Inspirado em canção da "Ópera dos Três Vinténs", de Brecht, filme de Lars Von Trier mantém aspectos dramáticos refutados pelo alemão
O dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) acreditava que o teatro não deveria absorver ou hipnotizar o espectador, mas sim provocar um estranhamento e distanciá-lo da narrativa, o colocando na posição de mero observador. Só assim ele poderia não só julgar, mas aprender com o conteúdo de uma peça de teatro.
Dentro da linguagem de Dogville, filme dirigido por Lars Von Trier, podemos perceber os artifícios da estética que o dramaturgo desenvolveu, no século passado, a partir de suas formulações sobre o teatro épico e didático. Porém, apesar de o longa ter sido influenciado pelo estilo revolucionário do alemão, ele apresenta importantes contradições em relação à obra de Brecht.
O filme possui uma simetria singular com a temática abordada pelo dramaturgo alemão: a questão social. Esta, no entanto, aparece num sentido muito mais ligado à natureza do homem do que relacionado à luta de classes. Como pregava Brecht, o objeto também tem grande força no filme. Porém, visão desse conceito fica, na película, por conta do comportamento de alguns moradores da vila de Dogville em relação à frágil protagonista, interpretada por Nicole Kidman. Os personagens, evidenciando naturezas possessivas e dominadoras, fazem-na uma ferramenta de trabalho e objeto sexual. É uma metáfora sobre a sociedade que Brecht se animaria em ver.
Evidenciar, metalinguisticamente, o aparato cênico é outra carqcterística da obra brechtiana apropriada por Lars Von Trier. Em Dogville, o diretor elimina a ilusão de verossimilhança da história, fazendo da cenografia uma alusão ao palco teatral – sem paredes, com pequenas marcações de espaço no chão. Além desse recurso cenográfico, o uso de técnicas de edição é outro artifício usado pelo diretor, tais como jump-cut e quebras de continuidade propositais, por exemplo.
O cineasta consegue quebrar o hipnotismo natural da sétima arte, ao passo que, em outros aspectos, entra em conflito com as concepções brechtianas. Pouco adianta lembrar o espectador do caráter ficcional do que ele está vendo, se a linearidade do teatro clássico, utilizada pelos filmes hollywoodianos, o embala num sonho tão bem construído como o de Dogville. O filme é dividido em blocos ligados por uma unidade de tempo. Diferentemente das peças de Brecht, nas quais cada cena é independente das demais e os acontecimentos não ocorrem de maneira linear.
Também se opõe às propostas de Brecht, o uso de técnicas do teatro dramático, tais como o conflito, clímax ou até mesmo a catarse. Esta última faz com que o público se envolva nos conflitos expostos na tela. Embora Brecht não negasse a emoção em suas peças, ele tinha por finalidade a troca da piedade e do terror pela vontade crítica e o aprendizado. Para ele, não importavam as causas da ação, mas sim colocá-la em dúvida - singularidades que fogem à tônica da película.
A construção das personagens de Dogville também entra em choque com a estética do dramaturgo alemão. O materialismo e a objetividade, pontos ímpares das tramas brechtianas, se perdem na subjetividade em que se encontra o filme. As personagens de Lars Von Trier ganham profundidade, a qual não se encaixa no fazer-teatro de Brecht.
Dogville, de fato, apresenta pontos em comum com a estética brechtiana, porém é custoso ouvir que o filme possa ser visto como uma versão cinamatográfica do teatro épico. Este último tem como objetivos a reflexão e a objetividade, enquanto a proposta do longa é enlevar o espectador, dar-lhe uma história cômoda que possua começo, meio e fim. Uma produção cinematográfica pode até trazer uma reflexão quanto à sociedade e a natureza humana, mas o faz mais da forma clássica de se contar uma história.
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