“A diferença entre a genialidade e a estupidez é que a genialidade tem limites”
Pouco mais de uma semana atrás, o colunista, cineasta, jornalista, comentarista e (complete como quiser) Arnaldo Jabor, destilou em uma coluna do jornal O Estado de S. Paulo todas as suas mágoas, aparentemente guardadas e oprimidas há anos. O texto, intitulado "Patrulhas ideológicas e patrulhas pop", chorava as críticas – contundentes e negativas – feitas ao novo longa metragem do setentão, A Suprema Felicidade.
“Eis que, de repente, aquele sujeito que fala na TV, escreve em 20 jornais, fala no rádio há 15 anos, resolveu fazer seu nono filme”, disse ele, sobre ele mesmo, como quem defende a qualidade plena de sua “obra prima”. Jabor, embora se destaque pela vaidade e pela estupidez, não está só. A crítica cultural, sui generis, anda capenga, ineficiente, dispensável. Os espaços destinados para tal atividade – nobilíssima, sem ironia – transformam-se dia após dia em um grande e distorcido lugar comum, onde aqui se paga, aqui se fala.
Ataques pessoais e promoções descabidas afastam leitores, das ruas e dos cadernos culturais. Não é de se estranhar, ainda, o fato de Arnaldo Jabor iniciar a ladainha agradecendo aos únicos elogios recebidos – mera coincidência, de dois dos seus empregadores: Estadão e O Globo. Anacrônico, o cineasta reclama atacado que o mundo mudou. Ironiza Gondry citando Goddard (assim mesmo, com um D de sobra, de delírio, talvez) e parte para a luta corpo a corpo com Eduardo Escorel, crítico da revista piauí, pivô do descontentamento do gênio, ao que tudo indica.
Para não correr o risco de dar de cara – ainda que sem muito querer – com o mesmo muro dos lamentos construído pelo colunista/jornalista, evitemos mais lamúrias. Alguns exemplos, longe do Caso Jabor, são igualmente úteis para ilustrar a reação da imprensa frente a polêmicas, raras.
Na 29ª Bienal de São Paulo, marcada por idas e vindas, perderam o artista plástico Nuno Ramos (que escreveu um belíssimo desabafo no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo) e o público. Todos, até mesmo urubus, foram calados por medidas autoritárias, às quais a imprensa , isenta?, não muito se dedicou. Não muito tempo antes, Bravo!, vista por muitos como um antro intocável do jornalismo cultural, creditou a canção Something, de George Harrison, a Lennon e McCartney, erro brutal e inconcebível mesmo em blogs de beatlemaníacos adolescentes. Patrícia Palumbo, por sua vez, renomada no cenário musical brasileiro, idolatra a nova MPB (destaque para Tulipa Ruiz e outras do gênero, preferencialmente) sem saber explicar muito bem o porquê de tanto talento – promove “artistas” precoces, por enquanto bem previsíveis.
Em tempo, Jabor, pelas vias erradas, salva meia dúzia de linhas quando questiona os “releases de produtos de massa”, “porrada”, “corrida” e “celulares tocando”. É a síntese, expressada de forma equivocada, do que domina o mercado: comércio, de filme, de livro, teatro, artes. De personalidade, moldada.