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26/01/2011 - 15h22 - Atualizado em 22/05/2012 - 15h52

Nocaute no exagero

Por Rodrigo Oliveira, Editor do site

Em “O Vencedor”, o bom desempenho do elenco colabora para o que poderia ser apenas mais um drama em cartaz

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Reprodução
Os atores Christian Bale, Melissa Leo e Mark Wahlberg

Engana-se quem pensa que um ringue de boxe é o cenário principal do filme O Vencedor. Muito pelo contrário, a maior parte dos conflitos ocorre entre quatro (sólidas) paredes, demolidas pela grandeza do elenco guiado por David O. Russell.

O longa conta a história de Micky Ward, interpretado por Mark Wahlberg, um lutador de boxe sem muito sucesso, que é treinado pelo meio-irmão Dicky Ecklund, vivido por Christian Bale, ex-pugilista que colecionou êxitos, mas não soube aproveitar as chances quando estava no auge por se entregar ao crack. A carreira de Ward, começa a deslanchar somente quando encontra conforto nos braços de Charlene, personagem de Amy Adams, que o aconselha a investir em profissionais que absorvam a sua determinação e foco, fazendo com que seu talento como lutador seja reconhecido. Consequentemente ele se distancia da família desequilibrada, composta por quase uma dezena de irmãs e pela matriarca Alice, papel de Melissa Leo.

O Vencedor explora os vínculos de afeto com uma limpidez que chega a constranger o espectador. O diretor David O. Russell conseguiu imprimir essa característica no longa, expulsando qualquer tentativa exacerbada de drama, pois os conflitos contornam toda a narrativa, cercando-se de elementos como a naturalidade das atuações para equilibrar os momentos de tensão da obra.

O desempenho mais contido nas ações dos atores é um preciosismo inerente do início ao fim do filme. Poucos diretores conseguem empregar isso em seus trabalhos, e O. Russell integra essa seleta lista, que possui nomes como Mike Leigh. Com o drama Segredos e Mentiras, ele tateou de forma minuciosa os conflitos interiores de suas personagens, sem abandonar o pragmatismo necessário para informar o espectador e instruí-lo na investigação de cada vida ali exposta. A Academia reconheceu o trabalho do elenco, tanto que as atrizes Brenda Blethyn e Marianne Jean-Baptiste – em atuação invejável – foram nomeadas ao Oscar. É bem provável que o filme de O. Russell garanta o seu lugar entre os mais bem recebidos pelos membros votantes, seguindo os passos da obra magnânima de Leigh.

A personagem de Melissa Leo (Rio Congelado) é, sem dúvida, a mais complexa, porque tem de agrupar dentro de um mesmo papel diversas características, pois além de uma mãe que vive no subúrbio com boa parte de seus nove filhos, ela aplica à personagem a maturidade de uma mulher que se diz ‘empresária’ do filho Micky e que defende seus interesses sem titubear, visando, é claro, futuros rendimentos monetários.

Christian Bale (Batman Begins e Batman – O Cavaleiro das Trevas) passou por imensa mudança na aparência, transformando sua fisionomia na de um homem que teve a estética corroída pelo tempo. Sua atuação é notável, - se comparada a de outros filmes que participou – desvinculando-se da imagem de galã imponente vista em trabalhos anteriores.

A mescla de elementos fortes como a luta por um objetivo, - que até certa fase da vida pode parecer inalcançável - a relação familiar em meio ao desleixo das perspectivas futuras da classe média baixa e a degradação de um cidadão americano devido ao vício de crack é arrematada graças a sensibilidade do diretor, que não desperdiça o talento de seu elenco, primando por abusar das sutilezas.

Baseado em uma história real, o filme dá um nocaute no exagero tão presente nas atuações de grande parte das obras atuais, mostrando que o universo da ficção pode se aproximar do mundo conflituoso das pessoas reais.



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