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01/02/2011 - 16h06 - Atualizado em 22/05/2012 - 09h55

Luzes, câmera e reflexão

Por Gabriela Sá Pessoa, Editora do site

A 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes ofereceu um panorama das atuais diretrizes do cinema brasileiro

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Alexandre C. Mota/ Divulgação
Instalado no Largo das Forras, o Cine-Praça exibiu
sessões de curtas e longas ao ar livre

Luzes apagadas, plateia devidamente acomodada, projetor começando a funcionar – são essas as pistas de que o filme vai começar. Agora se imagine em um lugar onde o “escurinho” disputa sua densidade com o céu estrelado, as poltronas são colocadas embaixo de árvores e o público pode respirar, em vez de ar condicionado, a fresca brisa da noite.

Esse cenário, à la Cinema Paradiso, parece e é coisa de cinema. Ele existe em Tiradentes (localizada a 190 km de Belo Horizonte), durante a terceira semana do ano. Nesse período, a cidade recebe sua tradicional Mostra de Cinema, que, em 2011, teve sua 14ª edição realizada de 21 a 29 de janeiro. O evento aconteceu em três pontos: o Cine-Teatro, o Cine-Tenda e a Cine-Praça – esta última, ao ar livre. No entanto, todas as ruas do município se tornaram ambiente de encontro e discussão sobre a proposta do evento: a produção brasileira contemporânea.

Em uma palavra, a Mostra de Cinema de Tiradentes pode ser definida como democrática. Todas as atividades foram gratuitas, o que permitiu um público dos mais diversos. Além disso, a programação contou com produções tanto de estudantes de Cinema quanto de diretores renomados. Esse encontro de gerações foi uma das mais importantes consequências do evento, que, em sessões de filmes, debates e oficinas, criou um terreno fértil para a construção da cinematografia do País, em evidência após a Retomada dos anos 1990.

Não por acaso, Tiradentes surgiu dois anos após o marco desse renascimento - Carlota Joaquina (1996), de Carla Camurati. A Mostra é uma vitrine da produção jovem e independente, que caminha entre a herança indelével do Cinema Novo e a produção de filmes voltados ao sucesso comercial.

Prova disso foi a escolha dos homenageados desta edição: Paulo Cezar Saraceni, um dos cineastas precursores do Cinema Novo, e o premiado ator Irandhir Santos, que tem no currículo Baixio das Bestas; Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo e Tropa de Elite 2.

No evento, foram promovidos encontros entre diretores, público e crítica, bem como seminários que discutiram questões políticas e econômicas que envolvem o cinema nacional. Dentre eles, a conferência Diálogos do Audiovisual reuniu entidades de classe do setor, as quais expuseram as ações que devem ser tomadas, em 2011, no sentido de fomentar uma política pública de apoio à sétima arte.

A mesa O Olhar Sobre O Cinema Brasileiro, por sua vez, foi um dos grandes momentos da Mostra. Participaram da discussão profissionais responsáveis pelos festivais de Cannes (França), Locarno (Suíça), BAFICI (Argentina) e Santa Maria da Feira (Portugal), além de distribuidores internacionais e representantes da Ancine (Agência Nacional do Cinema) e do projeto Cinema do Brasil, que ajuda a comercializar filmes nacionais no exterior.

A grande questão debatida pelos convidados foi a recepção da produção brasileira fora do País. Alberto Flaksman, assessor internacional da Ancine, atribuiu a dificuldade de comercialização dos filmes nacionais ao atual sistema de distribuição, dominado por empresas estadunidenses. Para ele, o segredo para superar esse entrave é apostar em coproduções com outros países, medida que facilitaria a entrada das obras em diferentes mercados.

Já Eduardo Raccah, da distribuidora Figa Films (Alemanha/EUA), alegou ser “ingênuo acreditar que o cinema brasileiro seja exibido em Multiplex”, já que, “por essência, desde Chico Xavier a Estômago, o cinema brasileiro é alternativo” no exterior.

Benjamin Miguet, representante da Quinzena dos Realizadores de Cannes, destacou a importância de investigar o que impede um filme de ser visto fora dos festivais. De fato, essa é uma questão essencial à aceitação do cinema brasileiro dentro e fora do País, tendo em vista que, em 2010, somente 20% do mercado foi ocupado por produções nacionais.

O índice indica que, apesar do crescimento pós-Retomada, ainda há muito a ser feito em prol do cinema brasileiro. Conscientes do tamanho desse desafio, os realizadores da Mostra escreveram a Carta de Tiradentes, a qual revela a necessidade de se fomentar políticas que avancem na “estruturação comercial do setor, na democratização da produção e do consumo dos bens culturais” e, além disso, apostem “no cinema como janela privilegiada para o desenvolvimento e a soberania”. Só assim o Brasil poderá se reconhecer em suas telas, seja em salas de ar puro, ou de ar condicionado.



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