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14/12/2010 - 14h30 - Atualizado em 21/05/2012 - 01h48

Cao Guimarães, Humberto Werneck e José Castello discutem as narrativas no mundo atual

Gabriela Sá Pessoa, 1º ano de Jornalismo

Os convidados discutiram, dentre outros assuntos, o modo como reproduzem a realidade em suas narrativas

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As atividades do último dia (10 de dezembro) do III Seminário Internacional Rumos de Jornalismo Cultural se iniciaram com a mesa "Criatividade e Narrativas – Fundamentos". O encontro, promovido pelo Itaú Cultural, foi conduzido por Cao Guimarães, Humberto Werneck e José Castell e mediado pelo gestor do Itaú Cultural, Claudiney Ferreira.

Ferreira começou a discussão perguntando aos três convidados quais eram os seus respectivos princípios narrativos, isto é, o que os impulsionava a narrar. Primeiro a se pronunciar, o cineasta Cao Guimarães contou que ele se baseia nos aspectos instigantes do mundo ao seu redor. A fim de explicar o modo com o qual transforma realidade, Guimarães comparou-a a um lago, com o qual há três maneiras distintas de interagir: pode-se contemplá-lo, “jogar uma pedra” para embaralhar suas águas, ou, por fim, “se lançar” dentro dele, imergindo completamente na realidade.

O diretor de Ex-isto também revelou que seu processo criativo ocorre de maneira autêntica: “A obra é quase como uma entidade que está fora de mim e quer baixar”. Cao Guimarães ainda frisou a importância da forma em suas produções, a qual considera mais importante do que o próprio tema.

Em seguida, o jornalista Humberto Werneck tomou a palavra e se apresentou como um “contador de histórias”, apaixonado pelas pessoas e pelo que elas têm a dizer. Ele lembrou aos presentes uma lição aprendida com o poeta João Cabral de Melo Neto, para quem escrever “é dar a ver com as palavras”. A frase tem guiado sua trajetória como escritor, a qual é baseada no objetivo de tornar a realidade sensível e na preocupação em encantar o leitor. “Seja lá o que escrevo, tenho a preocupação de seduzir, captar o leitor da capitular até o final”, completou.

Não é à toa que a padroeira do jornalista é Sherazade, uma das maiores contadoras de histórias da ficção universal. No entanto, suas semelhanças com a personagem da literatura árabe se resumem à capacidade de envolver o leitor. Werneck destacou que, na prosa jornalística, a atenção do leitor deve ser mantida a fim de que ele receba informações sobre um acontecimento, propósito distinto do utilizado pelo escritor de ficção. Este último, para Werneck, “não escreve porque sabe [de um determinado assunto], mas para ficar sabendo”.

José Castello, por sua vez, frisou que a realidade é, em sua totalidade, algo inacessível. Sendo assim, a criação e a recepção de narrativas são fragmentos do real. Para o colunista do jornal O Globo, a realidade não pode ser encadeada de maneira coerente em um texto. Por isso, o narrador cometeria um crime ao tentar refazer o mundo com palavras.

Ainda sobre a representação da realidade, Castello tratou especificamente do cotidiano da imprensa, na qual o domínio sobre a escrita do jornalista está nas mãos de pauteiros e editores. Werneck acrescentou à fala do companheiro que, muitas vezes, a realidade tem de se adaptar à visão de pessoas influentes nas redações.

Um dos mais agitados momentos da mesa ocorreu quando os convidados debateram a questão da imparcialidade no jornalismo. Humberto Werneck afirmou que um dos desafios do repórter é “livrar-se de seus preconceitos” e ter uma “virgindade no olhar para ver o personagem”. Castello completou a fala do colega, afirmando ser um bom repórter aquele que “chega desarmado para ser capaz de levar sustos.”

Por fim, o mediador Claudiney Ferreira pediu a opinião dos convidados sobre a relação entre as narrativas e as novas mídias. Castello se declarou a favor da expansão tecnológica, mas frisou a importância de se trabalhar criativamente com as novas mídias. Já Werneck afirmou não ter “pé atrás”, mas se preocupa com o fato de que, na internet, as pessoas escrevem o tempo todo e não têm tempo para ler. Cao Guimarães finalizou a discussão com uma frase emblemática: “a questão é continuar a ser sujeito, e não objeto nesse turbilhão”.  



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