dez anos, cada mídia tinha seu momento no dia de uma pessoa. De manhã, era hora de conferir as notícias do jornal que, recém-chegado, ainda transpirava a “sensação de inédito”. No caminho para o trabalho, o rádio trazia um giro de notícias da madrugada, os acontecimentos mais recentes e a prestação de serviço. No fim do dia, a televisão oferecia informação e entretenimento ao espectador. Hoje, em um único aparelho do tamanho de um palmo, todos esses serviços estão ali de uma só vez. “A internet chegou e ocupou o espaço de conexão ao longo do dia”, diz Alexandre Maron, diretor de projetos online da Editora Globo.

Os produtores de conteúdo precisam se adaptar a esse cenário. Com uma nova demanda de público, as empresas de comunicação se veem obrigadas a lidar com uma série de produtos que contemplem as mais variadas plataformas, como revista de papel, programa de rádio, podcast, programa de TV, vídeocast, perfil em redes sociais e portal de notícias. “O papel é parte do negócio. Não precisa acabar, mas é preciso ver o que ele tem de interessante. A qualidade, a sensação de segurar, o peso, o valor de coleção. Você precisa explorar isso”, indica Maron.

Reconhecido o desafio, uma das frentes de atuação é investir em tecnologia de impressão. Só a Editora Abril gastou cerca de R$ 100 milhões em novas impressoras e máquinas de acabamento. Segundo Sergio Picciarelli, diretor de novos produtos da empresa, as aquisições não têm a intenção de reconquistar o público do impresso, mas sim expandi-lo. “Para crescer e continuar atrativo, os profissionais de comunicação terão de tomar conhecimento das possibilidades que o papel oferece, dos recursos disponíveis, dos processos que já existem e do que vem surgindo. Lógico que muita coisa vai migrar para o digital, mas o papel deve durar por muito tempo”, afirma.

Uma prova de que o papel não está na defensiva é que as tiragens das revistas continuam aumentando, além de novos títulos estarem sendo publicados, diz Picciarelli. A revista Minha Casa, lançada em abril, já vendeu cerca de 200 mil exemplares. “Também apostamos nos jornais gratuitos, como o Placar e o MTV na Rua.”

No Tendências Conectadas, evento realizado em junho deste ano na Faculdade Cásper Líbero, Picciarelli mostrou algumas peças publicitárias impressas que utilizavam recursos como aromas, texturas, vernizes, chips, tintas e papéis especiais. O diretor acredita que tudo isso pode ser transposto para o jornalismo, mas os altos custos demandariam a participação da publicidade. “Não quer dizer que a publicidade vai se misturar com o redacional, mas que ela pagará pelo recurso deixando claro o que é publicidade e o que é jornalismo. É preciso que as editoras criem projetos que possam ser utilizados por ambos”, explica. Um exemplo dessa união é a edição de outubro de 2008 da revista americana Esquire, em que as chamadas redacionais da primeira capa apareciam em uma placa luminosa acionada por um chip. O anunciante, Ford, utilizou na segunda capa o mesmo recurso. O carro foi impresso em uma placa luminosa, ambas controladas pelo mesmo chip, jogo de baterias e circuito.

Alarme falso

Assim como se temeu o fim do rádio e do cinema com a chegada da TV, e de todos eles com o advento da internet, os e-books (livros eletrônicos) se tornaram, à primeira vista, os arqui-inimigos do livro e do periódico impresso. Mas, muitas e tantas palestras, análises e reportagens alarmistas depois, a opinião geral se acalmou quanto ao risco de extinção do impresso. Em primeiro lugar porque as pessoas ainda têm apego pelas páginas de papel. Picciarelli cita Marcello Serpa, sócio-diretor da AlmapBBDO, agência brasileira de publicidade: “O físico é algo inato do ser humano. A gente tende a esquecer que as coisas precisam ter sua forma concreta. Trabalhar o digital e o concreto é o grande desafio.”

Mas não é só valor afetivo que garante a sobrevivência do papel. “A mídia impressa tem uma linguagem que lhe é própria, tem elementos e recursos que estabelecem um tipo de relação com o leitor diferente das demais tecnologias”, explica Picciarelli. O fato é que as livrarias continuam vendendo livros convencionais. Isaías Batista, gerente da unidade Alameda Lorena da Livraria da Vila, avalia que as mudanças no mercado livreiro não serão tão drásticas, pelo menos não no Brasil. “Não acho que apenas um pequeno grupo de pessoas vai continuar comprando livros de papel, como está acontecendo com o vinil, portanto o preço do livro não vai encarecer muito”, afirma. Por seu raciocínio, as pessoas continuam adquirindo livros que visam à fruição, como um romance ou uma biografia. Já a produção científica e técnica vai acabar migrando para o ebook. “Ficaria muito mais barato comprar um livro eletrônico para trabalho ou para estudo. E vai ter tanta gente querendo comprar, que publicar no papel não fará mais sentido”, diz.

