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14/12/2010 - 14h47 - Atualizado em 22/05/2012 - 07h41

Kenneth Goldsmith e Giselle Beiguelman debatem direitos autorais, arte e jornalismo dos dias atuais

Gabriela Sá Pessoa, 1º ano de Jornalismo

Wikileaks e copyrights foram assuntos abordados pelos palestrantes

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O tema escolhido para encerrar o III Seminário Internacional Rumos Jornalismo Cultural foi a tecnocultura midiática e o modo como ela modifica o acesso ao conhecimento. A mesa "A Cultura de Ícones II – Percepções" foi mediada pela curadora do encontro, Rachel Bertol, e trouxe à discussão o professor da Universidade da Pensilvânia (EUA) e administrador do site Ubuweb, Kenneth Goldsmith, e Giselle Beiguelman, midiartista e professora da pós-graduação da PUC/SP.

Goldsmith priorizou, em sua fala, a apresentação do Ubuweb, página que disponibiliza, gratuitamente, conteúdos de milhares de artistas, desde poetas clássicos a músicos contemporâneos. A idéia é tornar essas obras não apenas reproduzíveis, mas possíveis de serem baixadas para o computador de qualquer pessoa que acessar o site.

A página se opõe à característica da rede que, em vez oferecer conteúdo livre a todos os seus usuários, ainda atende aos desígnios de grandes corporações midiáticas. O Google, visto como grande polo difusor de informações, só distribui livremente materiais que não ferem os direitos autorais de algumas empresas.

Como exemplo do caráter antidemocrático da internet, o convidado contou aos presentes um caso ocorrido com um conhecido seu, processado por dar a seu site o nome de Marcel Duchamp, famoso artista dadaísta falecido em 1968. Por sua vez, a postura do Ubuweb é “fingir que o copyright não existe”.

Segundo Goldsmith, ao disponibilizar áudios de Samuel Beckett, o site não feriria os interesses econômicos de ninguém, já que o dinheiro do escritor alemão é logrado com a venda de seus livros. Ele ainda aponta que, na verdade, um verdadeiro artista não se importa se alguém usa suas obras para divulgá-las, mesmo que gratuitamente.

O estadunidense passou a palavra a Giselle Beiguelman, que já começou tratando da polêmica questão dos direitos autorais. "Essa história de copyright é insuportável", comentou. Na opinião da palestrante, o assunto vem tomando muito espaço na mídia e provocando uma histeria questionável.

Ela contou sua própria experiência com a nebulosa relação entre direitos autorais, arte e internet. Beiguelman, em 2007, produziu Born2kill, vídeo “autobiográfico” no qual compilou trechos violentos dos desenhos animados que assistia na infância. Como trilha sonora, foi escolhida uma música de sua banda favorita, o The Clash. O vídeo fez tanto sucesso que foi solicitado para diversas exposições artísticas mundo afora.

Pessoalmente, a midiartista não teve problemas com a Hanna-Barbera, empresa detentora dos direitos autorais das peças utilizadas no vídeo. No entanto, o Google e o Youtube, canal em que o vídeo está hospedado, se antecipou ao problema de copyright e começou a avisar Beiguelman sobre possíveis violações. O vídeo chegou a ser bloqueado em alguns países, nos quais a palestrante havia agendado exposições e que já possuíam uma legislação de controle da rede.

Beiguelman ainda tratou do Wikileaks, principal assunto em pauta quando se fala da atual relação entre jornalismo e internet. Para ela, o episódio envolvendo o site criado por Julian Assange “colocou em questão os paradigmas mais assentados de propriedade sobre a circulação de conhecimento e acesso à informação”.

O vazamento de informações confidenciais do Governo estadunidense, ademais, abalou os próprios métodos do jornalismo investigativo, até então baseados no modelo “Watergate” de fontes privilegiadas, como o até hoje desconhecido “Garganta Profunda”, que ajudou os jornalistas do Washington Post em suas investigações na década de 1970.

Já o Wikileaks, na análise de Beiguelman, propõe um “modelo midiático informe”, alimentado por uma multidão que expele os dados sem edição. Desaparece, portanto, a figura fonte privilegiada e surge a fonte anônima, disponível a todos os jornalistas para que eles possam interpretá-la.

A página também revelou ao mundo o “grau de TMZação do jornalismo”. Comparando as matérias dos jornais atuais àquelas publicadas pelo TMZ, famoso site de fofocas sobre celebridades, ela acredita estar a prática jornalística viciada em boatos produzidos nos bastidores do poder.

Giselle Beiguelman finalizou sua exposição abordando o caráter filosófico (e etimológico) da palavra “Wikileaks”, na qual “a parte ‘leak’ é a mais importante”, pois “remete a espaços livres” e a demais questões filosóficas contemporâneas.



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