Quanto ao preço dos livros, o gerente aponta para os investimentos em livros de bolso como uma alternativa ao consumidor. “A LP&M era a única editora de pocket. Hoje você tem outras alternativas, como a Companhia das Letras, a Objetiva, a Record. Todo mundo tem selo com livro de bolso, já se preparando para o mercado que estará disputando com as outras tecnologias”, indica Isaías Batista. Já Cloris Klued, gerente de vendas da editora LP&M, vê os públicos do e-book e do livro de bolso como círculos distintos. “Quem compra o pocket gosta do livro físico, do preço e da portabilidade. Os livros eletrônicos não são concorrência nem ameaça. No máximo, professores vão procurar conteúdo científico em e-books, mas eles não vão ser substitutos. Arquivos são muito mais fáceis de se perder do que um livro”, afirma.

Aline Carneiro, membro do departamento editorial da Editora Vozes, concorda. “Livros impressos duram a vida inteira, enquanto um arquivo pode ser facilmente perdido só de deixar o aparelho cair no chão”, sugere. “Tem gente que vai querer ter um livro porque usará por muito tempo, para a vida toda, enquanto o e-book seria mais interessante para uma leitura rápida e descartável” Evidentemente, essa defesa do papel não é consensual. Leopoldo Godoy, editor de tecnologia e games do G1, o portal de notícias da Globo, acredita que a facilidade do livro digital chama muito mais a atenção do que a materialidade do papel. “É muito simples pegar um livro no dia do lançamento, colocá-lo em um Kindle e sair por aí carregando toda sua biblioteca. Eu creio que isso supera qualquer fetiche com o livro impresso”, opina. Godoy concorda com o fato de que a mídia impressa continuará existindo, mas pondera que a tecnologia tende a fazer do livro eletrônico algo muito mais barato e universal. De fato, os preços dos e-books chegam a ser 30% a 50% mais baratos. “Esse afeto pela materialidade, embora relevante, não deve ser determinante. No final das contas, acredito que tudo será transportado ou adaptado para funcionar com o protocolo IP”, conclui.

Para ouvir

O formato dos audiobooks, presente no Brasil há 15 anos, foi criado nos Estados Unidos em 1969 para atender aos soldados que voltavam do Vietnã com deficiência visual. Hoje, a porcentagem de consumidores dos audiobooks preenchida por deficientes visuais é de menos de 0,01%, conta Kosmos Bran, da editora Audiolivro, fundada em 2004.

As vendas de audiolivros aumentam de 30% a 40% ao ano. O interesse crescente tem a ver também com o baixo preço dos audiobooks. No caso dos títulos publicados pela Audiolivro, o download custa R$ 9,90. A maior parte dos ouvintes é composta por jovens de 15 a 35 anos. “Tem gente que compra o livro e o audiobook. Acompanham a história intercalando os formatos”, conta Diogo Machado, vendedor da Livraria da Vila.

Para decoração

Ainda tem muita gente comprando livro não para desfrutar seu conteúdo, mas sua embalagem. Segundo Diogo Machado, vendedor da Livraria da Vila e estudante de artes plásticas da Faculdade Paulista de Artes, muitos dos compradores nem nem sequer verificam o conteúdo do livro, levando-o para casa afim de usá-lo como decoração. “Tem gente que diz ‘ai, esse livro é bonito, vou levar’, nem olha.” Ele conta que certa vez uma cliente chegou à livraria dizendo que havia pintado sua casa de branco, mas que os sofás eram azuis. “Ela me pediu para trazer todos os livros azuis. Eu trouxe todos que eram dessa cor, independentemente do assunto. Tem gente que compra livro pela cor”, diz Diogo.

Preço não é problema para esses clientes. O estudante conta que chegou a vender um Atlas mundial que custava R$ 8.400. “Só tinha mil exemplares no mundo. Na América Latina, eram três – um nosso. E ele comprou porque a mulher estava olhando e gostou. Era um livro de quase vinte quilos, com capa feita de couro”, diz. Diogo também já vendeu um livro de fotografias de R$ 5.000. “As pessoas pagam esse preço porque ainda têm uma magia do livro: vou comprar porque é gostoso, tem cheirinho. Acho que o tablet pode pegar, mas não vai acabar com o livro”.



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